maio 10 2021
A RIQUEZA DE SANGUE
África dos nossos antepassados. África dos que lutaram e morreram por nossa libertação. África dos que sonham a igualdade de direitos e oportunidades. África daqueles que diariamente morrem explorados, injustiçados, empobrecidos, aniquilados nos seus sonhos. Esta é a terra onde Deus abençoou com muitas riquezas: humanas, naturais, florestais, minerais, marinhas, faunísticas, petrolíferas, etc. Pensa-se, desde muito tempo, que em África não existe riqueza saudável. Os que mais se sacrificam em trabalho, menos prosperam. Mesmo os assalariados não conseguem atingir os níveis de posse daqueles outros que seguem caminhos sinuosos. Enriquece quem serve a magia, quem passa por santuários obscuros, quem percorre caminhos de trevas e sem luz; quem passa de feiticeiro para outro, quem se transforma em cobra. Enriquece quem pratica iniquidade, quem corrompe, quem rouba, quem mata, quem se julga mais esperto, quem vive bajulando, quem se dobra diariamente para lamber chule, para carregar e adicionar trocos que caem debaixo da mesa do suposto dono. Mas isso tem consequências sociais, religiosas, políticas, económicas, relacionais, existenciais. É por esse motivo que se considera que os ricos de África e de Moçambique não o são como resultado do seu salário mensal. Esta é a história dos que vivem sempre subindo os outros. Assim foi também com o coelho e o camaleão. Por sua natureza, o camaleão tem passos lentos. Porém, quando se encontrou com o coelho exibindo o seu talento de correr rápido, o camaleão respondeu-lhe: – “Sim! Eu sei que não corro muito. Mas eu sou mais esperto do que tu. Força, corramos! Va-mos ver quem ganha!” Então o coelho começou a correr. O camaleão, no mesmo momento, subiu para a cauda do coelho, agarrou-se a ela e sentou-se. O coelho não sabia, ou não sentia o peso, porque estava com pressa. Logo que chegou à meta, o camaleão adiantou-se a saltar para o chão e sentou-se. Ora, quando o coelho ia sentar-se, o camaleão disse: – “Não te sentes sobre mim! Eu cheguei há muito tempo e estou à tua espera”. Então o coelho ficou muito aborrecido porque foi vencido pelo camaleão. É da mesma forma como muitas riquezas de sangue trepam a cauda dos menos espertos. Revestidos de hipocrisia aparecem como se fossem os melhores, perfeitos e até se gabam com a sua força e poder! E enquanto continuarmos na esteira deste modo de enriquecimento nunca faltará a multidão dos miseráveis cada vez mais remetidos ao abismo; nunca faltará o barulho da guerra, do crime, dos falsos feiticeiros que se oportunam da vida alheia para prosperar. A riqueza de sangue mostra que o horror da guerra semeado em Moçambique é igualmente uma das faces obscuras do enriquecimento ilegal, indevido, selvagem, ganancioso e abominável. Por causa da riqueza há quem manda matar, manda sequestrar, manda fuzilar, manda expulsar o povo das suas terras, manda explorar os recursos do país exportando-os clandestinamente para fora do país, manda silenciar os que vêem a luz. A vida de cada dia, as manobras que são produzidas e todas artimanhas dos elefantes cooperam sobremaneira na construção de riquezas de sangue que em nada facilitam o desenvolvimento de África e seus países. Os que se propõem liderar e gerir a coisa de todos, muitas vezes se apoderam de tudo e em nome do povo começam a enriquecer esquecendo-se daqueles a quem prometeram vida melhor e desenvolver o país. Utopia eterna. A guerra, as rivalidades, as divisões, as assimetrias, as injustiças, a corrupção e outros males sociais acontecem porque a fome pelo dinheiro e consequente riqueza coloca os reis e poderosos em conflitos intermináveis. Ora, para manter a sua hegemonia, a sua riqueza, o seu poder, a sua fama, a sua prepotência servem-se das armas para afugentar possíveis