set 30 2021
Crónica – ESTE HOMEM NÃO É DA NOSSA TERRA
“Todo o reino, dividido contra si mesmo, fica devastado; e toda a cidade ou casa, dividida contra si mesma, não poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo: como há-de subsistir o seu reino? E, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam, então, os vossos discípulos?” (Mt 12,25-27) Uma das estratégias mais antigas que o espírito mau usa para confundir e derrotar a humanidade é a velha táctica de dividir para reinar. Esta é uma técnica de batalha tão efectiva e maquiavélica que a própria humanidade, sob a influência do espírito mau, tem reproduzido desde épocas antigas. A história faz-nos reviver a memória de líderes como Júlio César, Lisandro de Esparta, Filipe da Macedónia, Napoleão e muitos outros que utilizaram dela para construir suas guerras e campanhas bélicas e derramar o sangue de milhares de pessoas apenas para satisfazer seus caprichos. Não é preciso muito esforço nem lupa para notar que a sociedade na qual vivemos, está dividida. Vamos lá dizer em linguagem mais clara e objectiva; a realidade social fragmenta-se diariamente em pedaços cada vez menores; grupos políticos, religiosos, étnicos, sociais, de gênero e muitos outros estão se subdividindo repetidas vezes e guerreando tanto entre si quanto uns contra os outros; dividiram o mundo em continentes, em países em raças, em fronteiras em regiões, etc. As divisões antigas reproduzem novas divisões ainda mais profundas, dentro e fora dos grupos já existentes, e já enfraquecidos. E o demónio está aí aplaudindo a cada um para que continuem a rivalizar mais, despedaçar mais e faltar união, comunhão, harmonia, bem-estar, etc. Vejamos, por exemplo, que há partidos políticos surgidos da divisão de outros, casamentos que nascem da mesma sorte de divisão, igrejas que se despedaçam gerando outras seitas, grupos sociais sofrendo rupturas tão violentas e dolorosas que tornam-se incapazes de caminhar na mesma direção, ou mesmo de, simplesmente permanecerem frente a frente sem que uma guerra urbana ocorra. Existem inúmeros exemplos que podemos perceber com relativa facilidade ao nosso redor. Tudo isso está, na verdade, produzindo uma quantidade assustadora de histerias sociais que vão corroendo os pilares, estilhaçando a cada um em fragmentos cada vez menores e mais fracos até chegar a um ponto de colapso e ruína. Nosso dever é, portanto, discernir com clareza e lucidez para não sermos influenciados por pessoas facciosas, líderes ou membros, das instituições sociais ou religiosas, que tentam criar divisões internas ou externamente, pois o caminho que trilham, embora possa até não parecer, leva unicamente à ruína. A lei da natureza é certeira. O ser humano nasce, cresce, desenvolve-se, reproduz-se se tiver sorte e morre. Ninguém escolhe onde nascer. Ninguém tem opção de escolher os seus progenitores, muito menos a capacidade de contrariar o destino. Mesmo que haja pessoas que odeiem os seus pais por se julgarem indignos deles, Deus os colocou no mundo por meio deles. Aliás, é recorrente ouvir-se que fulano X ou Y matou sua mãe, sua avó, seu tio, seu avô porque julgou que era feiticeira. Que injúria e espírito mau. Esse homicida é irracional! O ser humano não tem o direito de tirar a vida a si próprio ou a outrem. Mas tem sim a liberdade de escolher onde ir viver e que caminhos seguir para realizar seus objectivos. É por isso que há movimentação de pessoas de um lado para o outro. O famoso êxodo rural. Além disso, o nº 1 do Artigo 6 da Constituição da República de Moçambique define que “O território da República de Moçambique é uno, indivisível e inalienável, abrangendo toda a superfície terrestre, a zona marítima e o espaço aéreo delimitados pelas fronteiras nacionais”. Assim, qualquer moçambicano, onde quer que esteja, está no gozo pleno dos seus direitos como moçambicano. Nada lhe impede de exercer tarefas sociais. Por isso vemos naturais de Nampula trabalhando em Niassa ou os de Cabo Delgado trabalhando em Nampula, etc, etc. Só que por vezes há alguns exageros quando vemos que só os machuabos enchem no Maputo e outras províncias como empregados domésticos. Ou quando os de Maputo enchem em todas províncias do país ocupando os postos de trabalho por afinidade, amizade, nepotismo, padrinhismo, regionalismo, grupismo, corrompismo, etc. Entretanto, há pessoas com ódio cujos corações continuam aversos aos que chegam ou vivem na sua terra e trabalham ao serviço do povo. Não faltam vozes de concidadãos que dizem “este não é nosso conterrâneo por isso não pode ser nosso chefe nem nos pode mandar”. Afinal de contas quem é que não veio aqui no mundo? Quem é que desde o princípio do mundo vivia aqui? Todos nós somos vientes. Ninguém é dono do lugar onde vive. Por isso que é descabido negar a liderança de pessoas de outras províncias ou distritos sob pretexto de ser viente. É comum, por exemplo, encontrar líderes comunitários e religiosos que são fortemente odiados por seus comparsas ou pelo povo por não serem naturais da localidade, e aí exercerem liderança sobre o povo. De onde encontram essa lei que proíbe pessoas de Nampula serem líderes em Inhambane ou em Morrumbala? De onde veio a norma segundo a qual só pode ser líder comunitário ou religioso em Maputo apenas os que nasceram em Maputo? Não somos todos moçambicanos? Não somos todos cidadãos que gozam dos mesmos direitos e deveres? O princípio da igualdade perante a lei e oportunidades aplica-se, em norma geral, para todos moçambicanos, sem exclusão de sua origem. Portanto, nada determina que o ódio acenda no coração de incompetentes que se oportunam com a pele de ser natural para inviabilizar o trabalho dos outros. Ouviu bem? E mais não disse! Por Kant de Voronha
set 03 2021
Crónica do mês – O importante são as regalias
Moçambique atravessa momentos terríveis de crises incomuns e profundas. Por um lado está reinando o devastador terrorismo em Cabo Delgado e a instabilidade Nhonguista no Centro do país. Por outro lado, está a crise imposta pela pandemia do Coronavírus. Além disso, vive-se a crise financeira forçada pelas famosas dívidas ocultas; a crise social de subida crescente do custo de vida e, a crise da incerteza do futuro do país. A meio de tudo isso, já vai mais de um ano em que o salário mínimo é remetido ao esquecimento. Face ao recrudescimento da pandemia do Coronavírus, em 2020 o reajuste do salário mínimo foi suspenso. Para 2021 enquanto parecia haver algum interesse eis que, de novo, foi suspensa a apreciação dessa matéria e ainda sem data para sua retoma. O que estará por detrás desta suspensão? Falta de dinheiro? Falta de vontade política? Falta de compaixão para com os pequenos? Lembro que a Ministra da Administração e Função Pública, Ana Comoana, em 2020, declarou que “Os incrementos salariais nunca são aleatórios. Tomam como base o desempenho económico do país. Se o desempenho económico não justificar, um determinado aumento salarial, por muito boa vontade que exista, poderá não ocorrer, ou se houver, não ser naquela proporção em que se está a pensar”, afirmou Comoana. Se prestarmos atenção iremos notar que