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set 11 2021

XXIV – DOMINGO DO TEMPO COMUM

12/09/2021: LITURGIA DA PALAVRA Primeira leitura: Is 50,5-9a Salmo responsorial: Salmo 114 (115) Segunda leitura: Tiago 2,14-18 Santo Evangelho: Mc 8,27-35 Tema: DEFENDER A VIDA DO OUTRO É ABRAÇAR O PROJECTO DE DEUS A Palavra de Deus neste domingo, convida-nos a abraçar o projecto de Deus que passa necessariamente pela defesa da vida numa altura que parece bastante fragilizada. Defender a vida significa, inicialmente acreditar que ela é dom de Deus. O relato de Isaías apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e que, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte. Contudo, o profeta está consciente de que a sua vida não foi um fracasso: quem confia no Senhor e procura viver na fidelidade ao seu projecto, triunfará sobre a perseguição e a morte. O “Servo” sofredor, apresentado por Isaías, que põe a sua vida, integralmente, ao serviço do projecto de Deus e da salvação dos homens mostra-nos o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Darias a sua vida para defender a vida dos outros? Na guerra provocada por terroristas, acompanhamos testemunhos de muitas pessoas que deram a vida pelos outros. Sejamos corajosos para defender a vida que está muito fragilizada. O Evangelista Marcos apresenta Jesus como o Messias libertador, enviado ao mundo pelo Pai para oferecer aos homens o caminho da salvação e da vida plena. Pedro professa sua fé em Jesus, o Messias. Para Marcos, Jesus cumpre o plano do Pai. Jesus mostra aos discípulos que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo, tem de aceitar percorrer um caminho semelhante: dar a vida aos outros no sofrimento paciente. A segunda leitura lembra aos crentes que o seguimento de Jesus não se concretiza com belas palavras ou com teorias muito bem elaboradas, mas com gestos concretos de amor, de partilha, de serviço, de solidariedade para com os irmãos. O autor apresenta a relação entre a fé e as obras. A fé sem obra é morta. O cristão não deve viver de utopias mas de uma realidade que parte pela acção concreta como fruto da sua fé em Cristo. Nas nossas paróquias, os livros de registo de sacramentos, encontramos milhares de baptizados, mas poucos vivem “o ser cristão autêntico”. A nossa caminhada cristã não é um processo teórico e abstracto concretizado num reino de bons discursos que parecem de campanha eleitoral; mas é um compromisso efectivo com Cristo que tem de se traduzir, a cada instante, em gestos concretos em favor dos irmãos. Quem é Jesus para ti? O que é que “os homens”, seus amigos, familiares, outras religiões dizem de Jesus? Jesus não é um simples profeta nem um nacionalista. Por isso ele pergunta a todos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a pergunta de Jesus obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim? Jesus tornou-se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens e mulheres do seu tempo e do nosso – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Jesus nos ensina  a “renunciar a si mesmo”, o que implica a não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. Jesus nos ensina também a “tomar a cruz”, que significa amar até às últimas consequências, até à morte. Compromisso Pessoal Vivenciar gestos de gentileza, de serviço, de perdão, de partilha na família, na comunidade e na sociedade. Suportar com paciência as perseguições e os sofrimentos deste mundo. Seguir o caminho de Cristo conscientes de que a cruz é pesada.

