abr 03 2023
Os constrangimentos da governação em Moçambique
7. O drama da fome e da desnutrição crónica Por Dr. Thomas Selemane É bom lembrar que, conforme tenho explicado, por constrangimentos da governação entendo serem os aspectos – frutos das opções governativas, portanto resultados da acção humana e não fenómenos naturais – que impedem ou dificultam o nosso desenvolvimento enquanto nação moçambicana. No ano passado, 2022, vários órgãos de comunicação social noticiaram o facto de haver no nosso país mais de um milhão e meio de pessoas em situação de insegurança alimentar. Diziam as notícias que as razões para o tal drama estavam resumidas nos ataques terroristas em Cabo Delgado e nos desastres naturais – nomeadamente os ciclones Kenneth e IDAI. E acrescentou a imprensa que apesar de Moçambique ter registado na última década uma redução nos níveis de insegurança alimentar de 43% para 38%, desafios persistem, pois, há muitas mulheres grávidas e crianças que passam fome. Ora, o que a imprensa não disse é o seguinte: 1) Moçambique é um país com 35 milhões de terra arável (utilizável para agricultura e pecuária), mas apenas 14% dessa terra é utilizada. O resto não é utilizado não devido a um desastre natural nem ao terrorismo, mas devido a decisões ou opções políticas tomadas por quem governa o país. 2) Com tanta terra arável, muita mão-de-obra disponível e tendo a agricultura definida na Constituição da República como sendo a base de desenvolvimento do país, ainda assim, o país tem cerca de metade das crianças (48%) em situação de desnutrição crónica. Porquê? Por uma série de razões que se podem resumir nos seguintes factores: a) o sector da agricultura, particularmente o sector familiar e de produção alimentar, apesar de concentrarem 70% da força de trabalho a nível nacional, recebem pouca atenção política e orçamental. b) a maior quantidade de investimento directo estrangeiro e de inovação acontecem nos sectores de mineração, petróleo e gás, deixando para trás a produção alimentar. c) grande parte da indústria agrícola foi desmantelada no processo de transformação do país de socialista para capitalista nos anos 1980 e 1990. d) os nossos governantes contentam-se com a situação de produzir o que não comemos e só exportamos (algodão, tabaco, gergelim, bananas, etc.), e de importarmos o que comemos (arroz, farinha de milho, trigo, etc.). e) a nossa rede de estradas – como demonstrei no meu texto do mês passado – está configurada para servir os interesses dos países vizinhos, deixando para o segundo plano a ligação entre as zonas de produção agrícola e as zonas de consumo dentro de cada província ou de cada distrito. Vemos, então, que o principal problema reside na secundarização da agricultura. Para inverter a secundarização da agricultura, é necessário que o Poder assuma realmente o princípio constitucional, elaborando e fazendo cumprir uma política agrária explícita, ajustada e estável, com instituições de gestão profissional, que sejam eficazes e eficientes, e com maior afectação de recursos internos. Instituições democráticas que envolvam os agentes económicos nos processos de decisão e fiscalização e tenham capacidade de gerir conflitualidades à luz do Direito e em defesa dos direitos humanos. É necessária uma política agrária que corresponda à promoção de um desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade e que seja independente dos interesses económicos e políticos conjunturais. Ademais, os esforços conducentes a desenvolver o sector da agricultura e produção alimentar nos próximos anos devem estar reflectidos no orçamento por acções concretas e recursos específicos direccionados para promover iniciativas dos agricultores de pequena escala, particularmente mulheres e jovens, focalizando naquelas componentes do orçamento agrário que, quando implementadas, terão impacto directo neste grupo alvo, com destaque para as áreas de: (i) apoio directo à produção, (ii) serviços de investigação e extensão agrária e rural, (iii) sistemas de irrigação de média e pequena escala, (iv) microcrédito e serviços financeiros rurais, v) gestão pós-colheita e (vi) segurança de uso e posse de terra. Particular atenção deve ser dirigida para a agricultura familiar e as opções das práticas agro-ecológicas associadas, para o alcance da soberania alimentar.