o Estado moçambicano continua a arrecadar receitas, apesar da pandemia. Aliás, as instituições do Estado nunca pararam, estão a trabalhar normalmente. Então será uma punição? Com qual pretexto e finalidade? O Governo, no uso das suas competências deveria encontrar um meio termo para poder reajustar o mínimo que beneficia os mínimos. Mesmo assim, o Parlamento moçambicano deu-se o privilégio de aprovar o Projecto de Lei do Estatuto do Funcionário e Agente Parlamentar. Trata-se de cerca de 100 milhões de meticais, anunciados pelo Ministério das Finanças, um valor exagerado para fazer cobertura das regalias para os funcionários e agentes do parlamento beneficiando demais a minoria enquanto a maioria do povo continua a devorar a sorte de cada dia. Em que país vivemos? Há alguns que defendem que o Estatuto de Funcionário Parlamentar é para permitir que os visados se sentam valorizados como à semelhança dos outros membros dos órgãos de soberania, nomeadamente os funcionários da Presidência, do Conselho de Ministros e das magistraturas judiciais e do Ministério Público. Pode ser que haja suposta legalidade nisso, pois dizem ser benefícios que constam na Lei Orgânica e no decreto de assistência médica e medicamentosa. Mas era pertinente nesta altura do campeonato? Onde está a compaixão, a empatia, o amor ao povo, o patriotismo, a sensibilidade para com o sofrimento dos outros? Até quando a elite deixará de olhar para si só e seus ganhos? Não séria prioridade o terrorismo de Cabo Delgado? Não seriam prioritários os cerca de 1 milhão de concidadãos nossos que passam fome por causa da estiagem que assola certas regiões do norte do país? Vasculhando as páginas do documento aprovado, os funcionários e agentes da Assembleia da República passam a merecer subsídios diversificados para além do seu salário mensal. Assim, haverá subsídio para assistência médica até com direito de comprar medicamento nas farmácias privadas mais caras; subsídio de alimentação, de sessão na Assembleia da República, subsídio de férias correspondente ao salário base para gozar bem o tempo de descanso como quiser e com quem ou onde quiser ir estar. O mais caricato de tudo isso é que eles terão subsídio para comprar roupa para festas solenes (Risos). Tudo isso? Então significa que o salário mensal só servirá para guardar e comprar caixão dos netos ou filhos. Cumpre-se a Escritura “Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado” (Mt 13,12; 25,29). E porque este tratamento diferenciado dos restantes trabalhadores da Função Pública? Quem são os filhos e os enteados? Se não há condições para o reajuste do salário mínimo, nada justifica que prevaleça discriminação no seio dos funcionários públicos. Que haja equidade! Todos nós sabemos que há muitos desses funcionários cujo trabalho é improdutivo. Porque se deve aplaudir assimetrias socioeconómicas que aumentam o descontentamento no seio do povo? Faltam políticas sociais para a promoção do bem comum, a ser assim o desenvolvimento integral será sempre assunto bonito dos papeis e longe da realidade. De facto, este país tem donos que merecem ganhar cada vez mais. Será possível que todo povo se transforme em funcionários parlamentares? Quem ficará nos hospitais, nas escolas, nas machambas, nos chapa-cem, nas fábricas, na marinha, no desporto, entre outras áreas de trabalho? Por Kant de Voronha, in Anatomia dos factos
ago 18 2021
O Veneno da independência
É sonho de todos que se sentem pessoas viverem livres, independentes, autónomos, etc. Aspiram igualmente viver em segurança e em pleno gozo da paz e de todos os direitos humanos. Mas quanto custa viver independente? O que exige? O que implica? Era suposto que com a independência Moçambique fosse dos moçambicanos. Ou seja, os moçambicanos gozassem em plenitude o fruto da sua conquista. Que o bem comum não continuasse privado por um punhado de pessoas; que as riquezas do país fossem partilhadas pelos cidadãos; que a lei fosse aplicada a todos indistintamente; que o gozo dos direitos fosso equitativo; que a educação fosse de qualidade para todos cidadãos; que o emprego fosse acessível não somente para alguns afilhados que têm padrinhos poderosos, mas também para os filhos dos enteados desta pátria amada. Afinal lutamos para continuar oprimidos? Lutamos para continuar analfabetos e no medo? Lutamos para continuar escravos da minoria? Lutamos para continuar refém das decisões egoístas? Lutamos para viver alimentando-nos de balas como carne para canhão? Lutamos para sermos expropriados das nossas terras? Lutamos para que? Qual era o nosso sonho? Certo dia, Daudo Rafael escreveu: “estamos há 46 anos de independência, mas até agora não deixamos de ser dependentes do ocidente. O governante moçambicano é simples embaixador dos ocidentais porque? Porque deixa de potenciar os hospitais de Moçambique só para quando ficar doente ser levado na diáspora? Porque despreza o seu próprio povo e vai-se entender por duas horas de tempo com o próprio homem que lhe colonizou? Porque vive dependente enquanto tem tudo para viver independente na sua terra? Porque deixa de exigir o estrangeiro instalar sua fábrica aqui no país prefere levar a matéria-prima para fora e depois importar? Porque considera o ocidente como fim de todo o problema que ele tem? Será que temos governantes Maquiavélicos neste país?” A nossa idade de independência devia-nos orgulhar. Mas estamos longe disso. Parece que usamos caminhos errados para a libertação do país. Investimos na luta para expulsar os colonos. Mas essa táctica ainda prevalece. Moçambique nunca mais deixou de sentir os efeitos da guerra, mesmo em formas parceladas. A instabilidade, a destruição e as mortes por guerra acompanham ininterruptamente a vida dos cidadãos moçambicanos. Por causa desse fenómeno de guerra interminável, a insegurança reina. Os cidadãos vivem até duvidando da sua própria sombra, como se não houvesse uma autoridade com missão de proteger e garantir a segurança de todos. “Em Moçambique a insegurança está instalada. Não há lugar, nem cidade, nem campo, onde o cidadão se sinta seguro e tenha a sua vida a fluir de forma tranquila, sem a ameaça da sua integridade física ou económica. No campo, instalam-se guerras. Por meio destas guerras mata-se e viola-se os mais básicos direitos humanos da forma mais vil. Nas cidades, instalam-se raptos e assassinatos; na periferia das cidades instala-se o crime organizado. De dia ou de noite, nas cidades, grupos de criminosos desfilam sua classe, matando, ferindo, violando e expropriando bens de forma tranquila, sem o mínimo de medo de repressão de alguma autoridade, porque a autoridade está quase sempre ausente” escreve Dr Paúa. Esse veneno chamado independência ainda não nos libertou. Mudou o governo, mudou a constituição, mas as acções continuam a colonizar-nos. E o pior colono é aquele que se disfarça como irmão com pele de ovelha e coração de Leão. É um colono que é legitimado pelo voto popular e por um esquema de representação que não representa a ninguém na assembleia da República. Trabalhamos para o inglês ver. Como consequências desse comportamento, multiplicam-se