ago 15 2021
DIVIDIR A HISTÓRIA EM ETAPAS PARA SITUAR O MOMENTO PRESENTE
Frei Carlos Mesters, Carmelita 7ª Chave Segunda Característica DIVIDIR A HISTÓRIA EM ETAPAS PARA SITUAR O MOMENTO PRESENTE Uma comparação. Você está viajando de Belo Horizonte para Rio de Janeiro. É noite, perto da madrugada. Você estava dormindo e acorda. Conforme os seus cálculos, o ônibus já devia estar chegando no Rio de Janeiro. Na realidade, não há nenhum sinal de cidade lá fora. Tudo escuro! Além disso, em vez de asfalto, é estrada de chão, cheio de buracos, coisa que não existe entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Preocupada, você se levanta e pergunta ao motorista: “Onde estamos? Vai demorar para chegar?” Ele responde: “Uma ponte quebrada obrigou a gente a fazer uma volta de quase 50 quilômetros por esta estrada de chão. Daqui a pouco alcançamos de novo o asfalto. Vamos chegar no Rio com uma hora de atraso”. Aí você se tranqüiliza e diz: “Obrigada! Então está tudo certo. Falta pouco. Graças a Deus!” Fora de você, nada mudou. Era a mesma escuridão, a mesma estrada de chão, cheia de buracos. Dentro de você, tudo mudou. Você se situou, graças à palavra do motorista! O apocalíptico é como o motorista do ônibus: ajuda o povo a se situar na caminhada, feita no escuro das perseguições. A caminhada já vem de longe. Ninguém sabe quanto tempo ainda vai demorar nem por onde o povo está andando. Deus perdeu o volante, assim parece. Angustiados perguntam: “Onde é que estamos? Vai demorar muito?” (Ap 6,10). O interesse do povo que sofre não é saber como vai ser o futuro daqui a cem ou a quinhentos anos, mas sim como vai ser amanhã: “Vai ou não vai ter perseguição? Vamos ou não vamos ter comida?” O apocalíptico explica quantas são as etapas da caminhada do plano de Deus e informa em que etapa a comunidade se encontra no momento da perseguição. Como é que ele faz isto? O apocalíptico vive num tempo de crise e de perseguição, no meio de um povo sem poder. Para ajudá-lo ele volta atrás na história e, por meio de visões, se transporta para o passado, para o início do plano de Deus ou para o início de alguma etapa importante deste plano. E de lá, do fundo da história, ele olha para a frente e descreve quantas são e como vão ser as etapas do plano de Deus, desde aquele momento inicial até o fim dos tempos. Assim, na realidade, algumas destas etapas já pertencem ao passado; uma etapa está acontecendo no momento presente em que ele está escrevendo, e outras etapas ainda vão acontecer no futuro. Quase sempre, a etapa presente, em que o povo sofre a perseguição, encontra-se imediatamente antes do fim. Deste modo, as comunidades perseguidas se situam e se animam: “Falta pouco! Estamos quase no fim! Vamos continuar na caminhada!” Por isso, geralmente, os escritos apocalípticos são pseudônimos. Seus autores buscam uma figura significativa no passado, a partir da qual olham para o futuro. Basta olhar os nomes de alguns apocalipses que surgiram nos primeiros séculos: apocalipse de Adão, Set, Sem, Abraão, Moisés, Elias, Sofonias, Baruque, Daniel, Zacarias, Estêvão, Pedro, Tomé, Maria, Tiago, Paulo, João. Vejamos três exemplos deste procedimento: Um exemplo tirado do livro de Daniel: A visão do Filho do Homem(Dn 7,1-28) O autor de Daniel 7,1-28 vive no tempo dos Macabeus (167 aC). É o período do império helenista, época da grande perseguição do rei Antíoco IV (175-164) contra o povo judeu. A perseguição criou uma situação de desespero. Para comunicar a sua mensagem de esperança, o autor do livro de Daniel se transporta para o passado, época do exílio (550 aC), o “primeiro ano de Baltazar, rei da Babilônia” (Dn 7,1). Estando lá no passado, ele tem uma visão, que lhe faz ver as etapas do plano de Deus, desde o exílio da Babilônia até o fim da perseguição que o povo estava sofrendo. Nesta “visão noturna” (Dn 7,2), aparecem, um depois do outro, os quatro grandes impérios, todos com aparência de “animais monstruosos”: leão com asas de águia (império da Babilônia) (Dn 7,4), urso com três costelas entre os dentes (império dos Medos) (Dn 7,5), onça com quatro asas e quatro cabeças (império dos Persas) (Dn 7,6), e uma “fera medonha e terrível” (império dos gregos iniciado com Alexandre