abr 03 2023
Comportamento violento no ambiente escolar
Por Dr. Graciano Armando A escola é o local destinado a aprendizagem, não só da ciência como também da “vida”. É sabido que a família tem uma grande responsabilidade na educação primária dos filhos, e a escola tem esta nobre tarefa de complementar. E educar implica também demonstrar com as próprias atitudes (exemplos), sejamos professores assim como a família (a base da educação). Seja a escola assim como a família devem ser concebidas como locais de promoção da ética e moral que irão traduzir-se na boa saúde física e mental e, consequentemente na prevenção de comportamentos desajustados que se traduzem em violências. A Organização Mundial de Saúde (OMS), no seu Relatório de 2002, define a violência como o uso intencional da força física ou do poder real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, ou seja qualquer possibilidade que resultar em uma lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação. E ainda, no mesmo Relatório, entende-se que a violência é compreendida como um problema de “saúde” pública e assim pode ser concebida como qualquer acção intencional, perpetrada por indivíduos, grupos, instituições, classes ou nações dirigida a outrem, que cause prejuízos, danos físicos, sociais, psicológicos e/ou espirituais. A violência surge em contextos e situações nem sempre bem identificados. Neste contexto, torna-se fundamental uma intervenção educativa, não só dirigida aos jovens, adolescentes ou crianças, mas a todos os cidadãos, envolvendo todas as camadas sociais, pois todos, enquanto sociedade global, somos chamados a intervir e contribuir para uma sociedade mais justa, igualitária, com princípios humanos e morais, e tudo isso é possível com base em uma educação aprimorada e bem apostada. A violência no contexto geral e nas escolas em particular, não é um fenómeno recente e tem estado presente nas nossas experiências quotidianas. Através da mídia, em conversas emcírculos de amigos, nos transportes públicos e até mesmo, constantemente, nas próprias escolas há muito debate em volta disso. Aliás, até mesmo na prática. O violento é o que é contrário ao direito e à justiça, pois a origem da palavra violência é latina, para designar o que é violento ou bravio, força. Consequentemente o verbo violare(latim) significa tratar com violência, profanar, transgredir. (Leia-se em quaisquer dicionários enriquecidos da língua portuguesa). Por isso, quem pratica violência está perante a transgressão da lei moral de convivência social. Pratica a injustiça ao não reconhecer o direito que o outro tem de viver livre de qualquer atitude que o crie dano físico, psicológico e moral. Portanto, a violência é todo acto de força contra a espontaneidade, a vontade e a liberdade de alguém. Para dizer que faz parte de violência forçar a vontade do outo. Implica o não reconhecimento da sua liberdade. O mais importante aqui é não confundir o sentido do termo “liberdade” com “libertinagem”. Tipologias e contornos de violência É certo que a violência escolar seja um fenómeno que ocorre em contexto escolar e que seja uma problemática antiga, mas actualmente vem tomando proporções assustadoras. Muita coisa motiva para o facto de maximização da violência e de seus modelos: (muita exposição de acções de violência frente às crianças, muita disponibilidade de jogos violentes e de vídeo-games similares incluindo as novelas, os filmes de guerra e outros, conflitos familiares na presença das crianças, se quisermos perceber que toda acção do adulto é modelo para as próprias crianças). A violência no geral, e escolar em particular, pode ser, ainda, entendida como toda a conduta que é destinada a magoar outra pessoa, física, moral e/ou psicologicamente, resultante de um sentimento de frustração, onde o indivíduo procura obter algo, coagir outrem, demonstrar domínio e poder sobre o outro que ele mesmo elege como sua vítima. Este tipo de violência exprime-se ainda em comportamentos