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fev 18 2023

Crónica-A RIQUEZA DE SANGUE

África dos nossos antepassados. África dos que lutaram e morreram por nossa libertação. África dos que sonham a igualdade de direitos e oportunidades. África daqueles que diariamente morrem explorados, injustiçados, empobrecidos, aniquilados nos seus sonhos. Esta é a terra que Deus abençoou com muitas riquezas: humanas, naturais, florestais, minerais, marinhas, faunísticas, petrolíferas, etc. Pensa-se, desde muito tempo, que em África não existe riqueza saudável. Os que mais se sacrificam em trabalho, menos prosperam. Mesmo os assalariados não conseguem atingir os níveis de posse daqueles outros que seguem caminhos sinuosos. Enriquece quem serve a magia, quem passa por santuários obscuros, quem percorre caminhos de trevas e sem luz; quem passa de feiticeiro para outro, quem se transforma em cobra. Enriquece quem pratica iniquidade, quem corrompe, quem rouba, quem mata, quem se julga mais esperto, quem vive bajulando, quem se dobra diariamente para lamber chulé, para carregar e adicionar trocos que caem debaixo da mesa do suposto dono. Mas isso tem consequências sociais, religiosas, políticas, económicas, relacionais, existenciais. É por esse motivo que se considera que os ricos de África e de Moçambique não o são como resultado do seu salário mensal. Esta é a história dos que vivem sempre subindo os outros. Assim foi também com o coelho e o camaleão. Por sua natureza, o camaleão tem passos lentos. Porém, quando se encontrou com o coelho exibindo o seu talento de correr rápido, o camaleão respondeu-lhe: – “Sim! Eu sei que não corro muito. Mas eu sou mais esperto do que tu. Força, corramos! Vamos ver quem ganha!” Então o coelho começou a correr. O camaleão, no mesmo momento, subiu para a cauda do coelho, agarrou-se a ela e sentou-se. O coelho não sabia, ou não sentia o peso, porque estava com pressa. Logo que chegou à meta, o camaleão adiantou-se a saltar para o chão e sentou-se. Ora, quando o coelho ia sentar-se, o camaleão disse: – “Não te sentes sobre mim! Eu cheguei há muito tempo e estou à tua espera”. Então o coelho ficou muito aborrecido porque fora vencido pelo camaleão. É da mesma forma como muitas riquezas de sangue trepam a cauda dos menos espertos. Revestidos de hipocrisia aparecem como se fossem os melhores, perfeitos e até se gabam da sua força e poder! E enquanto continuarmos na esteira deste modo de enriquecimento nunca faltará a multidão dos miseráveis cada vez mais remetidos ao abismo; nunca faltará o barulho da guerra, do crime, dos falsos feiticeiros que se aproveitam da vida alheia para prosperar. A riqueza de sangue mostra que o horror da guerra semeado em Moçambique é igualmente uma das faces obscuras do enriquecimento ilegal, indevido, selvagem, ganancioso e abominável. Por causa da riqueza há quem manda matar, manda sequestrar, manda fuzilar, manda expulsar o povo das suas terras, manda explorar os recursos do país exportando-os clandestinamente para fora do país, manda silenciar os que vêem a luz. A vida de cada dia, as manobras que são produzidas e todas artimanhas dos elefantes cooperam sobremaneira na construção de riquezas de sangue que em nada facilitam o desenvolvimento de África e seus países. Os que se propõem liderar e gerir a coisa de todos, muitas vezes se apoderam de tudo e, em nome do povo, começam a enriquecer esquecendo-se daqueles a quem prometeram vida melhor e desenvolver o país. Utopia eterna. A guerra, as rivalidades, as divisões, as assimetrias, as injustiças, a corrupção e outros males sociais acontecem porque a fome pelo dinheiro e consequente riqueza, coloca os reis e poderosos em conflitos intermináveis. Ora, para manter a sua hegemonia, a sua riqueza, o seu poder, a sua fama, a sua prepotência servem-se das armas para afugentar possíveis pretendentes. O maior interesse em tudo isso é a procura do Reconhecimento. Conta-se que há muito tempo, o elefante é que era reconhecido como rei de todos os animais. Mas, ao mesmo tempo, também o coelho tinha sido feito rei, mas ninguém sabia. Por isso, o elefante e o coelho lutavam entre si por esse mesmo reino. Queriam reinar em simultâneo. E por falta de reconhecimento por parte do povo começaram a lutar fortemente. Acontece, porém, que certo dia, todos os animais se reuniram para saberem ao certo quem era o rei. Com efeito, concordaram ir perguntar a Deus. O coelho mandou o macaco subir àquela árvore onde se ia realizar a reunião, para responder quando perguntassem a Deus: “Quem é, ao certo, o rei?” Entretanto, se porventura perguntassem: “O rei é o elefante?” O macaco não devia responder. Mas quando lhe perguntassem “O rei é o coelho?” devia responder: “Sim! É o coelho”, senhor Deus. Ao responder, devia mostrar maior reverência ao coelho. A garantia disso é que o macaco seria adjunto do rei se o coelho fosse declarado rei de todos os animais. Acontece que o elefante, por falta de esperteza, não conseguiu armar nenhuma cilada para reforçar o seu poderio. E, portanto, no dia em que se reuniram, Deus perguntou: – O rei é o elefante?” Nessa ocasião, ninguém respondeu nada. Todos osanimais permaneceram calados. Deus perguntou por sete vezes se o elefante era o rei. Seguindo as orientações do seu chefe máximo, o macaco também permaneceu totalmente quieto e sem se mexer. Continuava pendurado na árvore em redor da qual estavam sentados os demais animais. Em seguida, Deus voltou a perguntar: – “O rei é o coelho?” E sem esperar a segunda vez, o macaco respondeu: – “Sim, Senhor Deus! O rei é o coelho! Ele é muito respeitado por todos nós e promove o desenvolvimento da nossa aldeia e de todo o grupo”. Naquele instante, depois dos pronunciamentos do macaco, todos os animais souberam que o seu rei era o coelho. O elefante, indefeso, ficou muito zangado e fugiu para o mato. É desta forma como uns são ofuscados e ensombrados por aqueles que têm macacos pendurados em várias árvores para os defender. Os que não têm nada, continuam a gritar sem ser ouvidos e, quando se esgotam, fogem para o mato e