Magno) (Dn 7,7-8). Os impérios têm aparência de animais porque são animalescos, brutais, desumanos. Eles perseguem, desumanizam e matam a vida. O quarto império dos gregos, o da “fera medonha e terrível”, persegue e mata os “santos do Altíssimo” (Dn 7,21.25). É aqui que o povo perseguido do ano 167 se reconhece: “Estamos na 4ª etapa!” E imediatamente vem a pergunta: “Quanto será que falta até que chegue o fim da perseguição?” A resposta vem em seguida. Depois dos quatro reinos anti-humanos, chega a quinta e última etapa do Dia de Javé. O céu se abre e aparece o Trono do julgamento divino: “Um Ancião se assenta, vestido de veste branca como a neve, cabelos brancos como a lã” (Dn 7,9-10). A simples aparição do Trono do Juiz faz desaparecer os reinos animalescos. Diante do olhar divino, o mal desaparece como gelo diante do sol! Eles são julgados, condenados e destruídos (Dn 7,11-12). Aparece, então, o quinto reino, o Reino de Deus, com aparência não de um animal mas sim de gente, de “um Filho de Homem”, que recebe todo o poder (Dn 7,13-14). Pois o Reino de Deus é um reino humano, que promove a vida. É o contrário dos reinos animalescos! A figura do Filho do Homem representa o povo de Deus, o Povo dos Santos do Altíssimo (Dn 7,22. 27; cf. 7,18). É uma figura comunitária ou coletiva. Conforme esta maneira de interpretar a história, a perseguição já não aparece como uma fatalidade, mas é vista como um tijolo que contribui para a construção do Projeto de Deus. É etapa necessária para se chegar ao fim, como a dor de parto é caminho necessário para o nascimento da vida nova. As comunidades perseguidas descobrem que a história continua
ago 14 2021
EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E SÍMBOLOS
Frei Carlos Mesters, Carmelita 6ª Chave Primeira Característica EXPRESSAR TUDO POR MEIO DE IMAGENS E SÍMBOLOS João teve muitas visões, algumas delas muito estranhas. Ele viu animais com seis asas, cobertos com olhos ao redor e por dentro (Ap 4,8); um cordeiro com sete chifres e sete olhos (Ap 5,6); cavalos com cabeça de leão e rabo de escorpião (Ap 9,17.19), uma besta-fera com sete cabeças e dez chifres (Ap 13,1), cujo número é 666 (Ap 13,18); uma cidade, bonita como uma noiva que desce do céu (Ap 21,2), e assim por diante! Ele enche o Apocalipse de números: 3, 4, 10, 1000 e suas combinações: 7 (3+4); 12 (3×4); 40 (4 x10); 144.000 (12x12x1000). É um outro mundo! Estranho, irreal, diferente do nosso! E o que dizer do número 666 da Besta Fera? (Ap 13,18). Há muitas interpretações. A mais provável é que se trate de uma alusão ao rei Salomão que, por ano, tirava 666 talentos de ouro, i.é, 23 toneladas, dos agricultores da Palestina (1Reis 10,14). Além disso há o uso de números para indicar as letras. Por exemplo, VI significa seis. Assim, o número de C-e-s-a-r – N-e-r-o-n é 666. Como é que visões tão estranhas podem clarear a situação do povo? Por que João não usa a linguagem comum como, por ex., Lucas faz nos Atos e Paulo nas cartas? O que será que o Apocalipse quer alcançar com estas visões? Vamos dar aqui seis respostas. Trazer conforto e coragem na luta O Apocalipse de João traz visões grandiosas: Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18), o Trono de Deus (Ap 4,2-8), o Cordeiro imolado (Ap 5,6-14), a Mulher e o Dragão (Ap 12,1-6). Talvez não entendamos logo o seu significado em todos os detalhes. Mesmo assim, experimentamos algo. É como o menino que passeia com o pai. O menino nada entende do que seja força e proteção. Mas ele sente a força e a proteção do pai, pois vai tranqüilo, sem medo, ao lado dele! Assim, a visão de Jesus ressuscitado (Ap 1,12-18) não diz o que é força e proteção. Mas faz o povo sentir a força e a proteção de Jesus ressuscitado, caminhando com ele, ao lado dele! Transformar a saudade em esperança As visões do Apocalipse de João estão cheias de imagens tiradas do Antigo Testamento. A história do povo é lembrada ou evocada, às vezes, por uma única palavra. Algumas visões nada mais são do que construções novas, feitas com os velhos e já conhecidos tijolos do AT. Por que as visões recorrem tanto ao Antigo Testamento? O AT era o passado do povo. Passado bom, onde Deus tinha manifestado a sua presença com grandes