pretendentes. O maior interesse em tudo isso é a procura do Reconhecimento. Conta-se que há muito tempo, o elefante é que era reconhecido como rei de todos os animais. Mas, ao mesmo tempo, também o coelho tinha sido feito rei, mas ninguém sabia. Por isso, o elefante e o coelho lutavam entre si por esse mesmo reino. Queriam reinar em simultâneo. E por falta de reconhecimento por parte do povo começaram a lutar fortemente. Acontece, porém, que certo dia, todos os animais se reuniram para saberem ao certo quem era o rei. Com efeito, concordaram ir perguntar a Deus. O coelho mandou o macaco subir àquela árvore onde ia realizar-se a reunião, para responder quando perguntassem a Deus: “Quem é, ao certo, o rei?” Entretanto, se porventura perguntassem: “O rei é o elefante?” O macaco não devia responder. Mas quando fosse perguntado: “O rei é o coelho?” devia responder: “Sim! É o coelho”, senhor Deus. Ao responder devia mostrar maior reverência ao coelho. A garantia disso é que o macaco seria adjunto do rei se o coelho fosse declarado rei de todos os animais. Acontece que o elefante, por falta de esperteza não conseguiu armar nenhuma cilada para reforçar o seu poderio. E, portanto, no dia em que se reuniram, Deus perguntou: – O rei é o elefante?” Nessa ocasião, ninguém respondeu nada. Todos animais permaneceram calados. Deus perguntou por sete vezes se o elefante era o rei. Seguindo as orientações do seu chefe máximo, o macaco também permaneceu totalmente quieto e sem se mexer. Continuava pendurado na árvore em redor da qual estavam sentados os demais animais. Em seguida, Deus voltou a perguntar: – “O rei é o coelho?” E sem esperar a segunda vez, o macaco respondeu: – “Sim, Senhor Deus! O rei é o coelho! Ele é muito respeitado por todos nós e promove o desenvolvimento da nossa aldeia e de todo grupo”. Naquele instante, depois dos pronunciamentos do macaco, todos os animais souberam que o seu rei era o coelho. O elefante, indefeso, ficou muito zangado e fugiu para o mato. É desta forma como uns são ofuscados e ensombrados por aqueles que têm macacos pendurados em várias árvores para os defender. Os que não têm nada continuam a gritar sem ser ouvidos e, quando se esgotam, fogem para o mato e encolhem
O Cuidado à Vida e o Medo de Mahindra
A pandemia da COVID-19 está desnorteando muitas nações e milhares de povos. Apesar dessa realidade ainda se verifica gente que vai obrigar que seja solicitado o “mahindra”, viatura da Polícia da República de Moçambique, mais conhecida pela sigla, PRM, para que aprendam a se cuidar. Acompanhando as notícias e unindo-me em oração com o povo de Manaus, no Brasil, bateu no meu peito uma grande dor e preocupação! Até quando o cuidado à vida precisará sempre do mahindra para se verificar a ordem? Qual é o real problema de muitas pessoas que não se cuidam nem cuidam dos outros ao ponto de obrigar a intervenção policial? O que é necessário para que um povo aprenda a se cuidar e evite coisas piores? Com vista a desenvolver o tema desta crónica, vamos discutir alguns temas que acredito que estejam a faltar para que um povo não precise de “força maior”, de chicote ou chamboco nas suas ações. 1. Amor à vida O cuidado que cada mãe e pai tem para que a sua criança nasça com muita saúde, cresça bem e tenha longa vida, deve também haver uma escola familiar que quando falamos da vida também envolve a saúde, a alimentação e toda forma de viver que permite que a pessoa humana viva bem, cresça bem e chegue a terceira idade, viver se possível até aos 100 anos de vida. Não obstante ao esforço de muitos pais, temos observado que há gente que perdeu o sentido da vida. O hedonismo invadiu no meio de muitos grupos sociais. O prazer é trocado pela alegria. O outro é visto como última prioridade. 