set 01 2021

Ministério do Catequista – antigo e actual

No mês de maio, papa Francisco publicou uma carta apostólica com a qual instituiu o ministério do catequista: uma necessidade urgente para a evangelização no mundo contemporâneo, a ser realizada sob forma secular, sem cair na clericalização. Eis um resumo do documento. «Ministério antigo é o de Catequista na Igreja. Os teólogos pensam, comumente, que se encontram os primeiros exemplos já nos escritos do Novo Testamento. A primeira forma, germinal, deste serviço do ensinamento achar-se-ia nos «mestres» mencionados pelo apóstolo Paulo ao escrever à comunidade de Corinto (1 Cor 12, 28-31) e em Gal 6, 6 e 1 Cor 12, 4-11. O próprio Lucas afirma, na abertura do seu Evangelho: «Resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los [os factos que entre nós se consumaram] a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído» (Lc 1, 3-4). Por isso desde o Concílio Vaticano II tem havido uma crescente consciência de que “a tarefa do catequista é da maior importância”, bem como necessária para o “desenvolvimento da comunidade cristã”… Toda a história da evangelização destes dois milénios manifesta, com grande evidência, como foi eficaz a missão dos catequistas…   Testemunho de vida dos catequistas Não se pode esquecer a multidão incontável de leigos e leigas que tomaram parte, directamente, na difusão do Evangelho através do ensino catequístico. Homens e mulheres, animados por uma grande fé e verdadeiras testemunhas de santidade, que, em alguns casos, foram mesmo fundadores de Igrejas, chegando até a dar a sua vida. Também nos nossos dias, há muitos catequistas competentes e perseverantes que estão à frente de comunidades em diferentes regiões, realizando uma missão insubstituível na transmissão e aprofundamento da fé. A longa série de Beatos, Santos e Mártires catequistas que marcou a missão da Igreja, merece ser conhecida, pois constitui uma fonte fecunda não só para a catequese, mas também para toda a história da espiritualidade cristã (não esqueçamos os nossos testemunhos: Cipriano Parite e os catequistas mártires de Guiúa).   Catequista obreiro da evangelização A partir do Concílio Ecuménico Vaticano II, a Igreja apercebeu-se, com renovada consciência, da importância do compromisso do laicado na obra de evangelização. Os Padres conciliares reafirmaram várias vezes a grande necessidade que há, tanto para a implantação da Igreja como para o crescimento da comunidade cristã, do envolvimento directo dos fiéis leigos nas várias formas em que se pode exprimir o seu carisma. “É digno de elogio aquele exército com tantos méritos na obra das missões entre pagãos, o exército dos catequistas, homens e mulheres, que, cheios do espírito apostólico, prestam com grandes trabalhos uma ajuda singular e absolutamente necessária à expansão da fé e da Igreja. Hoje em dia, em razão da escassez de clero para evangelizar tão grandes multidões e exercer o ministério pastoral, o ofício dos catequistas tem muitíssima importância”  (Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Ad gentes, 17). A par do rico ensinamento conciliar, é preciso referir o interesse constante dos Sumos Pontífices, do Sínodo dos Bispos, das Conferências Episcopais e dos vários Pastores, que, no decorrer destas décadas, imprimiram uma notável renovação à catequese.   Vocação do catequista O Catequista é chamado, antes de mais nada, a exprimir a sua competência no serviço pastoral da transmissão da fé que se desenvolve nas suas diferentes etapas: desde o primeiro anúncio que introduz no querigma, passando pela instrução que torna conscientes da vida nova em Cristo e prepara de modo particular para os sacramentos da iniciação cristã, até à formação permanente que consente que cada baptizado esteja sempre pronto «a dar a razão da sua esperança a todo aquele que lha peça» (cf. 1 Pd 3, 15). O Catequista é simultaneamente testemunha da fé, mestre e mistagogo, acompanhante e pedagogo que instrui em nome da Igreja. Uma identidade que só mediante a oração, o estudo e a participação directa na vida da comunidade é que se pode desenvolver com coerência e responsabilidade.   Instituição do ministério Convém que, ao ministério instituído de Catequista, sejam chamados homens e mulheres de fé profunda e maturidade humana, que tenham uma participação activa na vida da comunidade cristã, sejam capazes de acolhimento, generosidade e vida de comunhão fraterna, recebam a devida formação bíblica, teológica, pastoral e pedagógica, para ser solícitos comunicadores da verdade da fé, e tenham já maturado uma prévia experiência de catequese. Assim, depois de ter ponderado todos os aspectos, em virtude da autoridade apostólica, instituo o ministério laical de Catequista».   BOX A decisão de Francisco de instituir o ministério de catequista, que segue a abertura às mulheres dos ministérios do leitorado e do acolitado coloca-se no caminho já intuído pelo Papa Pio XII. Especialmente no nosso tempo, a tarefa de testemunhar e transmitir a fé às novas gerações é uma tarefa para “os pais e mães de família”. Já ao longo dos séculos e ainda hoje em vários países, na ausência de sacerdotes, a fé tem sido mantida viva, graças aos pais e mães e aos catequistas que passaram e muitas vezes sacrificaram suas vidas por isso. A criação de novos ministérios laicais para responder às novas necessidades também foi discutida no recente Sínodo sobre a Amazônia, e clarifica que os leigos não são chamados a realizar apenas um trabalho de suplência, porque há falta de vocações para o sacerdócio. Não é uma questão de suplência, mas de plena e reconhecida acção, envolvimento e co-responsabilidade: sua presença é verdadeiramente necessária para que a Igreja seja comunhão e seja missionária. Portanto, a instituição de um ministério laical não se destina a “clericalizar” a pessoa leiga.