agressivos (físico, psíquico e moralmente) e anti-sociais, incluindo os conflitos interpessoais, danos ao património e actos criminosos de várias ordens. Muitas dessas situações são dependentes de factores externos, cujas intervenções podem estar além da competência e da capacidade das entidades do sector da Educação e de seus funcionários e mesmo além da família – situações extremamente difíceis. Porém, percebe-se que não apenas os alunos, mas também os professoresestão sujeitos a situações de violência no ambiente escolar, umas vezes como vítimas outras vezes como protagonistas, é claro. No que concerne à violência escolar, importa antes de mais considerar que o tal acto ocorre quando um ou mais alunos passam a perseguir, a intimidar, humilhar, chamar por nomes cruéis e maldosos, excluir, ridicularizar, demonstrar comportamento racista, de exclusividade, regionalista, preconceituoso etc. assim como agredi-lo fisicamente. Uma e outra destas situações também praticadas pelos professores está na mesma senda. A violência no geral e no ambiente escolar em particular, interfere de maneira significativa e negativamente na vida dos que nela estão envolvidos, por ser um fenómeno que afecta ao nível psicológico, o que é mais complexo quando se trata de crianças ou adolescentes que ainda não possuiem discernimento para reagir a determinadas situações. Estando envolvidos com situações dessa natureza, tanto os vítimas assim como os protagonistas tendem a desligar-se dos estudos, resultando em prejuízos na aprendizagem, o pior dos quais o baixo rendimento escolar. E ainda com mais danos psicológicos como alterações de humor, baixa atenção nas aulas, perda de interesse pelos estudos, faltas às aulas ou recusa escolar, baixa auto-estima e muito mais situações desagradáveis que podem levar os indivíduos a suicídio ou homicídios, até mesmo desvio à normas morais sociais (marginalidade). Hoje em dia há muitas situações de marginalidade ou criminalidade nos jovens. E, ultimamente muita reportagem televisiva e mesmo nos jornais ou redes sociais mostra a grande “migração” da criminalidade para a adolescência. E um dos questionários é: O que está a acontecer? E aí a resposta pode tardar a chegar. Mas sabe-se que a falha no processo da educação é um dos maiores problemas, porque a adolescência é a base de aprimoramento escolar. Precisamos de apostar na educação. Profissionais, governantes e a sociedade em geral, apostar na educação! A educação é a base para
abr 03 2023
Os heróis de Moçambique
Por Kant de Voronha Fevereiro é o mês dedicado aos heróis moçambicanos, mercê da morte de Eduardo Mondlane. Para celebrarmos esta festa nacional, vamos partilhar uma reflexão na qual apontamos os heróis de ontem, os heróis de hoje e os heróis de amanhã. Temos consciência que a construção da nação moçambicana é um projecto conjunto que conta com a colaboração de todos, de diferentes perspectivas e personagens. Por isso, celebrar o heroísmo significa comprometer-se a cooperar no projecto nacional. O heroísmo, o que é? Quando lemos várias literaturas que nos apresentam a mitologia grega, percebemos que os heróis eram vistos, outrora, como semideuses; eram figuras míticas que se destacavam por serem supostamente filhos dos deuses. Deste modo, o herói era encarado como o grande protagonista de uma história, executor de acções excepcionais ou extraordinárias, com coragem e bravura. Por exemplo, os textos da Odisseia e da Ilíada descrevem histórias daqueles que eram considerados como heróis gregos, Aquiles, Teseu e Hércules. No contexto moçambicano, também o herói é alguém que se destacou sobremaneira na luta por Moçambique. Alguém com vida extraordinária, desmedida. Portanto, o herói é alguém com estatuto de antepassado. Ou seja, é um antepassado que deu a sua vida na construção do projecto da nação moçambicana. Entretanto, é importante destacar a distinção entre os heróis mortos e os heróis vivos. É o que segue abaixo. Os heróis nacionais Os libertadores: é a classe de quantos lutaram contra o colonialismo português. Uns mortos e outros ainda vivos. Os heróis não têm cor partidária, muito menos origem tribal ou regional, nem sequer apelido identitário. Engajados na promoção do bem comum, o seu foco foi ganhar a independência do país e garantir a liberdade dos concidadãos. Infelizmente a celebração fevereirina distingue uns e desonra outros. Existe a partidarização do heroísmo e consequente florescimento de ideologias libertárias que não agregam valores para a almejada unidade nacional. Os Super-heróis: esta figura é muito actual. Trata-se de todas as pessoas que se doam com abnegação para salvar o país contra os terroristas e todos os tipos de perigos e inimigos. Normalmente, as histórias destas pessoas são mediadas pela constante luta entre o bem e o mal. As Forças Armadas de Defesa de Moçambique, as Forças Locais, os Anaparama, etc., são exemplos a não esquecer. Os empreendedores: num país onde o índice de pobreza é elevado; onde a juventude gradua e o desemprego é o seu pão de cada dia, o empreendedor torna-se um herói engajado na luta pela sobrevivência. Esta figura aparece na estória como um mentor, tutor ou professor de outro herói. Torna-se um sábio que aplica as suas potencialidades para garantir o seu sustento e até empregar os demais. Nos dias que correm, o empreendedorismo virou moda em Moçambique. E muitos heróis vão “batendo” a cabeça para mudar a sua história e dar testemunho em primeira pessoa. Empreender implica sair da zona de conforto e não é tarefa fácil. Pois, muitas vezes, sair da zona de conforto provoca ansiedade, medo e aflição. Ir em direcção ao desconhecido é angustiante, às vezes. Então, quando uma personagem consegue sair de sua bolha, nós tendemos a admirar e gostar dela. O Resistente: muitos moçambicanos enfrentam uma vida dura todos os dias. De Janeiro a Janeiro e de segunda-feira a segunda-feira as ramelas carregam o seu rosto. Trabalhos duros, vida difícil, doenças incuráveis, a fome, a desnutrição, o HIV/SIDA, as catástrofes naturais e humanas, a nudez e a indiferença, a miséria e a penúria são fenómenos ordinários. O herói resistente faz parte da grande parte da estatística deste país. É uma legião de heróis anónimos relegados ao esquecimento e vivem ao Deus dará. Portanto, resistente é aquele que mesmo diante das dificuldades da vida não se resigna; ao romper do novo dia acorda com entusiasmo, com esperança de vida melhor, com olhar erguido ao encontro do incerto e ainda banhado de suor de uma luta coroada de derrotas amargas. O futuro foi-lhe roubado por aqueles que detêm o poder, o dinheiro, as coisas e tudo. Mas o herói resistente não se deixa abalar. Ou seja, por mais que a narrativa gire ao redor de sua força ou de sua coragem, ele mesmo não se vê como um herói, nem possui a autoconfiança de um herói. E essa característica de vulnerabilidade faz com que nós, leitores, ao adoremos ainda mais e torçamos por eles. Um exemplo de herói resistente é o camponês. A lista não termina por aqui. Você é um herói à medida que lutar não só para si, mas também e sobretudo para os outros. O grande problema do heroísmo moçambicano é o individualismo. Há muitas pessoas viradas para si, suas posses, seus interesses e alcances. O individualismo é igualmente coroado pela indiferença. Os outros não contam e nem existem. O maquiavelismo vai depenando Moçambique e, por consequência, a classe dos heróis resistentes vai aumentando diariamente e a cada novo censo de habitação que se realiza. Para reverter este cenário é preciso agir com altruísmo (Jo 13,34). Só assim, as minhas acções conscientes serão benéficas para os demais concidadãos. Só quem ama ao próximo é capaz de vencer a indiferença e a lei da enxada: “tudo para mim”. O altruísta sempre pensa nos outros antes de colocar a si como prioridade inalterável, porque tem um sentimento de responsabilidade e solidariedade com os problemas alheios. Isto é Humanismo: empatia e ética em conjunto.