1.1. Ética do Cuidado Algumas pessoas pensam que são donas da vida e podem fazer o que quiserem. Por exemplo, temos muitas pessoas que bebem o álcool muito mal, fumam muito mal e ao serem questionadas dizem que a vida é delas por isso fazem o que quiserem. Na compreensão da ética do cuidado, a vida é um dom e cada um é protagonista e responsável em cuidar a sua vida e a vida da natureza, dos outros. Cuidar significa, inicialmente, saber o que a pessoa deve fazer e não deve fazer para que não coloque a vida em perigo. Cuidar significa ser prudente suficientemente para que a vida não corra nenhum risco. Um exemplo prático é a condução de um carro em que se aprende que “se beber não conduza” ou “se dirige o carro não beba”. Está claro que não há combinação entre o carro e o álcool. Porém, verificamos nas ruas das cidades muitos acidentes provocados por motoristas bêbados. Outro exemplo, é sobre o actual cenário mundial, covid-19. As instruções do sector da saúde sobre o uso de máscara, evitar aglomerações desnecessárias em festas nocturnas, baladas e boates etc. Cuidar é ter um carinho para que algo não se estrague e tenha muito tempo de vida. Existe uma obrigação moral para que todos tenhamos o cuidado à vida. Todos somos responsáveis de um do outro. Todos somos e formamos único ecossistema. Por isso viva e deixe o outro a viver. 1.2. Ética da liberdade e responsabilidade Ser livre é antes de tudo ser responsável pelas suas próprias ações. É assumir as consequências das suas atitudes. No dia a dia não é isso que verificamos, pois tem gente que clama pela liberdade mas vive a libertinagem. Tem gente que pensa que é responsável mas nunca assume os danos provocados pelas suas ações. Ser livre é cumprir com as obrigações e lutar pelos seus direitos. Ser livre é viver de acordo com as orientações da sociedade. Ser livre é se importar pelo bem comum. Ser responsável é fazer parte de uma sociedade e viver os ideais da mesma. Ser responsável é tomar uma decisão, executar uma ação e avaliar se foi um acto bom ou mau. Ser responsável é viver o direito e dever moral. Ser responsável é permitir que a consciência seja guia das as ações quotidianas. Embora muita gente saiba dos temas sobre a liberdade e responsabilidade, observamos o clamor de muita gente que de facto segue na contra mão da vida. Exemplo prático de gente que pensa que luta pela liberdade, mas não, é o grupo pró republicano, nos Estados Unidos, que invadiu o Capitólio, símbolo da democracia. Criaram caos e provocaram mortes. Usaram da libertinagem e não foram responsáveis suficientes para ver que consequências teriam a partir daquele acto macabro. 2. Amor à pátria e ao concidadãos Se estiver num país rico ou pobre, neste momento da pandemia, todo cuidado é pouco. Por isso deve investir no respeito com os outros. Cada um deve seguir “ao pé da letra” se possível, as orientações do governo e os agentes da saúde. Amar a terra própria não é somente defender a pátria da guerra e dos invasores. Mas também e fundamentalmente, é lutar contra a pandemia que cada dia dizima milhares de amigos, familiares e vizinhos. Abra os olhos e siga o caminho certo por um minuto e salvarás tua vida e a vida dos outros. O assunto amor à pátria não é para todos. É urgente que haja educação cívica para que se aprenda sobre a cidadania. Numa altura em que Manaus, Brasil, precisa urgentemente de oxigênio, algumas pessoas desviam esse produto precioso e necessário para salvar a vida de muitos pacientes. Será que essa gente ama a pátria? Não é hora de rir nem debochar a ninguém, mas unir esforços para lidar com a Covid-19. Deve haver união para cuidar uns dos outros mas também para denunciar aqueles que desviam os bens do Estado necessários para salvar vidas. É preciso e urgente denunciar os que brincam com a saúde pública. Enfim, desperte e viva! Cuide e ame! Ser feliz é estar bem com os outros. Ser livre é cumprir com os deveres e lutar pelos direitos de todos. Ser responsável é assumir as consequências das suas ações. Cuidar é amar e respeitar ao outro. Acredito que se o que discutimos um pouco acima cada um