ago 25 2021

O CONTEXTO MAIS AMPLO DA CONJUNTURA DO IMPERIO ROMANO

Frei Carlos Mesters, Carmelita O CONTEXTO MAIS AMPLO DA CONJUNTURA DO IMPERIO ROMANO Depois da morte e ressurreição de Jesus, o evangelho foi se espalhando. Em pouco tempo, a Boa Nova atravessou as fronteiras da Palestina e entrou pelo império romano a dentro: Ásia Menor, Grécia, Itália, Roma. Não foi uma caminhada fácil. Houve muitas dificuldades e perseguições, mas, apesar de tudo, o sol brilhava. O vento era favorável. Aquelas primeiras comunidades tinham uma espiritualidade muito viva, forte e resistente. Eram comunidades pequenas, muito pequenas, perdidas na imensidão do império romano que abarcava o mundo, havia mais de 200 anos. Aos poucos, porém, o céu se cobria de nuvens. Uma tempestade se armava. Um conflito aberto com o império não podia demorar. A nova maneira de viver e conviver em comunidade, iniciada pelos cristãos, querendo ou não, ameaçava o sistema do império (Cf. At 17,6-7). Uma espiritualidade centrada na partilha de bens ameaça a quem só quer acumular! A vivência da fraternidade mina por baixo o sistema de quem só pensa em si. De fato, uns trinta anos depois da morte de Jesus, o imperador Nero decretou a primeira grande perse­guição. Foi apenas o início dos males! Em torno do ano 90, o imperador Domiciano decreta uma nova perseguição. Desta vez mais violenta e mais organizada. Domiciano torturava os cristãos para que abandonassem a fé. Como explicar essa mudança? Quando as comunidades cristãs iniciam sua caminhada, o império romano ainda não tinha atingido seu apogeu. O império, que estava sendo construído com muita violência, era um aglomerado imenso de reinos, províncias, etnias, povos, cidades, tribos, todos congregados na submissão ao imperador. Em caso de rebeldia não havia perdão. O exército, formado pelas bem treinadas legiões, intervinha e matava sem piedade. O império era uma grande panela de pressão, cuja temperatura começou a subir na segunda metade do primeiro século com risco de explosão. Tudo isto influía na maneira de os cristãos viverem e anunciarem a Boa Nova de Jesus. O Apocalipse de João surgiu neste período entre os anos 70 e 100. Enumeramos aqui sete fatores que mais de perto interferiram na vida das comunidades cristãs e que estimularam o surgimento de uma nova espiritualidade, capaz de sustentar a fé, a esperança e o amor do povo durante a tempestade e a crise da mudança. Variedade de grupos e tendências nas comunidades De um eucalipto cortado nascem inúmeros galhos e ramos. Do tronco do Crucificado ressuscitaram inúmeros brotos e flores. Desde a sua origem, o cristianismo nasce diversificado. A origem desta variedade está na própria natureza da encarnação e na liberdade do Espírito que atua nas comunidades. A variedade revela a beleza do rosto de Deus. Os fatores que contribuíram para fazer aparecer as diferenças eram muitos: a variedade das culturas em que a Boa Nova se encarnava; a diversidade dos costumes dos povos; as distâncias geográficas; a variedade da história de cada comunidade; os vários centros de irradiação: Jerusalém na Judéia, Antioquia na Síria, Éfeso na Ásia Menor, Roma na Itália, Alexandria no Norte da África, Corinto na Grécia; o jeito diferente dos missionários e das missionárias: Tiago, Pedro, Paulo, Lídia, Apolo, Maria Madalena, o casal Priscila e Aquila, e tantos outros; a variedade dos problemas que pediam respostas diferentes; as diferenças de classe; as diferentes tomadas de posição frente à política do império romano; a enorme variedade de doutrinas e religiões que invadiam o império. Além disso, as várias tendências existentes entre os judeus reapareceram nas comunidades cristãs: piedosos (hassidim ou hassideus), essênios, zelotes, fariseus. Por exemplo, alguns ex-fariseus da comunidade de Jerusalém, ligados a Tiago, irmão de Jesus, se mantinham na observância da Lei, sem se misturar com os pagãos (At 15,1-2; Gl 2,7-8; 1,6-10; 9,12). Outros, como Apolo de Alexandria e os doze discípulos que apareceram na comunidade de Éfeso, combinavam o batismo de João Batista com a mensagem de Jesus (At 18,24-26; 19,1-7). Outros como Paulo deixavam para trás a observância rigorista da Lei e com um ardor missionário muito grande tentavam atrair o maior número possível de pagãos. Mas nem sempre a variedade nascia da vontade de manifestar o Reino. Às vezes, ambições pessoais, medo de ser perseguido, visões diferentes, conflitos e tantas outras tensões e problemas levavam pessoas ou comunidades a acomodar a mensagem às vantagens do momento e a anunciar o Reino conforme tendências e medos não confessados. Isto começou a aparecer sobretudo depois dos anos setenta, quando a infiltração crescente da ideologia do império ia mostrando a fragilidade das comunidades dispersas e fazia sentir a necessidade de uma organização mais consistente para elas poderem sobreviver. Esta variedade, ao mesmo tempo rica e ambígua, transparece no Apocalipse de João, sobretudo nas cartas (Ap 2-3). A revolta dos Judeus e a destruição de Jerusalém Ainda durante a vida de Jesus e sobretudo depois, as explosões populares contra a ocupação romana foram crescendo (Lc 13,1; 23,19; At 5,37; 21,38), novos partidos foram surgindo ou se organizavam: zelotes, sicários. A situação se radicalizava. A incapacidade e a brutalidade dos governadores romanos junto com a corrupção e a luta pelo poder da classe dirigente da Judéia, deixou o povo sem proteção e sem alternativa, e no ano 66 explodiu numa revolta generalizada. Roma perdeu o controle da situação. Estimulados pelas idéias do movimento apocalíptico, muitos viam no levante contra Roma a chegada do Dia de Javé! Sacerdotes, saduceus e anciãos, forçados a entrar na revolta contra Roma, faziam o possível pa­ra manter o controle da situação. Mas pouco adiantou. As legiões romanas vieram e foram reconquistando a Galiléia e a Judéia, à espera do momento oportuno para o assalto final contra Jerusalém. Enquanto isso, dentro da cidade de Jerusalém, grupos rivais lutavam entre si pelo poder. Dois grupos de judeus, porém, não quiseram participar da rebelião: os judeus da linha farisaica e os judeus que tinham aderido à fé em Jesus. Tanto para os fariseus como para os cristãos, a revolta contra Roma não era expressão da chegada do Dia de Javé. Pouco depois da Páscoa do