as estruturas, os esquemas, as modalidades e as acções de corrupção em rede. É uma praga que não vai acabar por se transmitir de geração em geração. Esta onda de “caça só para a própria gaiola” origina desigualdade e desequilíbrio social. Daí que uns vivem na abundância eterna e outros na miséria perpétua. Ou seja “enquanto os políticos esbanjam recursos públicos comprando para si bens que não precisam, fazendo viagens desnecessárias, vivem uma vida de reis, o povo, nas cidades e no campo, morre de pobreza, de desnutrição, de fome, se alimenta de capim, a menos que a sociedade tenha sido abolida e estejamos vivendo numa selva”. Será que para viver bem em Moçambique é preciso atrelar-se a critérios partidários e regionais? Será que para ser chefe em Moçambique só é possível exibir cartão partidário? Até quando viveremos com o negócio da venda do emprego e o privilégio que se dá às pessoas mais chegadas? O Mestre e Padre Kwiriwi refere que para ser desmistificado o que muitos não sabem sobre este país é preciso que se crie uma equipa de especialistas de várias áreas de saber para se dedicar no estudo sobre Moçambique e também de forma detalhada sobre cada cidadão. “Apresento alguns traços que me levam a afirmar que deve haver uma investigação de carácter multidisciplinar. a) Foram quinhentos anos de colonização, dominação e imposição de culturas diferentes, mas até hoje, tem moçambicanos que não sabem falar a língua portuguesa e resistem expressando-se unicamente em idiomas locais. b) A dita civilização europeia ficou no papel porque até hoje, Moçambique se pratica a poligamia, algo dito como um crime em países nórdicos. c) Guerras tribais: para maior controle de territórios e para a imposição da autoridade e poder, os chefes tribais faziam guerras entre si, mas no final do campeonato, tomavam juntos suas bebidas, como a Otheka. Os chefes tribais mantinham laços de amizades e também de vizinhança não se lembrando das guerras. Seus filhos praticavam casamentos interétnicos e a intimidade crescia. d) Com o início do comércio de escravos, uns tios vendiam seus sobrinhos principalmente os mais indisciplinados mesmo sabendo que o mesmo daria a continuidade da família e do clã ou da tribo. Quando faltasse o que vender, alguns homens preparados para esse tipo de missão, iam roubar meninos noutras regiões. Enquanto a escravidão continuava, crescia também o povo e aos poucos foi povoando o país todo. e) Desde cedo o povo moçambicano tinha sua religião e sabia
jul 16 2021
OS EXTREMOS DA “PÁTRIA AMADA”
Por Kant de Voronha Uma minoria do povo moçambicano conhece a letra do Hino Nacional. Uma poesia artisticamente bem elaborada, com engenho melódico de manifestação de pertença, integridade e esperança de um povo que sonha com a unidade nacional. Ora, era suposto que fosse a canção mais popular de Moçambique, cantada de cor por todos os moçambicanos. Mas vezes sem conta surpreendemo-nos com personalidades (figuras públicas), chefes de instituições e departamentos, povo simples, professores e jornalistas, que gaguejam ao tentar morder algumas palavras apagadas pelo vento em sua memória. Já participei em vários encontros multissectoriais nos quais a vergonha foi visível. A letra e a música do Hino Nacional são estabelecidas por lei, aprovadas nos termos do n.º 1 do artigo 295 da Constituição. Se calhar é necessário partilhar aqui, ao menos, a letra do Hino Nacional: Na memória de África e do Mundo; Pátria bela dos que ousaram lutar; Moçambique, o teu nome é liberdade; O Sol de Junho para sempre brilhará. Coro: Moçambique nossa terra gloriosa; Pedra a pedra construindo um novo dia; Milhões de braços, uma só força; Oh pátria amada, vamos vencer. Povo unido do Rovuma ao Maputo; Colhe os frutos do combate pela paz; Cresce o sonho ondulando na bandeira; E vai lavrando na certeza do amanhã. Flores brotando do chão do teu suor; Pelos montes, pelos rios, pelo mar; Nó juramos por ti, oh Moçambique; Nenhum tirano nos irá escravizar. Como se depreende desse Hino, Moçambique é uma terra livre, resultado da luta de libertação nacional contra o colonialismo português. A memória do povo conserva a alegria do dia da independência nacional a 25 de Junho de 1975. Hipoteticamente o povo está unido do Rovuma ao Maputo colhendo os frutos do combate pela Paz, pois “nenhum tirano nos irá escravizar”. Ora, a experiência de cada dia mostra que o sonho pela liberdade está ainda minado por lutas fratricidas que nunca acabam. Luta-se pelo poder; luta-se pelas riquezas; luta-se por comida; luta-se por hegemonia política; luta-se por recursos minerais e madeira; luta-se sem fim. Como consequência, somos um povo que caminha sem rumo, inseguros e de olhos vermelhos. A assimetria socioeconómica é grande. Moçambique conhece, desde sempre, um povo com uma maioria miserável e umaminoria de elite cada vez mais rica. Aumenta com as guerras o número dos empobrecidos, dos necessitados, dos estrangeiros que vivem na sua própria terra. Aumenta o número daqueles que são forçados a deixar assuas terras, partir sem rumo certo com bagagens na cabeça procurando asilo em lugares supostamente mais acolhedores e seguros. Aqui funciona a selecção natural. Mesmo para o acesso a riqueza, a escolaridade de qualidade, para ter um apelido como antigo combatente, para ter liberdade de compra e venda de recursos naturais do país, para viver com dignidade, em tudo funciona a selecção natural. Os extremos são visíveis e não precisa usar lupa para microscopiar. Até os problemas sociais estão geograficamente divididos no país. Parece que a falta de unidade do povo consubstancia-se, igualmente, nos seus problemas, preocupações e necessidades. A metrópole e capital do país concentra amaior parte do capital financeiro. Parece que todos osfinanciamentos que chegam à nossa terra devem olhar primeiro e por último em Maputo e suas periferias na zona Sul. A zona Centro é o epicentro de ciclones, inundações, tempestades que se acrescem com o problema de Nyonguismo. A zona norte é a menina dos olhos das multinacionais, os megaprojectos e exploradores insaciáveis. Aí nasce o famoso terrorismo que deslocou milhares de pessoas de Cabo Delgado para províncias circunvizinhas. O Alshababismo é uma mancha negra que revela que a nossa segurança nacional está ameaçada e ainda não estamos em altura de nos gloriar que “nenhum tirano nos irá escravizar”. Sim! Nós somos escravos de estrangeiros e também escravos de nossos irmãos. Matamo-nos mutuamente em nome das riquezas; exploramo-nos em busca da comida. Esta música é amarga e não alegra ninguém para dançar. O mais agravante ainda, a Covid-19 veio reforçar a nossa falta de liberdade. Para além dos mortos por guerra, por malária, por sida, o nosso coração vive ameaçado pelo inimigo invisível, o Coronavírus. Até quando? “Oh pátria amada, vamos vencer”! Esta declaração de esperança coloca-nos no horizonte da batalha de quem se convence que a vitória é sua. Pela unidade nacional, do Rovuma ao Maputo, precisamos de sair da teoria para a prática. A experiência mostra que muitos trabalhadores, incluindo serventes de obras ou grandes projectos que pululam no centro e norte do país são “importados” de Maputo ou zona sul. A população local interroga-se: “os nossos filhos não têm capacidades de trabalhar com as empresas ou projectos lucrativos?”