jan 13 2021
MOÇAMBIQUE, TERRA DOS LOUCOS (PARTE II)
Aproveitando o calor intenso que até nas manhãs o sono não é agradável, ou seja, além da noite quente também nas primeiras horas do dia é quente, retomo a crónica sobre Moçambique terra dos loucos. Como eu disse anteriormente, considero ser terra de loucos apresentando as diferentes loucuras. Loucura num sentido positivo, como vontade de ver algo melhor. Desta vez partilho o que verifico nos mercados formais e informais, lojas, supermercados, barracas e bancas: cada um quer ficar rico de uma única vez ou quer aproveitar para explorar os outros. Loucos por um Moçambique com preços de produtos justos Desde a preparação intensiva para a celebração do Natal do Senhor até a entrada de 2021, alguns preços de produtos de primeira necessidade subiram exageradamente. A que se deve essa subida de preços? Como continuar a viver numa terra onde comer, por exemplo, uma batata “Reno” ou “inglesa” é luxo? Agricultura, pecuária e indústria sem nenhuma expressão regional Não quero dar razão a nenhum comerciante, no entanto, os preços altos de produtos de primeira necessidade podem ser motivados pela fraca expressividade das áreas agropecuária e indústria. Muita coisa que se consome no país, Moçambique importa. Com o problema da Covid-19, a importação pode ter sido afectada. Loucos por ver um Moçambique explorando suas potencialidades nas áreas agrícolas, terras férteis e povo trabalhador. Deve ser urgente o abandono da agricultura de subsistência. A enxada com cabo curto serve somente para alimentar uma família de oito pessoas. Moçambique já não é mais uma família de poucas pessoas. O país já regista cerca de trinta milhões de habitantes. Deve se traçar políticas que favoreçam a produção para o consumo interno e a exportação. Loucos por Moçambique com uma indústria que produza o básico. Que haja pelo menos uma indústria que processa a ração de galinhas. Conversando com um amigo que tem aviário, criação de galinhas poedeiras, disse-me que na região norte de Moçambique, dependem do Malawi para o fornecimento de ração. Entretanto, incentiva-se a criação de animais de pequeno porte. Como avançar com projectos idênticos se não há facilidades? A falta de ração compromete o negócio de ovos e consequentemente, os ovos acabam sendo muito caros. Antes de se pensar na criação, por exemplo, de galinhas para o consumo local, deve haver uma fábrica de ração e tudo que permita o funcionamento de um aviário. Braço de aço para mais fiscalização O governo deve incentivar a circulação de produtos nacionais embora como vimos no ponto número um, a produção local é fraca. Porém, quem importa, não deve aproveitar para se tornar rico numa única venda. O governo deve fiscalizar, monitorar e avaliar os preços de acordo com o salário mínimo do país. Não é justo, um quilo de açúcar custar, por exemplo, numa loja MZN 78,00, aproximadamente um dólar, e noutra loja ser quase um Euro, isto é, MZN 90,00. A concorrência de preços deve ser leal e não uma competição para ver quem vende mais aplicando o preço mais alto. Honestidade nas balanças Loucos por um Moçambique com balanças justas ou balanças halal. Na correria do dia-a-dia, muitas vezes, a pessoa se esquece que o quilograma que antes era 1000 gramas, hoje tem outra medida. Dependendo da honestidade de um vendedor, pode ser de 800 gramas ou mesmo 700 gramas. Além de venderem caro, alguns comerciantes, principalmente os informais, adulteram a balança para ganharem mais e mais. Se fores ao