abr 02 2023
A pandemia das igrejas em Moçambique
Por Pe. Ananias Milissão Moçambique conta, actualmente, com pouco mais de 900 igrejas legalizadas. Entretanto, o país tem conhecido um aumento substancial de seitas religiosas e tem mais de mil confissões religiosas operantes mas ainda não registadas em Moçambique. O Governo está a preparar uma legislação para regulamentar as igrejas em Moçambique substituindo a de 1971. O homem é por natureza e vocação, um ser religioso. Desejar a Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. O homem não vive uma vida plenamente humana senão na medida em que livremente vive a sua relação com Deus (CIC 27) através da prática da religião. De facto, a religião não é pura invenção da inteligência humana nem fruto da condição social do próprio homem, pois todo o homem, independentemente da sua condição social (seja rico ou pobre, feliz ou infeliz, empregado ou desempregado) é um ser religioso. A ser assim, a religião não pode ser usada como instrumento de combate e eliminação de problemas pessoais relativos a finanças, amor, emprego entre outros, pois a religião faz parte do ser do próprio homem cuja dignidade e felicidade consiste na sua união e no diálogo permanente com Deus (GS 19,1). A Igreja substitui o Estado? Embora as alegrias e as esperanças, as tristezas as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos mais pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo e da Igreja (GS 1), não é papel da igreja e da religião acabar com os problemas materiais dos homens. Na verdade, cabe ao Estado garantir coesão, unidade e organização social de modo que o bem comum seja usufruído por todos os cidadãos de modo a levarem uma vida verdadeiramente humana (DSI 168). Porém, visto que a missão do Estado de garantir o acesso aos bens disponíveis a todo o cidadão encontra-se seriamente comprometida por causa da corrupção que cria estruturas de pecado, nos dias de hoje, notamos na sociedade moçambicana o aparecimento em massa de igrejas que substituem o Estado na sua tarefa de garantir o bem-estar dos cidadãos, através do anúncio de um outro tipo de evangelho diferente do evangelho de Cristo: trata-se do evangelho da prosperidade. Evangelho da prosperidade Eclodiu na sociedade moçambicana uma nova epidemia, a epidemia das igrejas caracterizadas pelo anúncio da graça barata que é o discipulado sem cruz (Bonhoeffer). Todo o mundo quer ser discípulo de Cristo, mas não de Cristo que morreu na cruz. As igrejas aparecem a comercializar a graça divina pregando a solução para todo tipo de tristeza, sofrimento e desespero do homem de hoje. Deixam de anunciar o arrependimento que conduz à salvação (2 Cor 7,10) e pregam a prosperidade e o sucesso material, uma verdadeira deturpação dos ensinamentos bíblicos. Deus já não é o Deus dos pobres, dos que choram, dos famintos (Lc 6, 20-21) passou a ser Deus dos ricos, dos felizes, dos saciados. Na luta desesperada pela busca de melhores condições de sobrevivência é possível notar que estamos diante de uma sociedade ignorante e insensata. Diante das promessas de uma vida melhor e próspera (técnica usada para atrair mais adeptos), os moçambicanos acreditam ingenuamente que a pobreza, a falta de oportunidade de emprego, as doenças e muitos outros males sociais, sejam fruto da maldição e do castigo por um pecado cometido (Jo, 9,1-2). Igreja superstição social? As igrejas representam hoje uma forma moderna de superstição social. Não se ama, não se adora nem se presta culto a Deus por ser nosso dever e para nossa salvação, mas por se acreditar, de braços cruzados, na retribuição de uma vida abençoada e próspera. Não serão, hoje em dia, as igrejas o ópio dos moçambicanos (Karl Marx)? As igrejas têm sido refúgio e reposta da pobreza material que o homem não consegue superar, por isso, acredita-se que é indo à igreja que se adquire emprego, saúde, consegue-se conceber e encontrar um cônjuge. Face a tão grande insensatez social percebemos que a pobreza multiplica os endemoninhados (acredita-se que os pobres sejam pobres por estarem possuídos por maus espíritos) e a ignorância multiplica os exorcistas (que querem acabar com os problemas sociais através das orações). Fé versus ignorância Nota-se ainda que aliada ao desespero está a perda aguda da racionalidade, confunde-se a fé com a ignorância: o meu povo perde-se por falta de conhecimento (Os 4,6), a ponto de em nome da fé, e para sair do desespero, as pessoas desnudam seus corpos para que os pastores possam ungir e abençoar seus órgãos genitais a fim de tornarem-se férteis e fecundos. Portanto, a pandemia das igrejas em Moçambique é uma realidade fora do controlo das autoridades competentes, de modo que não se sabe quantas igrejas existem e onde operam, pois a cada dia vão surgindo novas igrejas e em qualquer esquina, e são igrejas cheias de gente vazia de fé. E, paulatinamente, a sociedade moçambicana, da pandemia vai desaguar, num futuro breve, no pandemónio. BOX Os referidos pastores e profetas usam a Bíblia e a interpretação desta muitas vezes de forma subjectiva. Usam água, supostamente abençoada por Deus, e fazem imposição das mãos nas cabeças dos seus crentes para deleitar a clientela. As igrejas emergentes trazem pessoas preparadas para servirem de testemunhos de sucesso. Os profetas com gritos, choros e muita descarga emotiva lançam mensagem aos seus crentes. A pobreza e o momento difícil por que o país passa está a criar espaço para que as igrejas prosperem. Parece que na sociedade moçambicana “já não há crentes, mas sim consumidores de produtos sagrados. Temos crentes consumidores de milagres”.