.Todos nós somos moçambicanos e merecemos tratamento e oportunidades iguais. Devemo-nos engajar na luta contra o divisionismo que gera regionalismo porque, vezes sem conta, julga-se que o desenvolvimento socioeconómico é regional. Se repararmos com atenção até os partidos políticos são regionalistas e étnicos. Como resultado, os conflitos não acabam e a opinião alheia é algo para combater. Aliás, em vários sectores de trabalho, ser da posição ou da oposição gera mau-olhar e juízos indiferentes. Tanto é que só pode chefiar um sector ou departamento aquele que é “nosso” (Risos). Quem é que não é nosso nesta Pátria Amada? Mais vale empregar um incompetente (por ser nosso) que um competente que não é nosso? Isso não deixa de revelar efeitos indesejados à medida que notamos trabalho que deixa a desejar. Pois, quando trabalhamos por confiança política e não por capacidades adequadas o resultado são os maus préstimos para o povo. Se queremos, Pedra a pedra construir um novo dia, devemos investir na profissionalização dos nossos gestores. Já se viu em várias ocasiões pessoas bocejando ou dormindo em plena sessão da Assembleia da República. Que proveito se poderá esperar de um dorminhoco que diz ser representante do povo? Quem votou um “non sui compos?” Veja-se o esforço do camponês. Todo o ano cultivando a terra, comendo o suor do seu corpo e o resultado é quase invisível. Pior ainda neste ano. Em muitas regiões
jul 13 2021
AS AVENTURAS DA POLÍCIA MOÇAMBICANA
Servo inútil, Pe. Fonseca Kwiriwi, CP Em Moçambique, ser da polícia e ser militar não é tarefa fácil. Mas o que mais fica exposto é o agente da polícia. Por isso vale abordar somente o primeiro: ser agente da polícia. Segundo informações oficiais, em 2020, ano que acaba de se despedir, foram expulsos trezentos membros da Polícia. Oh! Que número elevado! Enquanto recebíamos a notícia dos trezentos, chega aos nossos ouvidos a outra pior que a primeira: suicídio de membros da mesma corporação. Pense comigo. O que leva alguém a cometer suicídio, por exemplo, no seu local de trabalho? O que está a falhar que deve ser corrigido? Como tratamos os homens e mulheres responsáveis pela lei e ordem? O que podemos copiar dos países que já sabem cuidar e incentivar seus agentes da polícia? Ainda é o início do ano de 2021. Há tempo para revermos algumas atitudes e melhorarmos as coisas. Como podemos sair desse abismo? Que é o agente da polícia? Não se trata de um criminoso. Não é um perdido na vida. Não é a última bolacha do pacote. Não é um desesperado que procura de socorro. Saiba o seguinte, o agente da polícia é uma pessoa que nasceu do seu pai e sua mãe. Uma pessoa com sua família e vindo de uma família, vindo de uma sociedade e moçambicano ou moçambicana. O membro da polícia é uma pessoa que teve sonhos de um dia servir a pátria. Actualmente, no meio dos membros, há grupo enorme de jovens que decidiram dedicar-se a uma missão: ser da polícia. Como várias profissões existentes em Moçambique ou no mundo, somente a pessoa da polícia ou o motorista sabe na pele o que é isso. Situação actual dos agentes da polícia Podemos juntos ver o ponto de situação em diferentes ângulos. 2.1. O governo Para que cada membro tenha a missão de servir o país, como outros profissionais, o governo forma os candidatos a polícia e confia-os a trabalhar devidamente. O investimento é feito como outras profissões. Cada membro da polícia é funcionário do Aparelho do Estado. Cada polícia tem direitos e deveres. Cada polícia tem seu salário e férias anuais. Enfim, cada um que pertence a polícia, antes de tudo sabe o que será e como irá viver. 2.2. A sociedade Algumas pessoas esquecem que o agente da polícia é um ser humano. Existe no consciente coletivo uma amnésia. Ninguém quer se lembrar que são filhos desta terra. Já vi, muitas vezes, na rua, polícias a serem tratados: por um lado como seres imortais e por outro lado como mendigos. Vi também polícias a se comportarem muito bem e com ética e cidadania. Observei também agentes da polícia que mostram não terem a mínima ideia da sua missão. Alguns vão a rua para extorquir os cidadãos. Outros vão ao trabalho para cumprirem com o dever. Caro leitor, não generalize ao deparar-se com um membro da polícia porque lá dentro há gente muito boa e busca com dignidade viver a sua missão. Entretanto, a sociedade deve abrir os olhos e iniciar a lidar bem com essa situação. Sugestões práticas Primeiro, temos que assumir a culpa que estamos nos empurrando ao abismo porque vimos e fingimos que não vimos. Praticamos e não nos lembramos que estamos atropelando a lei e manchando o país. Segundo, temos que formar os membros da polícia como humanos e responsabiliza-los a servir o país com total entrega. Terceiro, o governo deve incentivar sempre os membros com várias formações, promoção na carreira, salários justos e vida condigna. Quem comete algum erro deve ser corrigido e se for pior expulso. Porém depois de algumas tentativas para a humanização da pessoa. Quarto, a sociedade deve olhar a polícia como uma profissão digna e merece todo respeito. A sociedade deve perceber que naquele lugar poderia estar um familiar. Por último mas não menos importante, os agentes da polícia devem, antes de se candidatarem a polícia, inicialmente, saber dos desafios e assumir a responsabilidade pela escolha. Cada polícia deve assumir com zelo a sua missão. Cada polícia deve saber que sairá da miséria se lutar por um Moçambique melhor a partir do uso correcto do salário. Cada polícia deve saber que está numa profissão e não num refúgio Cada polícia deve entender que o cidadão merece respeito e não é fonte de “refresco nem água” (uma linguagem usada para pedir dinheiro ao cidadão). Cada polícia deve pautar pelos princípios éticos da corporação e não olhar pela posição atual como caminho para algum enriquecimento ilícito ou obtenção de favores quaisquer que sejam. Enfim, cada um dos lados deve cumprir com os deveres e as obrigações. Quem cumpre a lei garante um Moçambique justo. Quer as expulsões quer os suicídios podem ser evitados se cada um olhar a polícia como parte da sociedade. Irão continuar esses fenómenos se encaramos as coisas com mediocridade. Continuaremos a perder agentes da polícia se apontamos sempre os dedos contra eles. Continuaremos a verificar polícias mendigos se por um lado o agente não compreender seu papel e o cidadão não quiser cumprir com a lei. É hora de sairmos desse mal e construirmos um Moçambique livre de expulsões e suicídios de membros da polícia. Ser da polícia não é castigo mas emprego e serviço ao país Ser da polícia pode ser uma boa escolha se cada um cumprir com seus deveres e o governo providenciar o básico para que a polícia exerça sua missão com dignidade humana. Conforme discutimos acima, nem um nem ouro é culpado mas a sociedade que queremos construir é que deve ser urgentemente corrigida e orientada ao novo rumo da vivência de ética e cidadania.