ago 04 2022

Crónica do dia – Um cego não pode guiar outro cego

O sistema de educação do nosso país está doente. Está de baixa na sala de reanimação de onde voltar ou não tudo se mistura como produtos homogéneos, num clima de desespero total e completo. Está doente de um cancro que não aceita nem cuidados paliativos. Essa incompetência é demais. Morremos de vergonha e somos julgados pelo mundo como piores analfabetos. Nunca pensei, menos imaginei, que, depois da vergonha do conteúdo errado do livro da 6ª classe, voltássemos a assistir cenários tristes de erros, até nos testes finais. Erros de cálculos e de conteúdo. Parece que os autores daqueles conteúdos tomam “sicuta” de Sócrates. Não sei ao certo o que está acontecer no sistema educativo moçambicano. O que sei é que há um suicídio intelectual provocado ou espontâneo. Há uma necessidade de reforma no sistema educativo, até de demissão de alguns, do topo à base. As constantes reclamações de eficiência e satisfação no trabalho comprovam a presença do “veneno da incompetência” nos diversos sectores públicos da nossa sociedade. Este fenómeno acontece em pleno século XXI, era em que existem muitas instituições de formação para diferentes áreas profissionais, cada uma arrogando-se estar na posse da capacidade de oferecer melhores serviços e formações de qualidade. Muitos são os quadros formados e graduados, mas poucos são os que sabem exercer com eficiência o seu trabalho. A corrupção de que fala Mia Couto é um assunto sério. De facto, o pedido cancerígeno de “refresco em notas” no mercado de emprego e noutros sectores de interesse público faz dos nossos sectores profissionais covis de incompetentes. Olhando para o cenário da falta de emprego, nos dias actuais, é possível constatar que muitas pessoas se encontram trabalhando nos ministérios, não por vocação, mas por refúgio profissional. Porque “na falta do melhor o pior serve”. Muitos profissionais da educação são simples refugiados, daqueles que tentaram ser enfermeiros, pedreiros, engenheiros, sem sucesso. A falta de motivação salarial também está na raiz de tanta incompetência. Como é possível haver concentração diante das irregularidades da Tabela Salarial Única? Na verdade, quando o salário não compensa, morre também a vontade de trabalho sério. A preguiça física e psicológica associada ao consumo de drogas é outro factor detrás destes erros gritantes de conteúdos nos livros e nos testes. Pois, muitos trabalhadores, até de alto escalão profissional, vivem de fumos e babalazas. E no comando de todo seu trabalho está a inconsciência do que fazem. No quadro da degradação académico-intelectual no nosso país, está a negligência de fazer reciclagem, posto que muitos não participam das capacitações, rejeitam quaisquer observações dos colegas, e primam por trabalhar segundo o seu coração coberto de véu de ignorância. Frutos concretos já começamos a colher, pois nenhum cego pode guiar outro cego. Quem tem ouvidos, ouça! Giovanni Muacua, 04 de Agosto de 2022      

abr 07 2022

Crónica – A CAPULANA MATOU O MEU LAR

  A história reza que o 07 de abril de cada ano é o dia da Mulher Moçambicana. Nesta ocasião, é lembrado o aniversário de morte de Josina Machel (1945-1971), combatente da liberdade de Moçambique e heroína nacional. Até 25 de junho de 1975, Moçambique era uma das colonias portuguesas em África, quando nesta data, após uma década de guerra pela libertação nacional, conquistou sua independência. É o dia em que muitas mulheres, em comemoração da data, acorrem à praça para homenagear os feitos daquela que foi a grande mulher. Uma mulher que conquistou a liberdade moçambicana. É o que devia ser de todas as mulheres moçambicana no combate às várias formas de opressão. Mulheres unidas, famílias felizes. Infelizmente, no cenário em que vivem muitas mulheres do nosso tempo estão longe de ficarem como heroínas nos anais da nossa história. Sinto muito que o 07 de Abril já foi desfigurado. Não sei que se estaria a passar, ao certo, nas famílias atuais. Distorceu-se o sentido comemorativo desta grande festa, mal se entende esta data. Muitas mulheres pensam que o 07 de abril é dia nacional de mulheres bêbadas, homenengas, dia de separar-se do homem que não compra capulana”, dia da exploração dos homens; dia de mulher que manda o marido roubar. Não é por acaso que quando se aproxima esta data muitos homens emagrecem. Foi na tarde de ontem que regressava da cidade à minha casa. Parei por um tempo na estação de chapa no Clube 5, na área da Memória, cidade de Nampula. Ali estava um grupo de mulheres que discutia o que cada uma faz quando o marido ou o namorado não lhe compra capulana. Quando a dona Lídia, uma senhora de aparentemente 30 anos desatou: “… mana, eu não sou dorminhoca, o meu marido me conhecia, se ele não comprasse nada para mim no dia 07, eu usava minha saiotinha, minha blusa, um pouco de batom, ia à rua, e, quando lá chegasse, parava numa esquina (…), com minhas pernas (espalhadas) e resolvia todos meus problemas. Assim vivo sozinha, todos homens me fogem, parece que tenho espirito mau”. Exemplo de uma mulher que mal-entendeu o 07 de Abril e hoje vive solteira. Comemorar esta data significa, sim, estar a par do combate do ódio, da divisão nas famílias e das várias formas de opressão, para promover mais comunhão e unidade de todas as mulheres. É contra 07 de abril quem destrói o seu lar, abandona a sua família, só porque faltou capulana. Esta é uma festa do coração de uma mulher educada, uma mulher mais sensata. Feliz 07 de Abril a todas vocês mulheres de família, com responsabilidade e com  espírito de batalha! Quem tem ouvidos, ouça! Giovanni Muacua

mar 22 2022

Quem será o Messias dos pobres? 