ago 23 2021

RESUMO DA MENSAGEM DO APOCALIPSE DE JOÃO

Frei Carlos Mesters, Carmelita 15ª Chave RESUMO DA MENSAGEM DO APOCALIPSE DE JOÃO Tirar o véu dos olhos, da Bíblia e da história O povo está impaciente e diz: “Até quando, Senhor?” (Ap 6,10). Se Deus é o dono do mundo, como Ele permite esta perseguição tão demorada? Desmascarando a falsa propaganda do império (Ap 12,16; 13,1-18; 17,1-18), o Apocalipse tira o véu dos olhos e aponta os sinais da vitória de Jesus. Usando textos do Antigo Testamento para descrever a situação (Ap 4,2.8; 5,10; etc), tira o véu da Bíblia e mostra que o mesmo Deus de ontem conti­nua conosco hoje. Mostrando “as coisas que devem acontecer muito em breve” (Ap 1,1), tira o véu da história e situa a perseguição dentro do conjunto do plano da Salvação (cf. Subsídio 10) Deus Pai, Juiz Supremo, Senhor do Tempo e do Espaço, Defensor da vida Perseguidos pelo Império, os cristãos estão morrendo. A mensagem central do Apocalipse é a fé na ressurreição (Ap 1,17-18). O fundamento desta fé é a certeza de que Deus é o Criador do céu e da terra, Senhor da vida e da morte (Ap 11,17-18). A ele nada é impossível. Esta fé vitoriosa transparece na visão majestosa do Trono do Juíz, onde Deus toma assento como Senhor da história e Criador do Universo (Ap 4,2-8). É graças ao poder deste Deus que Jesus venceu (Ap 5,6-10) e que os fiéis têm coragem de crer em Jesus (Ap 1,5-6). Por isso, desde já, eles participam na vitória e podem reinar junto com ele (Ap 20,4-6). Jesus Cristo, Vencedor da morte, Defensor do povo, Senhor da História Jesus é o Go´êl, o parente mais próximo, o irmão mais velho, aquele que, pela entrega de si, resgata seus irmãos perseguidos (Ap 5,9). Ele é o Defensor do povo. Pela sua morte e ressurreição enfrentou e venceu o Satanás, o Acusador do povo (Ap 12,10). Deus, o Juiz, ratificou a vitória de Jesus e o Satanás foi jogado fora (Ap 12,7-11). Jesus tornou-se o Senhor da história (Ap 5,7). Um resumo desta mensagem central está na visão inaugural (Ap 1,9-20). O seu lembrete repetido está nos títulos dados a Jesus e nas frequentes aclamações de vitória (Ap 2,1.8.12.18; 3,1.7.14; 5,5.9-10.12; 7,10. 17; 11,15; 12, 5.10; etc.). São como postes que conduzem o fio da mensagem ao longo das páginas do Apocalipse até à visão final da Jerusalém celeste (Ap 21-22). Co­municam às comunidades perseguidas a certeza da presença de que Jesus ressuscitado está vivo no meio delas. O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” Os sete espíritos são de Deus (Ap 4,5) e também do Cordeiro (Ap 3,1). Eles estão diante do Trono (Ap 1,4). Como fiéis mensageiros, são enviados por toda a terra para executar o plano de Deus (Ap 5,6). O Espírito se comunica com as comunidades e lhes faz saber qual a vontade de Deus: “Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às comunidades!” (Ap 2,7.11.17.29.; 3,6.13.22). Ele fala pelos profetas (Ap 19,10; 22,6), arrebata o vidente para comunicar as visões (Ap 1,10; 4,2; 17,3; 21,10) e suscita no ser humano o desejo de Deus e da união com Ele (Ap 22,17). O número sete indica a plenitude da presença de Deus no meio das comunidades. Perseguição e martírio Perseguição e sofrimento, insegurança, medo e perigo de morte, falta de horizonte, cansaço, eram o pão de cada dia do povo das comunidades (Ap 2,10; 6,9-11; 7,13-14; 12,13.17; 13,7; 16, 6; 17,6; 18,24; 20,4). Como sobreviver nesta situação e testemunhar a Boa Nova de Deus? O Apoca­lipse é mensagem de esperança para o povo perseguido (Ap 1,9-18). Através de imagens e símbolos, faz outra leitura dos fatos. Aquilo que aparentemente é derrota, fraqueza e morte, na realidade, é expressão da vitória de Jesus, é pedra na construção do Reino, etapa na realização do plano de Deus (Ap 5,6-10). Assim, a perseguição perde a sua virulência e invencibilidade e assume a dimensão de teste­munho, de martírio. Símbolos do passado O uso do Antigo Testamento caracteriza o Apocalipse. Um uso marcado pela familiaridade de quem se sente em casa no Antigo Testamento, pela liberdade de quem se sente herdeiro da tradição e pela fidelidade de quem quer ser fiel ao compromisso da Aliança. Sobre o sentido e o alcance dos símbolos, veja o Subsídio 6. Sobre o uso do Antigo Testamento, veja o Subsídio 10) O Específico: a fé na ressurreição O que marca o Apocalipse e o diferencia dos outros apocalipses é o alcance e a centralidade da fé na ressurreição. A ideologia persa admitia dois princípios absolutos que governam o mundo ou interferem na história, o bem e o mal. Os apocalipses judeus e cristãos não admitem este dualismo. Para eles, o que existe é o projeto de Deus e o desvio dos que se colocam contra o projeto. O poder do mal é real e é respon­sável pelo que faz, mas não é dono da história nem tem autonomia total. É um poder dependente e limitado. No fim todo o mal será totalmente eliminado. A vitória final será de Deus, será do bem.