maio 10 2021
A RIQUEZA DE SANGUE
África dos nossos antepassados. África dos que lutaram e morreram por nossa libertação. África dos que sonham a igualdade de direitos e oportunidades. África daqueles que diariamente morrem explorados, injustiçados, empobrecidos, aniquilados nos seus sonhos. Esta é a terra onde Deus abençoou com muitas riquezas: humanas, naturais, florestais, minerais, marinhas, faunísticas, petrolíferas, etc. Pensa-se, desde muito tempo, que em África não existe riqueza saudável. Os que mais se sacrificam em trabalho, menos prosperam. Mesmo os assalariados não conseguem atingir os níveis de posse daqueles outros que seguem caminhos sinuosos. Enriquece quem serve a magia, quem passa por santuários obscuros, quem percorre caminhos de trevas e sem luz; quem passa de feiticeiro para outro, quem se transforma em cobra. Enriquece quem pratica iniquidade, quem corrompe, quem rouba, quem mata, quem se julga mais esperto, quem vive bajulando, quem se dobra diariamente para lamber chule, para carregar e adicionar trocos que caem debaixo da mesa do suposto dono. Mas isso tem consequências sociais, religiosas, políticas, económicas, relacionais, existenciais. É por esse motivo que se considera que os ricos de África e de Moçambique não o são como resultado do seu salário mensal. Esta é a história dos que vivem sempre subindo os outros. Assim foi também com o coelho e o camaleão. Por sua natureza, o camaleão tem passos lentos. Porém, quando se encontrou com o coelho exibindo o seu talento de correr rápido, o camaleão respondeu-lhe: – “Sim! Eu sei que não corro muito. Mas eu sou mais esperto do que tu. Força, corramos! Va-mos ver quem ganha!” Então o coelho começou a correr. O camaleão, no mesmo momento, subiu para a cauda do coelho, agarrou-se a ela e sentou-se. O coelho não sabia, ou não sentia o peso, porque estava com pressa. Logo que chegou à meta, o camaleão adiantou-se a saltar para o chão e sentou-se. Ora, quando o coelho ia sentar-se, o camaleão disse: – “Não te sentes sobre mim! Eu cheguei há muito tempo e estou à tua espera”. Então o coelho ficou muito aborrecido porque foi vencido pelo camaleão. É da mesma forma como muitas riquezas de sangue trepam a cauda dos menos espertos. Revestidos de hipocrisia aparecem como se fossem os melhores, perfeitos e até se gabam com a sua força e poder! E enquanto continuarmos na esteira deste modo de enriquecimento nunca faltará a multidão dos miseráveis cada vez mais remetidos ao abismo; nunca faltará o barulho da guerra, do crime, dos falsos feiticeiros que se oportunam da vida alheia para prosperar. A riqueza de sangue mostra que o horror da guerra semeado em Moçambique é igualmente uma das faces obscuras do enriquecimento ilegal, indevido, selvagem, ganancioso e abominável. Por causa da riqueza há quem manda matar, manda sequestrar, manda fuzilar, manda expulsar o povo das suas terras, manda explorar os recursos do país exportando-os clandestinamente para fora do país, manda silenciar os que vêem a luz. A vida de cada dia, as manobras que são produzidas e todas artimanhas dos elefantes cooperam sobremaneira na construção de riquezas de sangue que em nada facilitam o desenvolvimento de África e seus países. Os que se propõem liderar e gerir a coisa de todos, muitas vezes se apoderam de tudo e em nome do povo começam a enriquecer esquecendo-se daqueles a quem prometeram vida melhor e desenvolver o país. Utopia eterna. A guerra, as rivalidades, as divisões, as assimetrias, as injustiças, a corrupção e outros males sociais acontecem porque a fome pelo dinheiro e consequente riqueza coloca os reis e poderosos em conflitos intermináveis. Ora, para manter a sua hegemonia, a sua riqueza, o seu poder, a sua fama, a sua prepotência servem-se das armas para afugentar possíveis pretendentes. O maior interesse em tudo isso é a procura do Reconhecimento. Conta-se que há muito tempo, o elefante é que era reconhecido como rei de todos os animais. Mas, ao mesmo tempo, também o coelho tinha sido feito rei, mas ninguém sabia. Por isso, o elefante e o coelho lutavam entre si por esse mesmo reino. Queriam reinar em simultâneo. E por falta de reconhecimento por parte do povo começaram a lutar fortemente. Acontece, porém, que certo dia, todos os animais se reuniram para saberem ao certo quem era o rei. Com efeito, concordaram ir perguntar a Deus. O coelho mandou o macaco subir àquela árvore onde ia realizar-se a reunião, para responder quando perguntassem a Deus: “Quem é, ao certo, o rei?” Entretanto, se porventura perguntassem: “O rei é o elefante?” O macaco não devia responder. Mas quando fosse perguntado: “O rei é o coelho?” devia responder: “Sim! É o coelho”, senhor Deus. Ao responder devia mostrar maior reverência ao coelho. A garantia disso é que o macaco seria adjunto do rei se o coelho fosse declarado rei de todos os animais. Acontece que o elefante, por falta de esperteza não conseguiu armar nenhuma cilada para reforçar o seu poderio. E, portanto, no dia em que se reuniram, Deus perguntou: – O rei é o elefante?” Nessa ocasião, ninguém respondeu nada. Todos animais permaneceram calados. Deus perguntou por sete vezes se o elefante era o rei. Seguindo as orientações do seu chefe máximo, o macaco também permaneceu totalmente quieto e sem se mexer. Continuava pendurado na árvore em redor da qual estavam sentados os demais animais. Em seguida, Deus voltou a perguntar: – “O rei é o coelho?” E sem esperar a segunda vez, o macaco respondeu: – “Sim, Senhor Deus! O rei é o coelho! Ele é muito respeitado por todos nós e promove o desenvolvimento da nossa aldeia e de todo grupo”. Naquele instante, depois dos pronunciamentos do macaco, todos os animais souberam que o seu rei era o coelho. O elefante, indefeso, ficou muito zangado e fugiu para o mato. É desta forma como uns são ofuscados e ensombrados por aqueles que têm macacos pendurados em várias árvores para os defender. Os que não têm nada continuam a gritar sem ser ouvidos e, quando se esgotam, fogem para o mato e encolhem
O Cuidado à Vida e o Medo de Mahindra