Engarrafamento de peões, gritos de socorro, falta de chapas, são o novo rosto na cidade Nampula. Os automobilistas estão em greve e clamam por redução do preço de combustível e exigem que a taxa de rota urbana seja elevada de 10 para 20 meticais. De facto, o custo de combustível é demais. É sim. Queiramos ou não, agora, andar de carro ou motorizada não é para quem quer, é para quem pôde. Morreu Samora e ficaram ladrões. Quando falta liderança tudo pode acontecer. Moçambique não é um país de pessoas com capacidade económica para suportar o inferno da especulação de preços de produtos nem de transporte. Exceto para a minoria que aufere salários gordos, daqueles que afundaram o país com as dívidas ocultas. As decisões deste problema vão revelar se você é um líder ao lado do povo pobre e oprimido, ou se simplesmente se serve dele para ascender no poder. “O pobre clamou e o Senhor ouviu a sua voz”. Muitos dos que se servem de chapa para sua locomoção são, na sua maioria, pessoas muito pobres: mulheres grávidas, aleijados, doentes físicos, velhinhos e velhinhas, alunos que nem trabalham, comerciantes que buscam revender produtos de baixa renda para sua sobrevivência, refugiados de guerra de Cabo Delgado, órfãos de país, pessoas sem abrigo nem mandioca seca para enganar o estômago, vítimas de calamidades naturais e que morrem à fome. Fustigadas pelo coronavírus e, recentemente, pelo ciclone Gombe. Onde está a justiça desta gente? Foi penoso ver mulheres grávidas, doentes e aleijados, caminhando para hospitais a pé, comerciantes saindo do Waresta (cidade de Nampula), carregando bagagens de mercadorias pesadas. No meio de tudo isto não faltam oportunistas. Moto-taxistas cobrando dinheiro muito alto. Só para exemplificar, do Waresta para Memória a 300 meticais. Quem vai velar por esta situação? Quem virá repor a justiça aos pobres e miseráveis de Nampula? Que haja paz e equilíbrio na resolução deste assunto. Que ninguém saia prejudicado, nem automobilistas, menos ainda os passageiros. Vinte meticais, se for o caso, é demais. Também o preço de combustível não se ajusta às condições de pobres deste país. De contrário, Moçambique será vítima não só de guerras e ciclones, mas também de greves, da próxima não sei se não será dos peões. Quem tem ouvidos, ouça! Giovanni Muacua

mar 02 2022

Crónica – O PATO DAS CINZAS

Não sei se todos patos são como os do meu vizinho. Quando chove, eles acorrem às águas, mergulham-se até ao fundo, mas quando de lá saem e se sacodem sai apenas poeira, e nem sequer uma gota de água. A imposição das cinzas é um mistério que nos introduz no tempo da Quaresma. Tempo favorável de renovar a alma, de prepara-la para Deus. A conversão a Deus e aos irmãos somente tem sentido salvífico nesta vida. A cinza que nos é imposta na cabeça significa penitência e mudança de comportamento, e só produz efeitos de salvação para quem acredita e se abre ao espírito de jejum, da oração e da esmola. Sim, do jejum da mentira, do egoísmo, da fofoca, do adultério, da avareza, do jejum de desenhar esquadrões de morte, da corrupção, da ladroagem, do alcoolismo, da inveja, de ciúme selvagem, e não de uma mera abstinência alimentar moldada nos escombros económicos de poupança. De facto, da oração sincera e verdadeira, um verdadeiro louvor a Deus, rezando por si, pelos amigos e inimigos, e não de uma simples acção da boca com medo de silêncio. Mas de uma conversa de coração humano para coração divino. Na verdade, da esmola, de um abrir a mão e o coração para dar a quem abre mão e coração para receber. Como os patos do meu vizinho, que quando saem do mergulho, ao se sacudir sai mais poeira que a água, há muitos cristãos que, depois de receber a imposição das cinzas o seu comportamento continua o mesmo: não vivem as práticas quaresmais do jejum, da oração e da esmola que receberam na imposição das cinzas. São verdadeiros patos das cinzas. O mundo os engana que esquecem que um dia todos havemos de morrer. Ocupam-se fazendo tudo em excesso, a ponto de viver como se Deus e o pecado não existissem. Comem em excesso. Bebem mal. Olham mal. Conduzem mal. Falam mal dos outros. Mas o tempo de conversão é este, que nem dá para adiar ou desperdiçar. Ninguém sabe, ao certo, quando Deus lhe vai chamar. Bonitos ou feios, negros ou brancos, altos ou baixinhos, um dia vamos morrer e prestaremos contas a Deus por tudo quanto tivermos feito em vida, neste corpo. Chega de viver de vícios mortais. Deixa de lavar a cara com birras, de escovar os dentes com Gin Rhino, de fazer suas narinas de escapes de fumos de cigarro. Viva, sim, de jejum, de oração e de esmola. Feliz Quaresma e boa preparação para Páscoa do Senhor. Quem tem ouvidos, ouça! Por: Giovanni Muacua, 02 Março 2022

nov 05 2021

“EU NÃO TENHO MEMÓRIA DE ELEFANTE”