mercado “Waresta” em Nampula, irás ouvir o termo balança halal, ou seja, uma balança que minimamente pesa o que equivale “quilo certo”. Em mercados muito movimentados como Waresta, o tempo é limitado para verificar se a balança é halal ou haram (justa ou injusta). Consumidor consciente Loucos por um Moçambique que tenha consumidores conscientes. Que adianta fazer uma concorrência desleal? Se tu ganhas cinco salários mínimos sempre terás as condições de fazer boas compras e talvez nunca irás sentir que os preços subiram. Os milhares de moçambicanos que ganham único salário mínimo, sempre irão murmurar que os preços sobem cada minuto. A questão não deveria se basear na diferença salarial mas numa sociedade consciente que tem direito de comprar os produtos, pelo menos, da primeira necessidade, a preços justos. No final da quadra festiva, alguns jornalistas da TV local mostraram um fenómeno não humano que se verificou no Mercado Grossista de Zimpeto, na cidade de Maputo. Importaram grandes quantidades de batata Reno para atender aos clientes que se preparavam para festejar o Natal. Não obstante o interesse do povo em comprar as batatas, esconderam em algum lugar para que na hora certa vendessem a preços altíssimos. Conscientes de que não passava de um “roubo”, muitos clientes recusaram-se a aderir ao fenómeno. Ninguém foi comprar as batatas. Pela demora na liberação dos armazéns, as batatas decidiram ficar podres antes do destino final: enriquecimento ilícito de certos vendedores. Que proveito tem ao deixar apodrecer as batatas que vende-las aos irmãos que tanto as procuraram para comerem nas festas? Por um lado, parabenizo pelo tipo de consumidor consciente que decidiu não aderir ao esquema e por outro lado lamento pela atitude de algumas pessoa que mancham o bom nome de vários moçambicanos que sobrevivem fazendo o comércio justo. Guerras e Coronavírus Loucos para ver Moçambique livre de guerras e de Covid-19. Os preços altos que nesta crónica constituem prato forte podem ser motivados pelas guerras: do centro do país e do norte (terrorismo em Cabo Delgado) e pelo Coronavírus. Quando há guerra, muita gente se aproveita para ficar rica facilmente. Por isso, em Cabo Delgado, norte de Moçambique, os preços são típicos. Porque há maior procura de produtos de primeira necessidade para atender quer os deslocados de guerra quer os que se encontram nas zonas de refúgio, como cidade de Pemba, notou-se uma subida excessiva de preços. Os comerciantes culpam a guerra e Coronavírus. Muitos se aproveitaram disso e vendem tudo a preços insuportáveis. Loucos por ver um Moçambique solidário. De gente que entende que na condição em que o país
jan 13 2021
MOÇAMBIQUE É TERRA DE LOUCOS (Parte I)
Poderá alguém sentir-se ofendido por causa do título desta crónica pelo facto do autor generalizar que Moçambique é terra de loucos? Se se sentiu incomodado então saiba que está de parabéns porque podes ser menos louco ou mesmo estás bem saudável. Mas calma aí. De que loucura eu aponto? Em que consiste chamar ao meu país terra de loucos? Loucos por um mundo melhor Por muitos anos, Moçambique, o povo tem lutado loucamente para ver o país em boas condições socioeconómicas. No entanto, há uma corrente de gente que pensa que os moçambicanos estão a servir um punhado de folgados que imaginam no seu próprio umbigo. Há impostos como outros países mas parece que ninguém fiscaliza a aplicação desses impostos. Introduzem portagens como noutros países, mas caso de Moçambique muitas estradas foram invadidas por buracos. Constroem escolas e hospitais mas não cuidam da manutenção ou aprovam a um empreiteiro que deixará o tio Nyusi chateado na hora de uma suposta inauguração. Não enganam o homem porque de qualidade de uma obra, ele entende. Se formos a avaliar detalhe por detalhe poderemos escrever volumes de crónicas. Sim, Moçambique está louco em ver um mundo melhor mas falta ainda caminhos claros que permitirão atingir os objectivos. Nunca usar “shot ways”, corta matos para chegar a meta. Louco por um Moçambique de paz Estamos no início do ano, e por sinal, cada um traça sua meta anual. Mas será que cada um inclui também a conquista de uma paz interior? A guerra em Moçambique pode ser devido ao problema das “guerras interiores” que muita gente produz nas suas vidas. Para que haja uma paz efetiva proponho alguns passos. 