A pandemia da COVID-19 está desnorteando muitas nações e milhares de povos. Apesar dessa realidade ainda se verifica gente que vai obrigar que seja solicitado o “mahindra”, viatura da Polícia da República de Moçambique, mais conhecida pela sigla, PRM, para que aprendam a se cuidar. Acompanhando as notícias e unindo-me em oração com o povo de Manaus, no Brasil, bateu no meu peito uma grande dor e preocupação! Até quando o cuidado à vida precisará sempre do mahindra para se verificar a ordem? Qual é o real problema de muitas pessoas que não se cuidam nem cuidam dos outros ao ponto de obrigar a intervenção policial? O que é necessário para que um povo aprenda a se cuidar e evite coisas piores? Com vista a desenvolver o tema desta crónica, vamos discutir alguns temas que acredito que estejam a faltar para que um povo não precise de “força maior”, de chicote ou chamboco nas suas ações. 1. Amor à vida O cuidado que cada mãe e pai tem para que a sua criança nasça com muita saúde, cresça bem e tenha longa vida, deve também haver uma escola familiar que quando falamos da vida também envolve a saúde, a alimentação e toda forma de viver que permite que a pessoa humana viva bem, cresça bem e chegue a terceira idade, viver se possível até aos 100 anos de vida. Não obstante ao esforço de muitos pais, temos observado que há gente que perdeu o sentido da vida. O hedonismo invadiu no meio de muitos grupos sociais. O prazer é trocado pela alegria. O outro é visto como última prioridade. 1.1. Ética do Cuidado Algumas pessoas pensam que são donas da vida e podem fazer o que quiserem. Por exemplo, temos muitas pessoas que bebem o álcool muito mal, fumam muito mal e ao serem questionadas dizem que a vida é delas por isso fazem o que quiserem. Na compreensão da ética do cuidado, a vida é um dom e cada um é protagonista e responsável em cuidar a sua vida e a vida da natureza, dos outros. Cuidar significa, inicialmente, saber o que a pessoa deve fazer e não deve fazer para que não coloque a vida em perigo. Cuidar significa ser prudente suficientemente para que a vida não corra nenhum risco. Um exemplo prático é a condução de um carro em que se aprende que “se beber não conduza” ou “se dirige o carro não beba”. Está claro que não há combinação entre o carro e o álcool. Porém, verificamos nas ruas das cidades muitos acidentes provocados por motoristas bêbados. Outro exemplo, é sobre o actual cenário mundial, covid-19. As instruções do sector da saúde sobre o uso de máscara, evitar aglomerações desnecessárias em festas nocturnas, baladas e boates etc. Cuidar é ter um carinho para que algo não se estrague e tenha muito tempo de vida. Existe uma obrigação moral para que todos tenhamos o cuidado à vida. Todos somos responsáveis de um do outro. Todos somos e formamos único ecossistema. Por isso viva e deixe o outro a viver. 1.2. Ética da liberdade e responsabilidade Ser livre é antes de tudo ser responsável pelas suas próprias ações. É assumir as consequências das suas atitudes. No dia a dia não é isso que verificamos, pois tem gente que clama pela liberdade mas vive a libertinagem. Tem gente que pensa que é responsável mas nunca assume os danos provocados pelas suas ações. Ser livre é cumprir com as obrigações e lutar pelos seus direitos. Ser livre é viver de acordo com as orientações da sociedade. Ser livre é se importar pelo bem comum. Ser responsável é fazer parte de uma sociedade e viver os ideais da mesma. Ser responsável é tomar uma decisão, executar uma ação e avaliar se foi um acto bom ou mau. Ser responsável é viver o direito e dever moral. Ser responsável é permitir que a consciência seja guia das as ações quotidianas. Embora muita gente saiba dos temas sobre a liberdade e responsabilidade, observamos o clamor de muita gente que de facto segue na contra mão da vida. Exemplo prático de gente que pensa que luta pela liberdade, mas não, é o grupo pró republicano, nos Estados Unidos, que invadiu o Capitólio, símbolo da democracia. Criaram caos e provocaram mortes. Usaram da libertinagem e não foram responsáveis suficientes para ver que consequências teriam a partir daquele acto macabro. 2. Amor à pátria e ao concidadãos Se estiver num país rico ou pobre, neste momento da pandemia, todo cuidado é pouco. Por isso deve investir no respeito com os outros. Cada um deve seguir “ao pé da letra” se possível, as orientações do governo e os agentes da saúde. Amar a terra própria não é somente defender a pátria da guerra e dos invasores. Mas também e fundamentalmente, é lutar contra a pandemia que cada dia dizima milhares de amigos, familiares e vizinhos. Abra os olhos e siga o caminho certo por um minuto e salvarás tua vida e a vida dos outros. O assunto amor à pátria não é para todos. É urgente que haja educação cívica para que se aprenda sobre a cidadania. Numa altura em que Manaus, Brasil, precisa urgentemente de oxigênio, algumas pessoas desviam esse produto precioso e necessário para salvar a vida de muitos pacientes. Será que essa gente ama a pátria? Não é hora de rir nem debochar a ninguém, mas unir esforços para lidar com a Covid-19. Deve haver união para cuidar uns dos outros mas também para denunciar aqueles que desviam os bens do Estado necessários para salvar vidas. É preciso e urgente denunciar os que brincam com a saúde pública. Enfim, desperte e viva! Cuide e ame! Ser feliz é estar bem com os outros. Ser livre é cumprir com os deveres e lutar pelos direitos de todos. Ser responsável é assumir as consequências das suas ações. Cuidar é amar e respeitar ao outro. Acredito que se o que discutimos um pouco acima cada um
jan 13 2021
MOÇAMBIQUE, TERRA DOS LOUCOS (PARTE II)
Aproveitando o calor intenso que até nas manhãs o sono não é agradável, ou seja, além da noite quente também nas primeiras horas do dia é quente, retomo a crónica sobre Moçambique terra dos loucos. Como eu disse anteriormente, considero ser terra de loucos apresentando as diferentes loucuras. Loucura num sentido positivo, como vontade de ver algo melhor. Desta vez partilho o que verifico nos mercados formais e informais, lojas, supermercados, barracas e bancas: cada um quer ficar rico de uma única vez ou quer aproveitar para explorar os outros. Loucos por um Moçambique com preços de produtos justos Desde a preparação intensiva para a celebração do Natal do Senhor até a entrada de 2021, alguns preços de produtos de primeira necessidade subiram exageradamente. A que se deve essa subida de preços? Como continuar a viver numa terra onde comer, por exemplo, uma batata “Reno” ou “inglesa” é luxo? Agricultura, pecuária e indústria sem nenhuma expressão regional Não quero dar razão a nenhum comerciante, no entanto, os preços altos de produtos de primeira necessidade podem ser motivados pela fraca expressividade das áreas agropecuária e indústria. Muita coisa que se consome no país, Moçambique importa. Com o problema da Covid-19, a importação pode ter sido afectada. Loucos por ver um Moçambique explorando suas potencialidades nas áreas agrícolas, terras férteis e povo trabalhador. Deve ser urgente o abandono da agricultura de subsistência. A enxada com cabo curto serve somente para alimentar uma família de oito pessoas. Moçambique já não é mais uma