Uma sociedade de pessoas maduras, bem-educadas e responsáveis é aquela em que cada um assume a responsabilidade pelos seus actos. Não existe maturidade sem responsabilidade. A capacidade de dizer que “eu fiz isso. Eu sou culpado!” Perde-se ao mesmo tempo que desaparece a moral que orientava nossas existências como africanos. Hoje, diante do tribunal, as pessoas são capazes de invocar a embriaguez e os maus espíritos para fugir da responsabilidade da agressão aos seus filhos e sua esposa. Por falar em tribunal, assistimos nestes dias o julgamento do caso das dívidas ocultas. E, como não podia deixar de ser, como pessoas pertencentes a nova geração de jovens moçambicanos sem hábito de assumir a responsabilidade pelos seus actos, certos arguidos preferem dizer simplesmente que não se lembram dos factos que os envolvem ao caso. E quem pensa que quem adopta esta estratégia são apenas eles está enganado! Há jovens dizendo aos seus pais que se esqueceram que deviam fazer uma certa actividade para fugir da responsabilização; há inclusive alunos em tenra idade que são capazes de dizer aos seus professores que se esqueceram do caderno para não ter o castigo de não terem feito o trabalho de casa. Quer dizer que agora também, a negação absoluta de factos tornou-se uma forma de escapar da responsabilidade. Mas como chegamos até aqui? A nova geração, constituída maioritariamente por cidadãos irresponsáveis, pode ser resultado de factores combinados que, pelo hábito, não estamos interessados em assumir. A nossa educação tradicional está em agonia porque achamos que os valores mais aceitáveis e altos são os acidentais. A nossa educação formal desligou-se da realidade porque segue princípios estranhos a realidade. Os melhores valores já não são os nossos, mas são aqueles que proclamam mais os direitos e menos os deveres. Com efeito, nas famílias, as crianças não são mais ensinadas a lutar pelo seu bem. São acostumadas a receber de graça sem conquistar pelo seu esforço. Exigir algo de uma criança já se tornou violência doméstica porque o novo conceito de amor implica dar tudo às crianças. Esta pode ser a situação que criou as condições da amnésia dos ndambis e langas. Se continuarmos a criar uma sociedade de gente com amnésia e irresponsável, em breve teremos uma lei inaplicável, uma sociedade sem orientação e, pior ainda uma geração de cobardes que nunca estará disposta a assumir um papel fundamental no serviço à pátria. Formar pessoas adultas significa instruir nossos filhos para que não se tornem folgados. As nossas escolas, as famílias e as nossas instituições tradicionais precisam de reformular seus critérios para não construir uma sociedade de pessoas que esquecem tudo por conveniência, para fugir da responsabilidade pelos seus actos. Sempre disse que a falta de hospitais e escolas no nosso país não tinha nada a ver com falta de dinheiro nos cofres do Estado. A má qualidade das estradas e de serviços públicos que se insiste aliar à exiguidade de recursos não passa de mentira. Os nossos hospitais não têm profissionais suficientes, as nossas escolas não têm professores com qualidade e quantidade desejáveis não porque falte dinheiro para contrata-los, mas simplesmente porque a nossa gestão Estatal é feita de forma egoísta. Nosso país não é pobre. Criam essa percepção em nós para não reclamarmos, não exigirmos demais. Há anos que assistimos pequenas pontes serem construídas, carros do Estado serem reparados, pequenos blocos de salas de aulas a serem erguidos com a declaração de terem custado altas somas de dinheiro quando na verdade custaram pouco. Os gestores aumentam os valores do custo, sobre-facturam para se beneficiarem dos trocos. É assim que nossos dirigentes enriquecem. Para eles não importa a qualidade de serviços e de infra-estruturas oferecidas ao povo. O que importa para eles é o ganho que terão nessas obras. O mesmo acontece com o aumento de salários. Há anos que o aumento do salário não passa de míseros 500 meticais. A justificação para não aumentar mais, apesar do peso do custo de vida sobre os trabalhadores é que o Estado não tem dinheiro. Mas ouvimos que o governo anunciou novos ajustes salariais. Estes ajustes variaram entre 5 a 10%, tendo havido, deforma triste e vergonhosa, um aumento de 100 meticais para o sector do turismo e hotelaria. Curiosamente, ficamos sabendo que o governo aumentou salários e subsídios dos altos funcionários do Estado em mais de 100%. O maior aumento foi do empregado do povo, o Presidente da República, que chegou aos cerca de 390%. Ora, se por um lado o Estado está em crise, graças a COVID-19 e não tem capacidade de aumentar o salário de funcionários subalternos do Estado, eis que de repente, tem dinheiro suficiente não apenas para aumentar salários, mas também os subsídios de altos funcionários e agentes do Estado como o Presidente, deputados, ministros, procuradores, juízes, governadores e secretários de Estado. Não há dúvidas de que um governo assim nunca esteve e nunca estará empenhado no bem-estar do povo. Um governo assim trabalha para o benefício próprio e de seus amigos. Enquanto ainda ruminamos a desgraça causada por uma dívida feita para engordar os bolsos de alguns cidadãos, eis que sem medo, tranquilos, de consciência limpa, os mesmos aumentam seus próprios salários de forma criminosa e insensível. A ser verdade, a reinvenção do nosso Estado e de nossos valores é urgente. Mais urgente que isto é a aquisição da nossa consciência de cidadania para podermos não apenas reclamar das condições péssimas do país nos chapas e debaixo das mangueiras ao sabor da cabanga e da cerveja, mas também e sobretudo, agir como cidadãos, reclamar, impor nossas vontades como povo. Somos explorados pelos nossos próprios irmãos que ganharam o poder porque continuamos adormecidos, conformados na nossa pobreza que nos é imposta por líderes gulosos e egoístas.   Por Deolindo Paúa, in “A nossa Geração”