ago 22 2021

APOCALIPSE E A VINDA DE JESUS NO FIM DOS TEMPOS

Frei Carlos Mesters, Carmelita 14ª Chave APOCALIPSE E A VINDA DE JESUS NO FIM DOS TEMPOS A palavra Apocalipse significa re-velação. O Apocalipse re-vela (desvela) a vinda de Jesus e a descreve de várias maneiras: como já presente nas comunidades (Ap 1,9-20); como apelo à conversão (Ap 2 e 3);  como libertador do povo perseguido (Ap 4-11); como Juiz que vem destruir as forças do mal que oprimem as comunidades (Ap 12-22). A vinda deve acontecer em breve (Ap 1,1). Ou melhor, já está acontecendo e, em breve, será revelada. No fim do livro, as comunidades pedem com insistência, para que Jesus não demore, e gritam: Vem! (Ap 22,17). O próprio Jesus responde: Sim, venho logo! (Ap 22,20). São várias maneiras de se entender a vinda de Jesus, mas todas elas são como galhos variados que nascem do mesmo tronco. Este tronco tem quatro aspectos importantes misturados entre si: 1) Centro e raiz de tudo: O centro e a raiz de tudo é o nome de Deus É-Era-Vem (Ap 1,4.8; 4,8). Ele vem e virá por fidelidade ao próprio Nome (cf. Sl 91,14-15; 52,9). Em tudo que acontece Deus está vindo até nós. Ao longo dos séculos, a sua vinda se intensifica e só terminará no fim da história. Aí ele se chamará Era-É (Ap 11,17; 16,5), e já não vem mais, pois já veio e a sua presença será total, tudo em todos (1Cor 15,28). 2) Experiência da ressurreição: As comunidades viviam a experiência forte da presença do Ressuscitado no meio delas, “no meio dos candelabros” (Ap 1,13.20). Ao mesmo tempo, viviam a expectativa intensa da sua manifestação plena no fim dos tempos e queriam saber como e quando seria esta vinda: “Senhor, é agora que vai restaurar o Reino de Israel?” (At 1,6) Jesus responde que, em vez de perguntar pela data da vinda futura, devem testemunhar a Boa Nova da vinda de Deus hoje no meio de nós (At 1,7-8). Irrigando esta semente da presença da vinda hoje, apressamos o amadurecimento da hora da vinda futura (2Pd 3,11-13; 4,7-11). 3) Interpretação dos fatos: A maneira dos primeiros cristãos falarem da vinda de Deus e de Jesus era uma forma de eles lerem e interpretarem os fatos da história e da vida. Era para dizer que não existe neutralidade. Todos nós, de uma ou de outra maneira, estamos contribuindo para a chegada do fim, ou a favor ou contra. Estamos todos jogando no campo. Não há arquibancada para assistir à história do lado de fora. Falar da vinda era uma forma de provocar compromisso e engajamento nas pessoas (2Ts 3,10-11). 4) Limitações inerentes a toda percepção: Finalmente, deve-se levar em conta o aspecto particular dos primeiros cristãos que, inicialmente, esperavam a chegada do Dia de Javé e a vinda de Jesus para logo. Foi a experiência concreta da presença libertadora de Jesus Ressuscitado, que os ajudou a perceber melhor o alcance e o significado mais profundo da vinda de Jesus. Mas isto foi um processo longo que levou muitos anos, toda a segunda metade do primeiro século (2Pd 3,8-10). O verdadeiro ecumenismo A comunidade de Filadélfia era perseguida pelos judeus fariseus, mas, conforme a afirmação da carta, estes acabarão por converter-se (Ap 3,9). Reconhecerão que Deus ama não somente a eles, os judeus fariseus, mas também aos irmãos cristãos. Aqui está o fundamento do verdadeiro ecumenismo: não brigar para um ter razão contra o outro, nem querer converter o outro para ele aderir ao grupo da gente, mas sim, sem nenhuma segunda intenção, viver de tal modo o amor de Deus, a ponto de tornar-se para o outro uma Boa Notícia do amor de Deus. Viver de tal modo que o outro terá que reconhecer: Deus te ama. Quando o outro diz a mim: “Reconheço que Deus te ama!”, ele fala a partir do Deus que ele adora. Se ele reconhece que o Deus dele ama também a mim, deverá reconhecer que somos irmãos. Este é o significado profundo da afirmação da carta: Vou entregar-te alguns da sinagoga de Satanás que se afirmam judeus, mas não são, pois mentem. Farei com que venham prostrar-se a teus pés e reconheçam que eu te amo!” (Ap 3,9) Não é proselitismo. Não é superioridade. É vivência gratuita do amor! A mesma intuição, Jesus a transmite no fim da oração-testamento, conservada no evangelho de João (Jo 17,20-26). Esta atitude ecumênica leva a sério a experiência de Deus dos que pensam diferente de nós.

ago 21 2021

APOCALIPSE E LITURGIA

Frei Carlos Mesters, Carmelita 13ª Chave APOCALIPSE E LITURGIA O uso do Apocalipse na Liturgia, o uso da Liturgia no Apocalipse. As duas afirmações são verdadeiras. O autor do Apocalipse se inspirou nas liturgias das comunidades e, ao mesmo tempo, o seu livro era usado para animar as celebrações das comunidades. Canta-se muito no Apocalipse, do começo ao fim. Até parece um livro de canto, um manual de liturgia, a descrição de uma grande celebração comunitária. Invocações, súplicas, lamentos, aclamações, gritos de vitória, saudações, preces, louvores, felicitações, procissões, ações de graças, elas ocupam grande parte das páginas do Apocalipse. Eis algumas: *  a liturgia cósmica diante do Trono de Deus, envolvendo toda a criação (Ap 4,4-11), *  a celebração da vitória do Cordeiro, envolvendo os anjos e a humanidade toda (Ap 5,8-14), *  o lamento dos perseguidos que sai debaixo do altar (Ap 6,9-11), *  a procissão imensa da humanidade em direção às fontes da água viva (Ap 7,9-17), *  a solene abertura do sétimo selo com muito incenso e oração (Ap 8,2-5), *  a liturgia que acompanha a sétima trombeta anunciando a chegada do Reino (Ap 11,15-18), *  a celebração de louvor e ação de graças por ocasião da vitória do menino (Ap 12,10-12), *  o cântico de vitória dos 144.000 assinalados ao redor do Cordeiro no Monte Sião (Ap 14,2-3), *  a tríplice Boa Nova trazida por três anjos que anunciam a queda de Roma (Ap 14,6-13) *  o cântico de Moisés sobre um mar de vidro, anunciando as últimas pragas (Ap 15,2-8), *  a aclamação que canta a justiça de Deus por ocasião da terceira praga (Ap 16,5-7), *  o jogral, que lamenta, canta e celebra, por antecipação, a queda do império Romano (Ap 18,1 até 19,8) *  a descrição litúrgica da chegada do novo céu e da nova terra (Ap 21,3-7). Quem canta, seus males espanta. O jeito de orar revela o jeito de crer. A liturgia é a expressão da fé, da esperança e do amor da comunidade. Nela se revelam e se transmitem a imagem e a expe­riência que o povo tem de Deus, de Jesus e de si mesmo. Olhando pela janela destas celebrações, descobrimos dimensões da vida daquele povo que têm grande atualidade para nós.