abr 02 2023
Quaresma, caminho de libertação
Não há sombra de dúvidas que vivemos num mundo quase eternamente quaresmal. Mundo de uma Quaresma quase sem Páscoa. Mas viver sempre ambiente quaresmal não passa de um círculo vicioso e venenoso para nossa vida espiritual e moral. Não restam dúvidas que no quadro das vivências humanas de famílias e amigos, entre homens e mulheres, haja sombra de vivência quaresmal sem Páscoa. Caminho perigoso e venenoso, já que a ressurreição de Jesus é tão disponível para tudo e para todos. De facto, a sorte que temos é que a ressurreição, acção de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, não é exclusiva, mas aberta a todos seres humanos, entre você e mim. Entre nós e vós. Uma Quaresma sem Páscoa perde seu sentido cristão, e se perde este sentido nós é que saímos a perder o profundo alcance da obra salvífica de Jesus Cristo. Na história da salvação, o povo de Israel ficou longo tempo à espera do Messias, escutando apenas o anúncio dos profetas e procurando viver com fidelidade, por vezes desobedecendo a Deus, mas sem perder a esperança da chegada de um Messias anunciado pelos profetas. Neste mundo cheio de afrontas, crimes e injustiças, sobretudo aqui em Moçambique onde há sempre sinais que causam desespero, é sempre fácil cair na tentação de uma Quaresma sem Páscoa. É fácil perder a alegria do evangelho. Sobretudo ante o clima de ataques dos terroristas em Cabo Delgado (e noutros pontos), diante da problemática da Tabela Salarial Única, a famosa TSU, o desentendimento na vivência familiar, os múltiplos divórcios, o desemprego exacerbado, as fofocas, a greve dos médicos, etc. Estas situações colocam em causa a esperança de um mundo melhor. São realidades que nos afundam em cada dia e em cada noite numa Quaresma sem Páscoa. Mas a esperança cristã, enraizada na pessoa de Cristo nosso Senhor, atesta-nos que estamos, neste tempo quaresmal, num caminho de libertação das nossas várias prisões da vida presente. O povo de Israel, apesar das dificuldades por que passava, nunca deixara esperar um mundo melhor, a acção libertadora de Deus. De modo que mesmo nós, diante da problemática da TSU, aflições existenciais, a nossa Quaresma conduz-nos sempre para o grande mistério da Páscoa, a Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Salvador. Assim, empenhados na oração, na prática do jejum e na caridade, a par e pouco percorremos este caminho da nossa libertação. Libertação das nossas inúmeras “quaresmas da vida”: a quaresma do sofrimento, a quaresma do egoísmo, a quaresma do ódio, da infidelidade, a quaresma do desentendimento e do desemprego, a quaresma de atritos familiares, a quaresma dos falsos messias, entre outros tipos. Unidos na mesma fé, percorramos este caminho da nossa libertação, buscando também libertar aos outros nas diferentes prisões e amarras da vida. Pe. Serafim João Muacua
abr 02 2023
Pluralismo religioso: provas de diálogo
Por Pe. Max Robol “O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos” (Papa Francisco e Ahmad al-Tayyeb, Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz mundial e da Convivência comum, 2019). “Se Allah quisesse, realmente ter-vos-ia feito uma única nação (mesma religião), mas (não o fez) para vos testar naquilo que vos deu; portanto, competi nas boas acções” (Alcorão, Surah “A Mesa” 5:48). Nos textos supracitados, o pluralismo religioso é considerado como vontade de Deus. Nisso, pode-se dizer que não há uma religião melhor do que outra; todas as tradições culturais e religiosas são necessárias para melhor manifestar as riquezas da plenitude de verdade que coincide com o mistério mesmo de Deus. Nós estamos a viver numa sociedade onde há diversidade de atitudes, de opiniões, de pensamentos, assim como há variedade de línguas, de religiões e de culturas. A pluralidade está