out 27 2021

AS REDES QUE NÃO PESCAM

“47O Reino do Céu é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. 48Logo que ela se enche, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e escolhem os bons para os cestos, e os ruins, deitam-nos fora. 49Assim será no fim do mundo: sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos, 50para os lançarem na fornalha ardente: ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13, 47-50). A palavra rede é comum na linguagem do mundo actual. Do latim rete, o termo rede é usado para definir uma estrutura que tem um padrão característico. Existem múltiplos tipos de rede. Na actualidade, fala-se de rede mosquiteira; rede social; rede de pesca ou de caça; rede de amigos; rede de burladores; rede de corruptos; rede de bêbados; rede de injustiças; rede de trabalho; rede de pensamento, rede de computadores; rede eléctrica; rede de sustentabilidade; rede de interesses; rede ocupada, etc. Assim, a rede exprime o conjunto de equipamentos ou acções interligados que partilham informação, recursos e serviços. Pode, por sua vez, dividir-se em diversas categorias, isto é, de acordo com o seu alcance; do seu método de conexão ou da sua relação funcional, entre outras. Ademais, toda estrutura em que diversos indivíduos mantêm vários tipos de relações designa ou constitui a rede, por haver um interesse em comum. A Bíblia, no texto acima, fala do Reino de Deus comparado a uma rede de pesca. Nela os pescadores apanhavam tanto os peixes comestíveis quanto os impróprios. Em outras palavras, a rede traz peixes bons e maus. Devemos nos lembrar também que muitas espécies, naquele tempo, eram consideradas impuras de acordo com as tradições judaicas. Na óptica do Evangelho, os discípulos de Jesus, presentes na humanidade devem convidar todos ao arrependimento, sem distinção. Mas devemos apontar para a forte realidade que o grande dia do juízo virá. Nesse dia, então, o ímpio e o justo serão separados. A isso se alinha também a parábola do trigo e do joio (Mt 13,24-46). Da mesma forma como o joio e o trigo crescem juntos na lavoura, sem que sejam separados até o tempo da colheita, também os peixes, bons e ruins, são apanhados na rede e permanecem juntos até que a rede seja arrastada à praia. Aí acontece ou decorre a selecção. Mas diferente de tudo isso é a rede que não pesca. A rede que não evangeliza. A rede que desvirtua a mente e desconstrói as relações sociais. Refiro-me das redes sociais. O mundo globalizado juntou, milhares de utilizadores numa rede (online), permitindo-lhes trocar mensagens e arquivos com outros membros da rede em breve tempo. Mas o interesse das pessoas nessas redes origina consequências sociais não abonatórias em muitos casos. Várias experiências mostram que a confluência de culturas (nas redes sociais) gera novos comportamentos sociais. Em consequência disso, mais preocupa o imediato (whatsapp), o distante mas sempre presente (online). Privilegia-se o ausente e marginaliza-se o físico. Vemos pessoas que não dialogam, mas vivendo juntas. Existem pessoas que têm milhares de amigos online e fisicamente estão na solidão. Isso provoca ansiedade, preocupação, frustração, depressão, etc. Os conteúdos partilhados merecem ser ceifados entre bons e ruins. Esta rede, apesar de juntar milhares de pessoas, não pesca por ser fonte de imoralidades. Apesar de criar facilidades de aquisição de conteúdos, livros, vendas e compras, informações e notícias há também atitudes e comportamentos que corrompem o coração humano. Nas redes sociais há pessoas que tecem e alimentam a onda de criminalidade, promiscuidade sexual, imundície, nudez, falsidade, ilusões de vida fácil e aparências, boatos e fofocas, guerras e invejas, infidelidades e traições, ódios e vexames, etc. Hoje em dia, a maior preocupação das pessoas é por aquilo que é fútil, passageiro, caduco. As pessoas procuram mais os “bifes”, os “podres”, os erros, os “gafes”, as quedas, os fracassos, os insucessos, as falcatruas, as derrotas, tudo alheio e fazer disso motivo de troça e fofoquice. Razão pela qual, esta rede não pesca. Pouco interessa quando alguém partilha ou posta assuntos de aconselhamento, de conteúdos formativos. Isso não toca com o interesse da maioria das pessoas. Mas quanto a imbecilidades você encontra milhares de comentários. Será que o mundo gosta mais de coisas tontas e sem sentido? Vejamos que poucas são as pessoas que se preocupam em partilhar a Palavra de Deus no seu mural. Parece que dá nojo e vergonha quando alguém partilha um versículo da Bíblia no facebook ou num grupo de Whatsapp. Se não for criticado como Mwèle (tonto) ou matreco, será considerado como um atrasado e amigo de padres e freiras. Ou será confundido por um pastor evangélico, recém-convertido ou um fundamentalista religioso. A Palavra de Deus incomoda as pessoas de hoje em dia. São pessoas que não querem ser corrigidas, por isso agem com permissividade. Ninguém lhes pode contrariar. São pessoas que desejam fazer tudo ao seu alcance sem limites nem fronteiras. Entretanto, para que o mundo não ande de pernas ao ar, é necessário que os jovens de hoje usem as redes sociais como instrumento de evangelização. Façam das redes sociais o novo areópago para divulgar a Palavra de Deus alcançando milhares de pessoas em simultâneo. Com efeito, cada um seria catequista, sem esperar ir a capela receber um grupo de 15 ou mais pessoas físicas. Aliás, no contexto planetário da Covid-19 notou-se que a sede por celebrações públicas pode ser saciada com a partilha da Palavra de Deus por estes instrumentos modernos. Façamos das redes sociais um instrumento de correcção mútua; uma escola de moral e ética; um meio de partilha de valores humanos e divinos; uma arma de combate ao ódio, à guerra, ao terrorismo, as divisões, as brigas; um instrumento de promoção do bem comum. Kant de Voronha, in Anatomia dos Factos