ago 20 2021

DIVISÃO DO TEXTO DO APOCALIPSE

Frei Carlos Mesters, Carmelita 12ª Chave DIVISÃO DO TEXTO DO APOCALIPSE A divisão do texto 1,1-3: PORTÃO DE ENTRADA Título e resumo do livro Ap 1,4 até3,22: AS CARTAS PARA AS SETE COMUNIDADES 1,4-20:    A entrada para o livro * 1,4-8             Saudação inicial para as sete comunidades * 1,9-20                      Origem do livro: a Visão Inaugural de Jesus 2,1-3,22: As sete Cartas para as sete Comunidades, isto é, para todas * 2,1-7             para Éfeso * 2,8-11                      para Esmirna * 2,12-17        para Pérgamo * 2,18-29        para Tiatira * 3,1-6             para Sardes * 3,7-13                      para Filadelfia * 3,14-22        para Laodicéia   Ap 4,1 até11,19: DEUS LIBERTA O SEU POVO 4,1-11: Visão do Trono de Deus 5,1-14: Visão do Cordeiro com chaga de morte 6,1-7,17: Abertura dos primeiros seis selos do livro de sete selos * 6,1-8:         o passado: abertura dos primeiros quatro selos * 6,9-11:       o presente: a abertura do quinto selo * 6,12-7,17:  o futuro: abertura do sexto selo * 6,12-17:     derrota dos opressores do povo * 7,1-17:       missão do povo perseguido 8,1-10,7: Abertura do sétimo selo: visão de seis das sete pragas 10,8-11,13: Intervalo que prepara o segundo roteiro (costura) * 10,8-11:     o livrinho doce e amargo * 11,1-13:     as duas testemunhas, Moisés e Elias 11,14-19: Sétima praga que marca a chegada definitiva do Julgamento de Deus Ap12,1 até22,21: DEUS JULGA OS OPRESSORES DO POVO 12,1-17:    O Passado:      a luta entre a Mulher e o Dragão 13,1-14,5:  O Presente:     os dois campos em luta: Besta-fera e Cordeiro * 13,1-18:        a besta fera: o Império Romano * 14,1-5:          Cordeiro e exército: o povo das Comunidades 14,6-20,15: O Futuro:      julgamento e condenação dos opressores do povo * 14,6-13:          três anjos anunciam o que vai acontecer * 14,14 a 20,15:      realiza-se o anúncio feito dos três anjos *14,14-20:  do 1º anjo:    chegada do julgamento *15,1-19,10:      do 2º anjo: queda de Babilônia *19,11-20,15:    do 3º anjo: derrota final do mal 21,1-22,5:   A festa final da caminhada do povo de Deus Ap 22,6-21   Conclusão com recomendações finais.

ago 19 2021

DESTINATÁRIOS, AUTOR E HISTÓRIA DO TEXTO DO APOCALIPSE

Frei Carlos Mesters, Carmelita 11ª Chave DESTINATÁRIOS, AUTOR E HISTÓRIA DO TEXTO DO APOCALIPSE Época e Destinatários O Apocalipse foi escrito e redigido entre os anos 60 e 100. Lendo nas entrelinhas das sete cartas e colhendo as informações do resto do livro, obtém-se o seguinte quadro da situação em que se encontravam as sete comunidades: perseguição por parte do império, infiltração da ideologia imperial nas comunidades, invasão de doutrinas estranhas, divisões internas causadas por falsas lideranças, conflito crescente e doloroso com os irmãos judeus e, por fim, cansaço da caminhada. É para este povo que João escreve o seu livro. Como vimos, entre eles havia os fracos e os pobres que continuavam firmes na fé e na luta; havia os que estavam perdidos, sem enxergar o rumo; havia os que misturavam as religiões sem entender direito o seu sentido; havia os acomodados e os ricos que tinham caído na rotina. Mas todos precisando de uma palavra de esclarecimento, de conforto, de crítica ou de coragem! Autor e Motivos da carta O autor se apresenta: “Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação” (Ap 1,9). Ele não invoca nenhum título, nem de bispo, nem de sacerdote, nem de evangelista, nem de apóstolo. O título que vale é: “Irmão e companheiro na tribulação”. Sendo ele mesmo um perseguido, conhece por dentro o drama dos companheiros e das companheiras. Por isso tem condições de animá-los. O nome João aparece 4 vezes: três vezes na introdução (Ap 1,1.4.9) e uma vez na conclusão (Ap 22,8). Quem é este João? É o Apóstolo? É o autor do quarto Evangelho? Uma tradição do II século identi­fica-o com o Apóstolo do mesmo nome. Este seria o autor do quarto Evangelho e do Apocalpse. Outra tradi­ção, relatada por Eusébio, historiador do IV século, diz que se trata de um “ancião” (presbítero), e dis­tingue-o do Apóstolo e do Evangelista. É difícil chegar a uma conclusão. Talvez seja o seguinte. Como vimos, é uma característica do gênero literário apocalíptico o autor se esconder atrás do nome de alguma persona­lidade importante do passado. É possível que o autor tenha se escondido atrás do nome do apóstolo João. Pois a memória deste apóstolo era bem viva na Ásia Menor, onde foi escrito o nosso Apocalipse. Ao que tudo indica, “João” era coordenador das comunidades, pois, conforme transparece nas car­tas, ele está bem por dentro da situação de cada uma delas(Ap 2-3). Tem consciência de ser porta­dor de uma profecia por parte de Deus para as Comunidades(Ap 22,9-10). Ele mesmo encarnou a Palavra de Deus em sua vida(Ap 10,8-11) e sofre por causa do testemunho (Ap 1,9). Por isso tem autoridade para falar. Porém, apesar da sua autoridade, João não tem medo de confessar o que não sabe(Ap 5,4; 7,13-14). Na polêmica com os adversários, ele usa palavras duríssimas(Ap 2,9; 3,9) que certamente não usaria fora da polêmica. O editor do livro apresenta a palavra de João como sendo uma profecia e pede obediência(Ap 1,1-3; 22,18-19). João escreve para os irmãos  perseguidos das sete comunidades que estão na Ásia (Ap 1,4.11). O número sete simboliza todos. Escrevendo para as sete, João quer é animar a todas as comunidades, inclusive as de hoje. Condição para a pessoa ser atingida pela sua mensagem é sentir-se “irmão e companheiro na tribulação”. A história do texto O texto do Apocalipse é difícil não só por causa das imagens estranhas, mas também por causa das costuras e rupturas que nele existem. Não é um texto com uma unidade harmoniosa. Parece não ter um plano claro. Ele dá a impressão de ter sido escrito em várias etapas. Um pedreiro experimentado é capaz de descobrir as etapas da construção de uma casa. Ele examina o prédio e diz: “A varanda da frente foi feita depois. Veja só os sinais na janela e na porta. A cozinha foi alargada. Olhe o piso e aquela viga lá no teto. Para o quarto de dormir dos meninos, ele puxou o telhado e aproveitou aquele ângulo morto. No começo só havia mesmo dois quartinhos, uma cozinha apertada e um banheiro”. O Apocalipse é como uma casa popular. Cresceu aos poucos, de acordo com as necessidades da família. Alguns exegetas examinaram os sinais nas paredes, no piso e no teto do Apocalipse. Analisaram as rupturas e costuras que existem no texto, e concluíram o seguinte: A parte mais antiga são os capítulos 4  a 11. Foi escrita, provavelmente, durante a perseguição de Nero (64) ou, conforme outros, na época da destruição de Jerusalém (70). A caminhada das comunidades é vista como um Novo Êxodo. A Boa Nova é apresentada como um anúncio de libertação para o povo oprimido. No fim do governo de Domiciano (81-96), a perseguição voltou. Os problemas cresceram. Era necessária uma reflexão mais aprofundada sobre a perseguição e sobre a política do império romano. Para responder a esta nova problemática dos anos 90 foram escritos os capítulos 12 a 22, concebidos como continuação e alargamento da sétima praga do fim da primeira parte (Ap 11,14-19). A história da humanidade é vista como revelação progressiva do julgamento de Deus. A Boa Nova é apresentada como condenação progressiva dos opressores do povo. Em seguida, foram acrescentados os capítulos 1-3, que dão ao livro o aspecto de uma carta carinhosa com endereço certo. São como que a varanda acolhedora da frente, onde João recebe o povo perseguido. A cartacomeça com um preâmbulo (Ap 1,4-20), que serve de introdução a todo o livro do Apocalipse. A Boa Nova é apresentada como exigência de fidelidade e de compromisso. No fim, um editor juntou tudo, fez o portão de entrada (Ap 1,1-3), ajeitou o quintal dos fundos, que é a conclusão (Ap 22,6-21), e a casa ficou pronta! Esta é apenas uma entre as muitas teorias que existem em torno do Apocalipse. A melhor teoria será aquela que melhor explique as dificuldades literárias que o texto apresenta, e melhor revele a mensagem do Apocalipse para os pobres e perseguidos de hoje. Conhecer a história da construção da casa é útil e importante para a compreensão