2.1. Loucos por um Moçambique de Humildes Deve haver em cada um de nós a humildade na nossa convivência, no trabalho, na família e em cada encontro com o outro. A ideia de pensar-se que só o “eu” tem razão, é criar uma vereda que levará a conflito e a posterior guerra. Ser humilde é ter a capacidade de rebaixar-se diante de alguém seja menor que nós ou mais pobre que nós. Seja, primeiro, humilde se quer ver um país livre de guerra. 2.2. Louco por um Moçambique de Diligência É fácil encontrar alguém que quer ser rico, mas não faz menor esforço para ser rico. Vai ao serviço mas trabalha porque está diante do chefe ou porque foi pressionado para apresentar evidências do trabalho, produtividade etc. Como iremos ver Moçambique rico se muita gente quer emprego, porém não trabalha? Não basta pedir ao tio Nyusi que crie empregos se pouca gente se preocupa em doar-se no trabalho. Aliás, os poucos que se dedicam podem ser zoados de que trabalho é do pai deles. Algumas pessoas se tornam ricas por trabalhos obscuros e obtenção de dinheiro ilicitamente. Outras se unem aos terroristas para ganharem dinheiro facilmente. O país é seu, meu e nosso. Portanto, deve haver entrega à causa se todos queremos ser loucos por um Moçambique de diligentes, país livre da pobreza extrema. 2.3. Louco por um Moçambique menos pobre Que haja desapego, partilha e solidariedade no meio dos contemporâneos. A vontade de se ter tudo aniquila o desejo de ser uma pessoa humana. Acredite se quiser mas, em Moçambique, que no ranking internacional ocupa um dos dez países mais pobres do mundo, há gente que cada dia se torna mais rica e tem bens que distribuindo equitativamente ninguém passaria um dia sem pão em casa. A que se deve isso? A ganância e o egoísmo estão a sobressair cada vez mais. Atenção, se estamos loucos em ver um país de paz, por favor, partilhe seus bens e seja solidário com os necessitados. Não julgue os pobres mas promova-os para que eles tenham no mínimo pão nas suas casas. Por enquanto paramos aqui e retomaremos a reflexão noutro areópago. Servo inútil. Pe. Fonseca Kwiriwi, CP
O MUNDO VESTIU-SE DE MÁSCARAS
Por Kant de Voronha Agora o mundo vestiu-se de máscaras. A humanidade experimentou e ainda enfrenta o confinamento dentro das casas e com medo de um inimigo invisível, o Coronavírus que tem nome famoso ao qual chamam Covid 19. Sim. É essaCovid 19 em todas as línguas. A humanidade foi desafiada passando por um tempo de profunda provação. Pois, fecharam as Igrejas, fecharam as mesquitas, fecharam as escolas, fecharam as universidades, fechou a alegria, fechou o horizonte de 2020 ser um ano carregado de prosperidade. Baixou a economia mundial; baixou o poder aquisitivo; baixou o fluxo de viagens nacionais e internacionais. Será que ficámos iludidos na passagem ao ano novo? Tínhamos muitos projectos e propósitos. Esperávamos que 2020 fosse um ano intensamente de muitos sucessos. Quem ainda continuaa dizer isso? Perdemos a esperança? Apagou-se a torcida que fumegava? Até alguns perguntam: “porque Deus permite esta pandemia? Mas ainda é cedo para atirar pedras a Deus. A Bíblia ensina que “Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu” (Ecle 3,1-8). Agora estamos no tempo de Coronavírus. O