set 30 2021

Crónica – ESTE HOMEM NÃO É DA NOSSA TERRA

“Todo o reino, dividido contra si mesmo, fica devastado; e toda a cidade ou casa, dividida contra si mesma, não poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo: como há-de subsistir o seu reino? E, se Eu expulso os demónios por Belzebu, por quem os expulsam, então, os vossos discípulos?” (Mt 12,25-27) Uma das estratégias mais antigas que o espírito mau usa para confundir e derrotar a humanidade é a velha táctica de dividir para reinar. Esta é uma técnica de batalha tão efectiva e maquiavélica que a própria humanidade, sob a influência do espírito mau, tem reproduzido desde épocas antigas. A história faz-nos reviver a memória de líderes como Júlio César, Lisandro de Esparta, Filipe da Macedónia, Napoleão e muitos outros que utilizaram dela para construir suas guerras e campanhas bélicas e derramar o sangue de milhares de pessoas apenas para satisfazer seus caprichos. Não é preciso muito esforço nem lupa para notar que a sociedade na qual vivemos, está dividida. Vamos lá dizer em linguagem mais clara e objectiva; a realidade social fragmenta-se diariamente em pedaços cada vez menores; grupos políticos, religiosos, étnicos, sociais, de gênero e muitos outros estão se subdividindo repetidas vezes e guerreando tanto entre si quanto uns contra os outros; dividiram o mundo em continentes, em países em raças, em fronteiras em regiões, etc. As divisões antigas reproduzem novas divisões ainda mais profundas, dentro e fora dos grupos já existentes, e já enfraquecidos. E o demónio está aí aplaudindo a cada um para que continuem a rivalizar mais, despedaçar mais e faltar união, comunhão, harmonia, bem-estar, etc. Vejamos, por exemplo, que há partidos políticos surgidos da divisão de outros, casamentos que nascem da mesma sorte de divisão, igrejas que se despedaçam gerando outras seitas, grupos sociais sofrendo rupturas tão violentas e dolorosas que tornam-se incapazes de caminhar na mesma direção, ou mesmo de, simplesmente permanecerem frente a frente sem que uma guerra urbana ocorra. Existem inúmeros exemplos que podemos perceber com relativa facilidade ao nosso redor. Tudo isso está, na verdade, produzindo uma quantidade assustadora de histerias sociais que vão corroendo os pilares, estilhaçando a cada um em fragmentos cada vez menores e mais fracos até chegar a um ponto de colapso e ruína. Nosso dever é, portanto, discernir com clareza e lucidez para não sermos influenciados por pessoas facciosas, líderes ou membros, das instituições sociais ou religiosas, que tentam criar divisões internas ou externamente, pois o caminho que trilham, embora possa até não parecer, leva unicamente à ruína. A lei da natureza é certeira. O ser humano nasce, cresce, desenvolve-se, reproduz-se se tiver sorte e morre. Ninguém escolhe onde nascer. Ninguém tem opção de escolher os seus progenitores, muito menos a capacidade de contrariar o destino. Mesmo que haja pessoas que odeiem os seus pais por se julgarem indignos deles, Deus os colocou no mundo por meio deles. Aliás, é recorrente ouvir-se que fulano X ou Y matou sua mãe, sua avó, seu tio, seu avô porque julgou que era feiticeira. Que injúria e espírito mau. Esse homicida é irracional! O ser humano não tem o direito de tirar a vida a si próprio ou a outrem. Mas tem sim a liberdade de escolher onde ir viver e que caminhos seguir para realizar seus objectivos. É por isso que há movimentação de pessoas de um lado para o outro. O famoso êxodo rural. Além disso, o nº 1 do Artigo 6 da Constituição da República de Moçambique define que “O território da República de Moçambique é uno, indivisível e inalienável, abrangendo toda a superfície terrestre, a zona marítima e o espaço aéreo delimitados pelas fronteiras nacionais”. Assim, qualquer moçambicano, onde quer que esteja, está no gozo pleno dos seus direitos como moçambicano. Nada lhe impede de exercer tarefas sociais. Por isso vemos naturais de Nampula trabalhando em Niassa ou os de Cabo Delgado trabalhando em Nampula, etc, etc. Só que por vezes há alguns exageros quando vemos que só os machuabos enchem no Maputo e outras províncias como empregados domésticos. Ou quando os de Maputo enchem em todas províncias do país ocupando os postos de trabalho por afinidade, amizade, nepotismo, padrinhismo, regionalismo, grupismo, corrompismo, etc. Entretanto, há pessoas com ódio cujos corações continuam aversos aos que chegam ou vivem na sua terra e trabalham ao serviço do povo. Não faltam vozes de concidadãos que dizem “este não é nosso conterrâneo por isso não pode ser nosso chefe nem nos pode mandar”. Afinal de contas quem é que não veio aqui no mundo? Quem é que desde o princípio do mundo vivia aqui? Todos nós somos vientes. Ninguém é dono do lugar onde vive. Por isso que é descabido negar a liderança de pessoas de outras províncias ou distritos sob pretexto de ser viente. É comum, por exemplo, encontrar líderes comunitários e religiosos que são fortemente odiados por seus comparsas ou pelo povo por não serem naturais da localidade, e aí exercerem liderança sobre o povo. De onde encontram essa lei que proíbe pessoas de Nampula serem líderes em Inhambane ou em Morrumbala? De onde veio a norma segundo a qual só pode ser líder comunitário ou religioso em Maputo apenas os que nasceram em Maputo? Não somos todos moçambicanos? Não somos todos cidadãos que gozam dos mesmos direitos e deveres? O princípio da igualdade perante a lei e oportunidades aplica-se, em norma geral, para todos moçambicanos, sem exclusão de sua origem. Portanto, nada determina que o ódio acenda no coração de incompetentes que se oportunam com a pele de ser natural para inviabilizar o trabalho dos outros. Ouviu bem? E mais não disse! Por Kant de Voronha