relacionada à convivência de realidades diferentes, com diversas aplicações. Isto também se verifica em relação à diversidade das religiões. Como consequência, podemos dizer que o pluralismo religioso é a compreensão de que todas as religiões estão no mesmo nível. Isso não quer dizer que são todas iguais, mas que são todas legítimas e não há nenhuma religião melhor do que outra; assim, apenas Deus é o centro para onde todas caminham. Por conseguinte, o ser religioso é necessariamente convidado a adoptar atitudes pluralistas, ou seja, ter um novo olhar frente ao outro, ao diferente; buscar sempre o diálogo para um melhor conhecimento mútuo, com vista ao bem da sociedade e a uma convivência fraternal. A diversidade é um bem, uma dádiva de Deus. Por isso, é preciso reconhecer a pluralidade como um valor único e respeitável, que ajuda a olhar para o mundo numa perspectiva mais ampla. Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica EvangeliiGaudium, afirma: “A diversidade é bela” (EG 230). Por conseguinte, deve-se levar em conta a forma como se lida com essa diversidade, que atitude tomar. Deste modo, o cristão é chamado a ter um olhar compreensivo para o seu irmão que professa uma outra religião. O pluralismo, como um fenómeno da sociedade actual, desafia o ser humano a valorizar princípios e valores comuns; exige o conhecimento mútuo, o respeito, a solidariedade e o perdão. Então, qual é a base para manter uma atitude pluralista num diálogo entre religiões? Num documento intitulado: Carta Aberta e Apelo dos Guias Religiosos Muçulmanos aos Líderes das Igrejas Cristãs, escrito por 138 intelectuais muçulmanos em 2007, afirma-se que, por exemplo, a base para o diálogo entre cristãos e muçulmanos já existe. Faz parte dos princípios fundamentais das duas religiões: amor pelo único Deus e amor ao próximo. Continua o documento: “em obediência ao sagrado Alcorão, como muçulmanos convidamos os cristãos a encontrarem-se connosco com base no que nos é comum, que é também o mais essencial na nossa fé e prática: os Dois Mandamentos do amor”. Embora o Islão e o Cristianismo sejam obviamente religiões diferentes, é evidente que os Dois Mandamentos principais são um terreno comum e uma ligação entre o Alcorão e a Bíblia. Este terreno deve ser a base para o diálogo inter-religioso entre os crentes de boa vontade. Asseguremos, portanto, que as nossas diferenças não causem ódio e conflito entre nós. Vamos competir uns com os outros apenas na prática da justiça e das boas obras. Respeitemo-nos, sejamos justos e bondosos, e vivamos em paz, harmonia e confiança uns com os outros. Afirma o Sagrado Alcorão: “Certamente Allah ordena a justiça, a boa conduta, a bondade e o auxílio aos parentes, e proíbe as obscenidades, o mal e as atitudes opressivas; Ele aconselha-vos para que vós possais meditar” (Alcorão, Surah “A Abelha” 16:90). Jesus afirma no Evangelho: “Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). E mais: “Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O pluralismo religioso propõe atitudes comuns para construir uma sociedade eticamente responsável, que inclui a procura de boas relações, da tolerância e do respeito pela diversidade de culturas e de religiões, numa perspectiva de diálogo e acolhimento. O objectivo dessas práticas é a busca do conhecimento mútuo e a realização de acções concretas de interesse social, ambiental e religioso. Portanto, numa sociedade marcada por conflitos de diversas origens, terrorismos e todo tipo de violência; num mundo onde há degradação ambiental e desigualdades sociais, as religiões são chamadas a dialogar e a trabalharem em busca de fraternidade e reconciliação. Todos os crentes devem sentir o peso da responsabilidade de contribuir por um mundo mais justo e humano, de acordo com aquele “sábio desígnio” do nosso Criador.