família de poucas pessoas. O país já regista cerca de trinta milhões de habitantes. Deve se traçar políticas que favoreçam a produção para o consumo interno e a exportação. Loucos por Moçambique com uma indústria que produza o básico. Que haja pelo menos uma indústria que processa a ração de galinhas. Conversando com um amigo que tem aviário, criação de galinhas poedeiras, disse-me que na região norte de Moçambique, dependem do Malawi para o fornecimento de ração. Entretanto, incentiva-se a criação de animais de pequeno porte. Como avançar com projectos idênticos se não há facilidades? A falta de ração compromete o negócio de ovos e consequentemente, os ovos acabam sendo muito caros. Antes de se pensar na criação, por exemplo, de galinhas para o consumo local, deve haver uma fábrica de ração e tudo que permita o funcionamento de um aviário. Braço de aço para mais fiscalização O governo deve incentivar a circulação de produtos nacionais embora como vimos no ponto número um, a produção local é fraca. Porém, quem importa, não deve aproveitar para se tornar rico numa única venda. O governo deve fiscalizar, monitorar e avaliar os preços de acordo com o salário mínimo do país. Não é justo, um quilo de açúcar custar, por exemplo, numa loja MZN 78,00, aproximadamente um dólar, e noutra loja ser quase um Euro, isto é, MZN 90,00. A concorrência de preços deve ser leal e não uma competição para ver quem vende mais aplicando o preço mais alto. Honestidade nas balanças Loucos por um Moçambique com balanças justas ou balanças halal. Na correria do dia-a-dia, muitas vezes, a pessoa se esquece que o quilograma que antes era 1000 gramas, hoje tem outra medida. Dependendo da honestidade de um vendedor, pode ser de 800 gramas ou mesmo 700 gramas. Além de venderem caro, alguns comerciantes, principalmente os informais, adulteram a balança para ganharem mais e mais. Se fores ao mercado “Waresta” em Nampula, irás ouvir o termo balança halal, ou seja, uma balança que minimamente pesa o que equivale “quilo certo”. Em mercados muito movimentados como Waresta, o tempo é limitado para verificar se a balança é halal ou haram (justa ou injusta). Consumidor consciente Loucos por um Moçambique que tenha consumidores conscientes. Que adianta fazer uma concorrência desleal? Se tu ganhas cinco salários mínimos sempre terás as condições de fazer boas compras e talvez nunca irás sentir que os preços subiram. Os milhares de moçambicanos que ganham único salário mínimo, sempre irão murmurar que os preços sobem cada minuto. A questão não deveria se basear na diferença salarial mas numa sociedade consciente que tem direito de comprar os produtos, pelo menos, da primeira necessidade, a preços justos. No final da quadra festiva, alguns jornalistas da TV local mostraram um fenómeno não humano que se verificou no Mercado Grossista de Zimpeto, na cidade de Maputo. Importaram grandes quantidades de batata Reno para atender aos clientes que se preparavam para festejar o Natal. Não obstante o interesse do povo em comprar as batatas, esconderam em algum lugar para que na hora certa vendessem a preços altíssimos. Conscientes de que não passava de um “roubo”, muitos clientes recusaram-se a aderir ao fenómeno. Ninguém foi comprar as batatas. Pela demora na liberação dos armazéns, as batatas decidiram ficar podres antes do destino final: enriquecimento ilícito de certos vendedores. Que proveito tem ao deixar apodrecer as batatas que vende-las aos irmãos que tanto as procuraram para comerem nas festas? Por um lado, parabenizo pelo tipo de consumidor consciente que decidiu não aderir ao esquema e por outro lado lamento pela atitude de algumas pessoa que mancham o bom nome de vários moçambicanos que sobrevivem fazendo o comércio justo. Guerras e Coronavírus Loucos para ver Moçambique livre de guerras e de Covid-19. Os preços altos que nesta crónica constituem prato forte podem ser motivados pelas guerras: do centro do país e do norte (terrorismo em Cabo Delgado) e pelo Coronavírus. Quando há guerra, muita gente se aproveita para ficar rica facilmente. Por isso, em Cabo Delgado, norte de Moçambique, os preços são típicos. Porque há maior procura de produtos de primeira necessidade para atender quer os deslocados de guerra quer os que se encontram nas zonas de refúgio, como cidade de Pemba, notou-se uma subida excessiva de preços. Os comerciantes culpam a guerra e Coronavírus. Muitos se aproveitaram disso e vendem tudo a preços insuportáveis. Loucos por ver um Moçambique solidário. De gente que entende que na condição em que o país
jan 13 2021
MOÇAMBIQUE É TERRA DE LOUCOS (Parte I)
Poderá alguém sentir-se ofendido por causa do título desta crónica pelo facto do autor generalizar que Moçambique é terra de loucos? Se se sentiu incomodado então saiba que está de parabéns porque podes ser menos louco ou mesmo estás bem saudável. Mas calma aí. De que loucura eu aponto? Em que consiste chamar ao meu país terra de loucos? Loucos por um mundo melhor Por muitos anos, Moçambique, o povo tem lutado loucamente para ver o país em boas condições socioeconómicas. No entanto, há uma corrente de gente que pensa que os moçambicanos estão a servir um punhado de folgados que imaginam no seu próprio umbigo. Há impostos como outros países mas parece que ninguém fiscaliza a aplicação desses impostos. Introduzem portagens como noutros países, mas caso de Moçambique muitas estradas foram invadidas por buracos. Constroem escolas e hospitais mas não cuidam da manutenção ou aprovam a um empreiteiro que deixará o tio Nyusi chateado na hora de uma suposta inauguração. Não enganam o homem porque de qualidade de uma obra, ele entende. Se formos a avaliar detalhe por detalhe poderemos escrever volumes de crónicas. Sim, Moçambique está louco em ver um mundo melhor mas falta ainda caminhos claros que permitirão atingir os objectivos. Nunca usar “shot ways”, corta matos para chegar a meta. Louco por um Moçambique de paz Estamos no início do ano, e por sinal, cada um traça sua meta anual. Mas será que cada um inclui também a conquista de uma paz interior? A guerra em Moçambique pode ser devido ao problema das “guerras interiores” que muita gente produz nas suas vidas. Para que haja uma paz efetiva proponho alguns passos. 2.1. Loucos por um Moçambique de Humildes Deve haver em cada um de nós a humildade na nossa convivência, no trabalho, na família e em cada encontro com o outro. A ideia de pensar-se que só o “eu” tem razão, é criar uma vereda que levará a conflito e a posterior guerra. Ser humilde é ter a capacidade de rebaixar-se diante de alguém seja menor que nós ou mais pobre que nós. Seja, primeiro, humilde se quer ver um país livre de guerra. 