ago 18 2021

DECLARAÇÃO DOS BISPOS CATÓLICOS DE MOÇAMBIQUE

 Reunidos na nossa primeira Sessão Plenária deste ano, 2021, nós os Bispos Católicos de Moçambique, com o coração cheio de tristeza, como todo o cidadão moçambicano que se identifica com o bem do pais, deploramos a trágica situação que vive a população de Cabo Delgado; lamentamos a prevalecente insegurança nas populações do centro do país e estamos inconformados com a insegurança alimentar e a fome que afetam a outras populações, assim como a violência que de varias formas se alastra no país, e tudo isso num contexto de Pandemia do Covid-19. Deploramos e condenamos todos os actos de barbárie cometidos. Em Cabo Delgado pessoas indefesas são mortas, feridas e abusadas. Elas veem seus bens pilhados, a intimidade dos seus lares violada, suas casas destruídas e cadáveres de seus familiares profanados. São obrigadas a abandonarem a terra que os viu nascer e onde estão sepultados os seus antepassados. Estes nossos concidadãos, a maioria mulheres e crianças, são empurrados para o precipício da insegurança e do medo. Deploramos a prevalência deste estado de coisas, sem indicações claras de que a breve trecho haverá superação das causas que alimentam este conflito. Este estado de coisas faz crescer e consolidar a percepção de que por de trás deste conflito há interesses de vária natureza e origem, nomeadamente de certos grupos de se apoderarem da nação e dos seus recursos. Recursos que, em lugar de serem postos ao serviço das comunidades locais e tornarem-se fonte de sustento e de desenvolvimento, com a construção de infraestruturas, serviços básicos, oportunidade de trabalho, são subtraídos, na total falta de transparência, alimentando a revolta e o rancor, particularmente no coração dos jovens, e tornando-se fonte de descontentamento, de divisão e de luto. Reconhecemos que um dos motivos fortes que move os nossos jovens a se deixarem aliciar e a juntarem-se às várias formas de insurgência, desde a criminalidade ao terrorismo, ou também aquela outra insurgência, não menos nociva, do extremismo político ou religioso, assenta na experiência de ausência de esperança num futuro favorável por parte dos nossos jovens.  Para a maioria deles não há oportunidades de se construir uma vida digna. Sentem que a sociedade e quem toma as decisões ignoram o seu sofrimento e não escutam a sua voz. É fácil aliciar pessoas, cheias de vida e de sonhos, mas sem perspetivas e que se sentem injustiçadas e vítimas de uma cultura de corrupção, a aderirem a propostas de uma nova ordem social imposta com a violência ou a seguir ilusões de fácil enriquecimento que conduzem à ruína. Como podem ter os jovens perspetivas se o próprio país parece não ter rumo, um projeto comum, no qual são convidados a serem colaboradores ativos e que alimente a sua esperança?  É nossa posição de que nada justifica a violência. Nem a situação difícil, de falta de uma perspetiva coletiva, partilhada como uma nação, nem ressentimentos, nem intolerância ou interesses de parte, de natureza religiosa, politica ou económica, devem desviar-nos, como um povo para o caminho de qualquer tipo de insurgência. Mais uma vez, manifestamos a nossa total solidariedade com os mais fracos e com os jovens que anseiam uma vida digna.  As religiões têm uma grande contribuição a dar na  resiliência das comunidades e perseguir um ideal de sociedade unida e solidária, limitar a sua acção não favorece a procura de soluções. Como missão da Igreja Católica tem sido sempre nosso compromisso colaborar para o bem da nação, apontando os perigos e esperando sempre que quem tem responsabilidades busque as devidas soluções. Sempre demos nossa colaboração concreta no campo do bem-estar do nosso povo na educação, na saúde e no desenvolvimento humano. Em tudo desejando colaborar na reconstrução do tecido social ferido por traumas antigos e recentes. Continuaremos a redobrar os esforços para ajudar os desamparados e acolher os deslocados, proporcionando-lhes escuta e consolação, além de meios de sustentação partilhados pelos crentes. Gostaríamos de poder oferecer, às nossas crianças e jovens, percursos educativos que os abra aos valores da tolerância, do respeito e da amizade e possam ver o sonho de um futuro melhor realizado.  Reiteramos a nossa disponibilidade de colaborar com as forças vivas do nosso país para uma ordem social onde o egoísmo deixe o espaço à solidariedade, e juntos com as autoridades, se elabore um projeto de país que contemple todo o cidadão, privilegiando os mais marginalizados e desfavorecidos. Exortamos as forças políticas nacionais, as organizações presentes no país, a comunidade internacional para unirem esforços e, pondo de lado os interesses de parte, se socorram as populações deslocadas, as que vivem em grave insuficiência alimentar, expostas às doenças endémicas e sem acesso aos serviços básicos. Igualmente é urgente criar mais oportunidades de trabalho e de desenvolvimento para todos, particularmente para os jovens e,  para tal, se apliquem in loco os ganhos dos recursos naturais disponíveis. Por fim, apelamos para que todos contribuam para a pacificação, protegendo a população, fechando as vias de financiamento à guerra, isolando e travando indivíduos ou grupos que tiram proveito da tragédia de Cabo Delgado. Apesar dos momentos difíceis que estamos a viver, ninguém perca a esperança. Como refere a Encíclica do Papa Francisco “Todos Irmãos” (Fratelli Tutti), a “esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna. Caminhemos na esperança!”.   Maputo, 16 de Abril de 2021  Bispos da CEM Lúcio Andrice MUANDULA  Presidente