tempo das máscaras. O tempo do distanciamento social; o tempo de quarentena; o tempo de isolamento; o tempo de túneis de desinfecção; o tempo de lavar as mãos com água e sabão ou cinza; o tempo de não abraçar nem beijar; o tempo de bater cotovelos ou os pés ou ainda de vénias em jeito de saudação; o tempo de rezar intensamente em família; o tempo das igrejas e mesquitas fechadas; o tempo das aulas suspensas e escolas encerradas; o tempo de estudos online; o tempo em que o professor é opróprio encarregado de educação; o tempo de pagar mensalidades mesmo sem aulas presenciais; o tempo de saudades; o tempo em que a liberdade é coarctada,etc. etc. Mas o que é que vamos aprender com este tempo? Será que aprendemos a manter a higiene pessoal e colectiva? Aprendemos a cultivar a virtude da oração em nossa casa? Aprendemos a reconhecer que a Igreja não são os templos das 4 paredes, mas somos nós? Aprendemos a ensinar os nossos filhos sobre matérias escolares? Aprendemos a confiar em Deus? Qual é a lição que você vai tirar deste tempo? Essa coisa de máscaras iiiiiii!!!Nas ruas vimos todos tipos possíveis de máscaras: de pano, de coco, de folhas de árvores, de panelas, de alumínio, de ferro, da farmácia, etc. Às vezes para reconhecer alguém que usa máscara não é fácil. É normal cruzar com um amigo e não o reconhecer; cruzar com um bandido que parece pessoa sadia. As máscaras escondem a nossa face real. Quando alguém está sorrindo ou nervoso não se nota. Por isso os hipócritas usam máscaras. O inimigo desconhecido vestiu-nos com máscaras. Para exigir o cumprimento das medidas de prevenção da pandemia e as exigências do decreto presidencial durante a vigência do estado de emergência, vimos acções violentas e cruéis de alguns agentes da Polícia da República de Moçambique. Não sei se foi por ajuste de contas. Mas não faltaram exageros de indisciplina ou excesso de zelo que culminaram com a morte de uns e ferimento de outros. Mas esse agir era indistinto. Pois, alguns fiscais entre polícias e outras entidades autorizadas quando encontravam bêbados reunidos em convívio, o tratamento variava consoante o aliciamento que se lhes dava. Em alguns lugares o acto era voluntário: “embrulhavam” o chefe (polícia) com um envelope de 100Mt ou menos e o chefe fazia de contas que não viu nada. Ao passar por esse local, as pessoas continuavam a conviver, normalmente. Noutros lugares onde os vendedores oferecessem resistência, choviam chambocos, algemas arbitrárias, detenções e até balas verdadeiras para dispersar os cidadãos. Na ocasião, um chefinho gritava com voz de macho: “Onde está o meu refresco?” Este cenário lembrou-me o discurso do saudoso Presidente Samora Machel que dizia: “O polícia deve ser um elemento político, altamente educado e cortês. Um polícia não pode dar um pontapé a ninguém! O polícia que dá um pontapé a um cidadão, não respeita e não sabe o que representa a farda que enverga. Um polícia a espancar as pessoas é o cúmulo da vergonha! Este elemento não serve para a estrutura do Estado. O nosso polícia não tem privilégios. O seu privilégio é servir bem a República, é zelar pela aplicação da Constituição, é fazer respeitar as leis, educar os cidadãos. O polícia deve preocupar-se em conhecer as leis para as fazer respeitar, conhecer a Constituição para a saber defender. Ele deve respeitar o sofrimento dos outros”. Parece que Samora via de longe que no tempo de Coronavírus haveria crueldade. Continuemos vigilantes na observância das medidas de precaução, implorando que Deus faça chover sobre a humanidade “novos céus e nova terra” purificados pela Covid-19. Continuemos vigilantes e perseverantes na oração. “Não se perturbem os vossos corações. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim” disse Jesus (Jo 14,1.6). E mais não disse!