2.2. Louco por um Moçambique de Diligência É fácil encontrar alguém que quer ser rico, mas não faz menor esforço para ser rico. Vai ao serviço mas trabalha porque está diante do chefe ou porque foi pressionado para apresentar evidências do trabalho, produtividade etc. Como iremos ver Moçambique rico se muita gente quer emprego, porém não trabalha? Não basta pedir ao tio Nyusi que crie empregos se pouca gente se preocupa em doar-se no trabalho. Aliás, os poucos que se dedicam podem ser zoados de que trabalho é do pai deles. Algumas pessoas se tornam ricas por trabalhos obscuros e obtenção de dinheiro ilicitamente. Outras se unem aos terroristas para ganharem dinheiro facilmente. O país é seu, meu e nosso. Portanto, deve haver entrega à causa se todos queremos ser loucos por um Moçambique de diligentes, país livre da pobreza extrema. 2.3. Louco por um Moçambique menos pobre Que haja desapego, partilha e solidariedade no meio dos contemporâneos. A vontade de se ter tudo aniquila o desejo de ser uma pessoa humana. Acredite se quiser mas, em Moçambique, que no ranking internacional ocupa um dos dez países mais pobres do mundo, há gente que cada dia se torna mais rica e tem bens que distribuindo equitativamente ninguém passaria um dia sem pão em casa. A que se deve isso? A ganância e o egoísmo estão a sobressair cada vez mais. Atenção, se estamos loucos em ver um país de paz, por favor, partilhe seus bens e seja solidário com os necessitados. Não julgue os pobres mas promova-os para que eles tenham no mínimo pão nas suas casas. Por enquanto paramos aqui e retomaremos a reflexão noutro areópago. Servo inútil. Pe. Fonseca Kwiriwi, CP
O MUNDO VESTIU-SE DE MÁSCARAS
Por Kant de Voronha Agora o mundo vestiu-se de máscaras. A humanidade experimentou e ainda enfrenta o confinamento dentro das casas e com medo de um inimigo invisível, o Coronavírus que tem nome famoso ao qual chamam Covid 19. Sim. É essaCovid 19 em todas as línguas. A humanidade foi desafiada passando por um tempo de profunda provação. Pois, fecharam as Igrejas, fecharam as mesquitas, fecharam as escolas, fecharam as universidades, fechou a alegria, fechou o horizonte de 2020 ser um ano carregado de prosperidade. Baixou a economia mundial; baixou o poder aquisitivo; baixou o fluxo de viagens nacionais e internacionais. Será que ficámos iludidos na passagem ao ano novo? Tínhamos muitos projectos e propósitos. Esperávamos que 2020 fosse um ano intensamente de muitos sucessos. Quem ainda continuaa dizer isso? Perdemos a esperança? Apagou-se a torcida que fumegava? Até alguns perguntam: “porque Deus permite esta pandemia? Mas ainda é cedo para atirar pedras a Deus. A Bíblia ensina que “Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu” (Ecle 3,1-8). Agora estamos no tempo de Coronavírus. O tempo das máscaras. O tempo do distanciamento social; o tempo de quarentena; o tempo de isolamento; o tempo de túneis de desinfecção; o tempo de lavar as mãos com água e sabão ou cinza; o tempo de não abraçar nem beijar; o tempo de bater cotovelos ou os pés ou ainda de vénias em jeito de saudação; o tempo de rezar intensamente em família; o tempo das igrejas e mesquitas fechadas; o tempo das aulas suspensas e escolas encerradas; o tempo de estudos online; o tempo em que o professor é opróprio encarregado de educação; o tempo de pagar mensalidades mesmo sem aulas presenciais; o tempo de saudades; o tempo em que a liberdade é coarctada,etc. etc. Mas o que é que vamos aprender com este tempo? Será que aprendemos a manter a higiene pessoal e colectiva? Aprendemos a cultivar a virtude da oração em nossa casa? Aprendemos a reconhecer que a Igreja não são os templos das 4 paredes, mas somos nós? Aprendemos a ensinar os nossos filhos sobre matérias escolares? Aprendemos a confiar em Deus? Qual é a lição que você vai tirar deste tempo? Essa coisa de máscaras iiiiiii!!!Nas ruas vimos todos tipos possíveis de máscaras: de pano, de coco, de folhas de árvores, de panelas, de alumínio, de ferro, da farmácia, etc. Às vezes para reconhecer alguém que usa máscara não é fácil. É normal cruzar com um amigo e não o reconhecer; cruzar com um bandido que parece pessoa sadia. As máscaras escondem a nossa face real. Quando alguém está sorrindo ou nervoso não se nota. Por isso os hipócritas usam máscaras. O inimigo desconhecido vestiu-nos com máscaras. Para exigir o cumprimento das medidas de prevenção da pandemia e as exigências do decreto presidencial durante a vigência do estado de emergência, vimos acções violentas e cruéis de alguns agentes da Polícia da República de Moçambique. Não sei se foi por ajuste de contas. Mas não faltaram exageros de indisciplina ou excesso de zelo que culminaram com a morte de uns e ferimento de outros. Mas esse agir era indistinto. Pois, alguns fiscais entre polícias e outras entidades autorizadas quando encontravam bêbados reunidos em convívio, o tratamento variava consoante o aliciamento que se lhes dava. Em alguns lugares o acto era voluntário: “embrulhavam” o chefe (polícia) com um envelope de 100Mt ou menos e o chefe fazia de contas que não viu nada. Ao passar por esse local, as pessoas continuavam a conviver, normalmente. Noutros lugares onde os vendedores oferecessem resistência, choviam chambocos, algemas arbitrárias, detenções e até balas verdadeiras para dispersar os cidadãos. Na ocasião, um chefinho gritava com voz de macho: “Onde está o meu refresco?” Este cenário lembrou-me o discurso do saudoso Presidente Samora Machel que dizia: “O polícia deve ser um elemento político, altamente educado e cortês. Um polícia não pode dar um pontapé a ninguém! O polícia que dá um pontapé a um cidadão, não respeita e não sabe o que representa a farda que enverga. Um polícia a espancar as pessoas é o cúmulo da vergonha! Este elemento não serve para a estrutura do Estado. O nosso polícia não tem privilégios. O seu privilégio é servir bem a República, é zelar pela aplicação da Constituição, é fazer respeitar as leis, educar os cidadãos. O polícia deve preocupar-se em conhecer as leis para as fazer respeitar, conhecer a Constituição para a saber defender. Ele deve respeitar o sofrimento dos outros”. Parece que Samora via de longe que no tempo de Coronavírus haveria crueldade. Continuemos vigilantes na observância das medidas de precaução, implorando que Deus faça chover sobre a humanidade “novos céus e nova terra” purificados pela Covid-19. Continuemos vigilantes e perseverantes na oração. “Não se perturbem os vossos corações. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim” disse Jesus (Jo 14,1.6). E mais não disse!