ago 18 2021

AS TENDÊNCIAS NA INTERPRETAÇÃO DO APOCALIPSE

Frei Carlos Mesters, Carmelita 10ª Chave AS TENDÊNCIAS NA INTERPRETAÇÃO DO APOCALIPSE O Apocalipse prediz o desenrolar da história O Apocalipse é visto como uma profecia da história. Prediz as etapas do Projeto de Deus, desde o seu começo até o fim. Assim pensava, por exemplo, Santo Agostinho. Os que se orientam por esta teoria, interpretam as visões como descrições antecipadas dos grandes acontecimentos da história da Igreja e da humanidade. Eles encontram aí dentro alusões, por exemplo, à explosão da bomba atômica, ao avanço e implosão do comunismo, ao atentado ao Papa, aos terremotos, às guerras, aos problemas ecológicos, etc. Tudo parece previsto. Esta maneira de ler o Apocalipse provoca a curiosidade e levou Nostradamus a elaborar suas teorias e profecias. O Apocalipse fala do fim do mundo Para outros, o Apocalipse não descreve o desenrolar da história, mas sim o fim dela. Isto é, fala só das coisas que vão acontecer no fim dos tempos, imediatamente antes da vinda de Jesus. É o que pensam muitos grupos pentecostais. Eles se consideram “os santos dos últimos dias”, vivendo no fim dos tempos, prontos para acompanhar Jesus, quando ele vier nas nuvens. Daí o seu grande interesse pelo Apocalipse que é visto como um “aviso prévio” de Deus à humanidade. Eles dizem: “De 1000 passou! De 2000 não passará!” As vagas são poucas: só 144.000 assinalados. As suas interpretações causam medo em muita gente. O Apocalipse quer animar as Comunidades do fim do primeiro Século O Apocalipse não foi escrito para predizer as etapas da história, nem para descrever o fim do mundo, mas sim para iluminar a situação sofrida das comunidades perseguidas do fim do primeiro século. Época de Domiciano (81-96). Quer ajudá-las a entender o que estava acontecendo e, assim, reanimar sua fé, sua esperança e seu amor. Quer animar, consolar, situar e clarear. Até hoje, as comunidades perseguidas experimentam tal conforto na leitura do Apocalipse. O Apocalipse tira Raio-X da vida humana Outros dizem que o Apocalipse não se refere à situação das comunidades do fim do primeiro século, nem descreve o desenrolar das etapas da história, nem fala do fim do mundo. Não se refere a nenhuma época determinada da história, mas sim a todas as épocas e a todos os acontecimentos, tanto de ontem como de hoje e de amanhã, e procura revelar neles uma dimensão mais profunda. Ajuda os leitores a não parar na superfície dos fatos, mas a olhar tudo pelo lado de dentro e descobrir a ação de Deus em tudo que acontece. Ter uma consciência mais crítica. Estas quatro tendências não se excluem mutuamente. Podem até completar-se. Importante é o acento que se dá. Colocamos o acento na terceira. Partimos da convicção de que o Apocalipse foi escrito para animar as comunidades perseguidas da Ásia Menor do fim do primeiro século. Esta maneira de interpretar predomina entre os estudiosos hoje em dia. Ela é nossa principal chave de leitura que será esclarecida e comprovada ao longo dos roteiros e subsí­dios. Esta variedade de opiniões mostra e confirma que uma obra de arte é sempre maior que o seu intérprete. O poeta é maior que o seu crítico literário. O Apocalipse de João é maior que as teorias que o interpretam. O seu sentido não se esgota em nenhuma delas. As interpretações passam. A obra permanece! Isto obriga o intérprete a ser humilde.

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