set 03 2021

Crónica do mês – O importante são as regalias

Moçambique atravessa momentos terríveis de crises incomuns e profundas. Por um lado está reinando o devastador terrorismo em Cabo Delgado e a instabilidade Nhonguista no Centro do país. Por outro lado, está a crise imposta pela pandemia do Coronavírus. Além disso, vive-se a crise financeira forçada pelas famosas dívidas ocultas; a crise social de subida crescente do custo de vida e, a crise da incerteza do futuro do país. A meio de tudo isso, já vai mais de um ano em que o salário mínimo é remetido ao esquecimento. Face ao recrudescimento da pandemia do Coronavírus, em 2020 o reajuste do salário mínimo foi suspenso. Para 2021 enquanto parecia haver algum interesse eis que, de novo, foi suspensa a apreciação dessa matéria e ainda sem data para sua retoma. O que estará por detrás desta suspensão? Falta de dinheiro? Falta de vontade política? Falta de compaixão para com os pequenos? Lembro que a Ministra da Administração e Função Pública, Ana Comoana, em 2020, declarou que “Os incrementos salariais nunca são aleatórios. Tomam como base o desempenho económico do país. Se o desempenho económico não justificar, um determinado aumento salarial, por muito boa vontade que exista, poderá não ocorrer, ou se houver, não ser naquela proporção em que se está a pensar”, afirmou Comoana. Se prestarmos atenção iremos notar que o Estado moçambicano continua a arrecadar receitas, apesar da pandemia. Aliás, as instituições do Estado nunca pararam, estão a trabalhar normalmente. Então será uma punição? Com qual pretexto e finalidade? O Governo, no uso das suas competências deveria encontrar um meio termo para poder reajustar o mínimo que beneficia os mínimos. Mesmo assim, o Parlamento moçambicano deu-se o privilégio de aprovar o Projecto de Lei do Estatuto do Funcionário e Agente Parlamentar. Trata-se de cerca de 100 milhões de meticais, anunciados pelo Ministério das Finanças, um valor exagerado para fazer cobertura das regalias para os funcionários e agentes do parlamento beneficiando demais a minoria enquanto a maioria do povo continua a devorar a sorte de cada dia. Em que país vivemos? Há alguns que defendem que o Estatuto de Funcionário Parlamentar é para permitir que os visados se sentam valorizados como à semelhança dos outros membros dos órgãos de soberania, nomeadamente os funcionários da Presidência, do Conselho de Ministros e das magistraturas judiciais e do Ministério Público. Pode ser que haja suposta legalidade nisso, pois dizem ser benefícios que constam na Lei Orgânica e no decreto de assistência médica e medicamentosa. Mas era pertinente nesta altura do campeonato? Onde está a compaixão, a empatia, o amor ao povo, o patriotismo, a sensibilidade para com o sofrimento dos outros? Até quando a elite deixará de olhar para si só e seus ganhos? Não séria prioridade o terrorismo de Cabo Delgado? Não seriam prioritários os cerca de 1 milhão de concidadãos nossos que passam fome por causa da estiagem que assola certas regiões do norte do país? Vasculhando as páginas do documento aprovado, os funcionários e agentes da Assembleia da República passam a merecer subsídios diversificados para além do seu salário mensal. Assim, haverá subsídio para assistência médica até com direito de comprar medicamento nas farmácias privadas mais caras; subsídio de alimentação, de sessão na Assembleia da República, subsídio de férias correspondente ao salário base para gozar bem o tempo de descanso como quiser e com quem ou onde quiser ir estar. O mais caricato de tudo isso é que eles terão subsídio para comprar roupa para festas solenes (Risos). Tudo isso? Então significa que o salário mensal só servirá para guardar e comprar caixão dos netos ou filhos. Cumpre-se a Escritura “Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado e terá em abundância; mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado” (Mt 13,12; 25,29). E porque este tratamento diferenciado dos restantes trabalhadores da Função Pública? Quem são os filhos e os enteados? Se não há condições para o reajuste do salário mínimo, nada justifica que prevaleça discriminação no seio dos funcionários públicos. Que haja equidade! Todos nós sabemos que há muitos desses funcionários cujo trabalho é improdutivo. Porque se deve aplaudir assimetrias socioeconómicas que aumentam o descontentamento no seio do povo? Faltam políticas sociais para a promoção do bem comum, a ser assim o desenvolvimento integral será sempre assunto bonito dos papeis e longe da realidade. De facto, este país tem donos que merecem ganhar cada vez mais. Será possível que todo povo se transforme em funcionários parlamentares? Quem ficará nos hospitais, nas escolas, nas machambas, nos chapa-cem, nas fábricas, na marinha, no desporto, entre outras áreas de trabalho? Por Kant de Voronha, in Anatomia dos factos