out 07 2020
EU SOU UM NEGRO MUITO CARO
Por Kant de Voronha Em muitas ocasiões, famílias há que se dizem civilizadas e, portanto, portadoras da cultura do outro continente estrangeiro. Esse tipo de pessoas não se identifica nem tão pouco com a cultura dos seus pais e antepassados. Vivem como se fossem oriundas de Portugal ou Espanha ou Brasil. Tudo quanto as caracteriza é a cultura doutro mundo. Única coisa que estimam é a cultura da Televisão. Lembra-me, igualmente, aquilo que um senhor disse emcerta altura ao afirmar que: “Existe a civilização de não saber nem querer falar a língua Emakhuwa. Um fenómeno estranho verifica-se entre alguns membros que são mas não querem identificar-se como pertencentes à etnia Makhuwa: não sabem falar a língua; e isso chamam de “civilização”; repreendem os seus filhos se os apanham a falar essa língua; expulsam empregados que se atrevem a falar Emakhuwa no recinto da casa. Será Auto negação?” Ao ler esta afirmação que é verdadeira, caiu-me um oceano de lágrimas escorregando sobre o meu rosto macio. Parecia ter visto uma legião de fantasmas rodeando a minha presença. Chorei porque conheço inúmeras pessoas que realmente pensam ser civilizadas. São pessoas que nos envergonham porque elas próprias se envergonham da nossa cultura. Nasceram cá, no meio duma floresta e cresceram no clima ambiental de muitos de nós. Mas porque leram um pouco, tentam esquecer não só a sua cultura, como também os seus pais e familiares. É uma autêntica vergonha cultural. São pessoas que vivem sem identidade, carregadas de falsidade porque vivem de aparências. Tudo quanto fazem é aparentar-se com aparência, mas o coração está vazio, desprovido daquilo que lhe é essencial. Talvez esqueceram que “as aparências enganam”. Na verdade, há muitas pessoas que não falam a língua materna; proíbem seus filhos de aprender e falar a língua local com seus amigos e fingem de viver como estrangeiros. Enganam-se a si próprios e enganam a quantos acreditam em suas mentiras. Vivamos como nós e sejamos protagonistas da nossa cultura. Pois, aqueles de quem queremos imitar a língua e a cultura, torcem por manter a hegemonia da sua própria cultura e língua maternas. Não adianta tentar viver como não natural de cá enquanto o seu berço é negro e a sua cultura makhuwa ou maconde ou Sena ou ainda Nyungwe, Ndau, machangana, etc. Identifiquemo-nos connosco mesmos e uma verdadeira pessoa não se envergonha de ser o que é. Aliás, o desconhecimento da língua remete-nos à ignorância da sua cultura. Por isso mesmo, a língua é uma das manifestações culturais que fundamentam a identidade de um povo. É também um dos elementos essenciais na construção da subjectividade, possibilitando o elo das novas gerações com a herança cultural da comunidade a que pertencem.A oralidade, em especial, é a manifestação da língua viva e, como tal, é dinâmica, variando de acordo com o uso que fazem dela. Assim, é pela oralidade que a identidade de um povo se mostra com mais força, revelando a diversidade, os conflitos, as tendências presentes em sua sociedade. Tal como acontece em muitas famílias que vivem nas cidades, o casal de Malaquias Omar e Josina Mussa tem 3 filhos. Malaquias nasceu em Morrumbala e Josina teve a sorte de nascer na cidade de Maputo. Por ironia do destino, este casal fixou a sua residência na cidade de Nampula onde trabalham para combater a fome e ganhar o pão de cada dia. Juju, Fifi e Fufa (a tripla desse casal) não sabem outra língua moçambicana senão a língua de Camões (Português). Juju tem 25 anos. Depois de terminar a Faculdade teve a oportunidade de trabalhar como técnico agrónomo no distrito de Lalaua. Outra chance não havia senão falar com os camponeses em Emakhuwa que ele não sabia. Um mês depois, tentando enganar que sabia morder algumas palavras de makhuwa, voltou para dar relatório a seus pais com desejo ardente de abandonar o serviço. Assim que chegou a casa de seus pais disse: “Vocês são culpados. Se me tivessem ensinado ou se me deixassem aprender emakhuwa hoje não estaria a passar por esta vergonha. Estou quase para ser despedido no serviço porque não consigo comunicar-me com os camponeses”. Carregado de lágrimas nos olhos, Malaquias soluçou algumas palavras em jeito de resposta: “Filho, eu sou um negro muito caro. Já estou civilizado. Isso de falar língua local é rebaixar-se”. É assim como muitos moçambicanos se inferiorizam negando as suas origens culturais. E também é dessa mesma forma que alguns jovens perdem oportunidades de trabalho por falta de domínio da língua materna. Será o seu caso? E mais não disse!