ago 18 2021

O Veneno da independência

É sonho de todos que se sentem pessoas viverem livres, independentes, autónomos, etc. Aspiram igualmente viver em segurança e em pleno gozo da paz e de todos os direitos humanos. Mas quanto custa viver independente? O que exige? O que implica? Era suposto que com a independência Moçambique fosse dos moçambicanos. Ou seja, os moçambicanos gozassem em plenitude o fruto da sua conquista. Que o bem comum não continuasse privado por um punhado de pessoas; que as riquezas do país fossem partilhadas pelos cidadãos; que a lei fosse aplicada a todos indistintamente; que o gozo dos direitos fosso equitativo; que a educação fosse de qualidade para todos cidadãos; que o emprego fosse acessível não somente para alguns afilhados que têm padrinhos poderosos, mas também para os filhos dos enteados desta pátria amada. Afinal lutamos para continuar oprimidos? Lutamos para continuar analfabetos e no medo? Lutamos para continuar escravos da minoria? Lutamos para continuar refém das decisões egoístas? Lutamos para viver alimentando-nos de balas como carne para canhão? Lutamos para sermos expropriados das nossas terras? Lutamos para que? Qual era o nosso sonho? Certo dia, Daudo Rafael escreveu: “estamos há 46 anos de independência, mas até agora não deixamos de ser dependentes do ocidente. O governante moçambicano é simples embaixador dos ocidentais porque? Porque deixa de potenciar os hospitais de Moçambique só para quando ficar doente ser levado na diáspora? Porque despreza o seu próprio povo e vai-se entender por duas horas de tempo com o próprio homem que lhe colonizou? Porque vive dependente enquanto tem tudo para viver independente na sua terra? Porque deixa de exigir o estrangeiro instalar sua fábrica aqui no país prefere levar a matéria-prima para fora e depois importar? Porque considera o ocidente como fim de todo o problema que ele tem? Será que temos governantes Maquiavélicos neste país?” A nossa idade de independência devia-nos orgulhar. Mas estamos longe disso. Parece que usamos caminhos errados para a libertação do país. Investimos na luta para expulsar os colonos. Mas essa táctica ainda prevalece. Moçambique nunca mais deixou de sentir os efeitos da guerra, mesmo em formas parceladas. A instabilidade, a destruição e as mortes por guerra acompanham ininterruptamente a vida dos cidadãos moçambicanos. Por causa desse fenómeno de guerra interminável, a insegurança reina. Os cidadãos vivem até duvidando da sua própria sombra, como se não houvesse uma autoridade com missão de proteger e garantir a segurança de todos. “Em Moçambique a insegurança está instalada. Não há lugar, nem cidade, nem campo, onde o cidadão se sinta seguro e tenha a sua vida a fluir de forma tranquila, sem a ameaça da sua integridade física ou económica. No campo, instalam-se guerras. Por meio destas guerras mata-se e viola-se os mais básicos direitos humanos da forma mais vil. Nas cidades, instalam-se raptos e assassinatos; na periferia das cidades instala-se o crime organizado. De dia ou de noite, nas cidades, grupos de criminosos desfilam sua classe, matando, ferindo, violando e expropriando bens de forma tranquila, sem o mínimo de medo de repressão de alguma autoridade, porque a autoridade está quase sempre ausente” escreve Dr Paúa. Esse veneno chamado independência ainda não nos libertou. Mudou o governo, mudou a constituição, mas as acções continuam a colonizar-nos. E o pior colono é aquele que se disfarça como irmão com pele de ovelha e coração de Leão. É um colono que é legitimado pelo voto popular e por um esquema de representação que não representa a ninguém na assembleia da República. Trabalhamos para o inglês ver. Como consequências desse comportamento, multiplicam-se as estruturas, os esquemas, as modalidades e as acções de corrupção em rede. É uma praga que não vai acabar por se transmitir de geração em geração. Esta onda de “caça só para a própria gaiola” origina desigualdade e desequilíbrio social. Daí que uns vivem na abundância eterna e outros na miséria perpétua. Ou seja “enquanto os políticos esbanjam recursos públicos comprando para si bens que não precisam, fazendo viagens desnecessárias, vivem uma vida de reis, o povo, nas cidades e no campo, morre de pobreza, de desnutrição, de fome, se alimenta de capim, a menos que a sociedade tenha sido abolida e estejamos vivendo numa selva”. Será que para viver bem em Moçambique é preciso atrelar-se a critérios partidários e regionais? Será que para ser chefe em Moçambique só é possível exibir cartão partidário? Até quando viveremos com o negócio da venda do emprego e o privilégio que se dá às pessoas mais chegadas? O Mestre e Padre Kwiriwi refere que para ser desmistificado o que muitos não sabem sobre este país é preciso que se crie uma equipa de especialistas de várias áreas de saber para se dedicar no estudo sobre Moçambique e também de forma detalhada sobre cada cidadão. “Apresento alguns traços que me levam a afirmar que deve haver uma investigação de carácter multidisciplinar. a) Foram quinhentos anos de colonização, dominação e imposição de culturas diferentes, mas até hoje, tem moçambicanos que não sabem falar a língua portuguesa e resistem expressando-se unicamente em idiomas locais. b) A dita civilização europeia ficou no papel porque até hoje, Moçambique se pratica a poligamia, algo dito como um crime em países nórdicos. c) Guerras tribais: para maior controle de territórios e para a imposição da autoridade e poder, os chefes tribais faziam guerras entre si, mas no final do campeonato, tomavam juntos suas bebidas, como a Otheka. Os chefes tribais mantinham laços de amizades e também de vizinhança não se lembrando das guerras. Seus filhos praticavam casamentos interétnicos e a intimidade crescia. d) Com o início do comércio de escravos, uns tios vendiam seus sobrinhos principalmente os mais indisciplinados mesmo sabendo que o mesmo daria a continuidade da família e do clã ou da tribo. Quando faltasse o que vender, alguns homens preparados para esse tipo de missão, iam roubar meninos noutras regiões. Enquanto a escravidão continuava, crescia também o povo e aos poucos foi povoando o país todo. e) Desde cedo o povo moçambicano tinha sua religião e sabia

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