milagres. Muitos lembravam o passado apenas para curtir a saudade: “Antigamente sim! Mas hoje…! Deus não aparece mais!” Ora, as visões recheadas com frases e lembranças do Antigo Testamento, transformam este passado num espelho. É como se estivesse acontecendo de novo, agora! Elas despertam a memória, desobstruem o caminho da fonte que existe dentro do povo e, aos poucos, a energia do passado vai acordando, o véu vai caindo, o povo se reencontra e a caminhada se ilumina: “Deus continua agindo! O mesmo Deus de antigamente! Ele não mudou de lá para cá! Ele está conosco!” A saudade se transforma em esperança: Não podemos desanimar! Comunicar ao povo algo da paz de Deus Às vezes, pessoas medrosas e não engajadas usam o Apocalipse como pretexto para não entrar na luta: “Deus faz tudo! A nós cabe assistir e esperar!” Mas este não era o caso das comunidades da Ásia para as quais João escrevia o seu livro. Não havia o risco de elas usarem o Apocalipse como pretexto para não entrar na luta, pois já estavam na luta, há muitos anos. O problema delas era outro: como fazer para não desanimar da luta, pois estavam meio perdidas e desanimadas na frente de batalha (Ap 6,10). O Apocalipse de João achou uma resposta. Por meio das visões, João transporta as comunidades para dentro do céu (Ap 4,1), para perto do trono de Deus (Ap 4,2-11), onde está o quartel general do Cordeiro que lidera a batalha (Ap 14,15; 17,14; 7,9-17). Lá do alto, do centro das operações, elas contemplam a luta com os olhos de Deus. Descobrem que as ameaças e pragas não são para os oprimidos, mas sim para os opressores do povo, e experimentam que, apesar de difícil, a luta já está ganha (Ap 14,9-12; 17,14). Assim, as visões comunicam algo da paz com que Deus, sereno, lá do alto, comanda a luta contra a injustiça e a opressão (Ap 11,14-18; 12,10-11). As comunidades fincam a sua raiz em Deus e a tempestade das perseguições já não consegue arrancá-la. Elas voltam para a luta bem mais animadas, com sabor de vitória. Defender-se contra os opressores do povo Em época de perseguição, todo cuidado é pouco. Dizer abertamente que o império romano era o grande inimigo a ser combatido podia dar prisão. João achou um jeito para dizê-lo de outra maneira. Por exemplo, para explicar o mistério da grande prostituta, sentada sobre a besta-fera com sete cabeças (Ap 17,3), ele diz: “Aqui é preciso ter inteligência para poder discernir: as sete cabeças são sete colinas sobre as quais a mulher está sentada” (17,9). Todos sabiam que a cidade de Roma, sede do Império, estava construída sobre sete colinas. Para o bom entendedor, meia palavra basta! Em outro lugar, João diz: “Quem tem inteligência é capaz de calcular o número da besta, pois é um número de gente. Seu número é 666!” (Ap 13,18). De acordo com o número de cada letra, o leitor calculava e descobria a mensagem: a besta é o imperador de Roma que persegue os cristãos. As visões com seus símbolos eram um meio para esclarecer o povo perseguido e defendê-lo contra os seus opressores. Elas revelavam a sua mensagem aos oprimidos e a escondiam aos opressores. Deus manda ser bom, mas não bobo! Fazer-se entender pelo povo das comunidades Um cartaz com desenhos transmite muito mais do que só falar. Uma dramatização é mais
ago 13 2021
APOCALIPSE: ANÚNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM ÉPOCA DE IMPÉRIO
Frei Carlos Mesters, Carmelita 5ª Chave APOCALIPSE: ANÚNCIO DA BOA NOVA DE DEUS EM ÉPOCA DE IMPÉRIO O Apocalipse é Boa Nova porque comunica conforto e esperança a um povo em crise, ameaçado na sua fé. A crise tinha duas causas, ligadas entre si. A externa: a perseguição e as mudanças na sociedade. A interna: a falta de visão e de fé, as divisões e o cansaço. Deus parecia ter perdido o controle da situação. Os opressores pareciam ser os donos da história. Muitos se perguntavam: “Será que vale a pena continuar a participar da comunidade?” O Apocalipse enfrenta este problema e ajuda o povo a perceber e a combater as causas da crise. Ele tira o véu dos fatos e revela o outro lado, o lado escondido que só a fé é capaz de enxergar, e faz o povo saber que os acontecimentos não estão escapando da mão de Deus. Os poderosos parecem ser os donos do mundo, mas, na realidade, o seu poder é limitado por Deus. A Boa Nova do Apocalipse é esta: Deus continua sendo o Senhor da história! Ele conduz o seu povo para a vitória final. Ninguém, por mais forte que seja, consegue mudar o rumo do plano de Deus. Os opressores do povo vão ser derrotados e condenados, todos! A ressurreição de Jesus o garante! Este anúncio forte e vigoroso desloca o peso da balança. De um lado, enfraquece a carga da perseguição (causa externa). Do outro lado, fortalece o peso da fé (causa interna). O povo se equilibra de novo na vida. Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo agradece, explode em cânticos de alegria e se dispõe a resistir. Entoa, desde já, o canto da vitória, como Miriam, irmã de Moisés, depois da travessia do Mar Vermelho. Depois dos Salmos, o Apocalipse é o livro da Bíblia, em que mais se canta! Por isso, qualquer interpretação do Apocalipse feita para meter medo nas pessoas deve ser considerada como errada e falsa! Já não seria Boa Nova para os pobres. Seria o mesmo que usar o sol para molhar ou a água para enxugar! As várias maneiras de se anunciar a Boa Nova de Deus No início, os cristãos criaram várias formas para transmitir a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe: em forma de história (Atos dos Apóstolos), de carta (Paulo), de cântico (Maria, Zacarias), de evangelho escrito (Mateus, Marcos, Lucas, João), e em forma de apocalipse. Quem transmite uma mensagem em forma de cordel, deve conhecer o ritmo da poesia do povo. Quem o faz em forma de história em quadrinhos, deve saber desenhar. Quem o faz em forma de uma canção, deve entender de música. E quem anunciava a Boa Notícia de Deus em forma de apocalipse, o que ela ou ele devia saber ou fazer? Costumava fazer as coisas que caracterizam o jeito próprio dos apocalípticos transmitirem sua mensagem ao povo perseguido das comunidades: (1) expressar tudo por meio de visões e símbolos; (2) dividir a história em etapas para situar o momento presente; (3) usar linguagem radical de oposição entre o bem e o mal. Entender bem estas três coisas ajudará a esclarecer grande parte das dificuldades que o Apocalipse costuma provocar em nós. Vamos ver de perto estas três chaves. É o que vamos ver de perto nas próximas três chaves
ago 11 2021
A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JOÃO
Frei Carlos Mesters, Carmelita 3ª Chave A PORTA DE ENTRADA NO APOCALIPSE DE JOÃO Apocalipse 1,1-20 Ap 1,1-3: A Apresentação. Aqui batemos na porta Ap 1,4-8: A Saudação. João vem abrir e convida para entrar Ap 1,9-20: A Visão Inaugural João nos coloca em contato com Jesus O primeiro capítulo do Apocalipse de João é uma amostra do que vem a ser o livro e a sua mensagem: (1) informa sobre a natureza do livro; (2) apresenta-o como uma carta carinhosa escrita por uma pessoa amiga para comunidades perseguidas que precisavam de animação e de orientação; (3) cria o ambiente, no qual o livro deve ser lido; (4) envolve as comunidades numa celebração, em que possam experimentar a presença de Jesus ressuscitado, vivo no meio delas. Apocalipse 1,1-3: Apresentação do livro: Revelação de Jesus Cristo Estes versículos iniciais oferecem informações sobre a natureza do Apocalipse, sua origem, seu valor ou autoridade, seu autor, conteúdo e destinatários. Mostram ainda como o livro deve ser lido e interpretado, qual a exigência de compromisso e qual a recompensa que a sua observância traz consigo. A palavra Apocalipse significa re-velação. Jesus é o autor da Revelação. Ele nos revela “as coisas que devem acontecer em breve” (Ap 1,1). Há uma hierarquia na maneira de comunicar a revelação: A sua origem está em Deus, que a transmite a Jesus, que a entrega ao Anjo, que a manifesta a João, que a comunica aos Servos, que devem testemunhá-la diante da humanidade. O Apocalipse é Profecia (1,3), mas não é profecia no sentido de Nostradamus ou dos videntes que entram em ação na véspera de cada Ano Novo. Para estes, a profecia é uma adivinhação, nascida da curiosidade que quer conhecer o futuro. O Apocalipse não deve ser lido como se lá dentro pudéssemos encontrar referências abertas ou veladas ao nosso tempo. Isto seria uma tentativa irreverente do ser humano para penetrar no mundo de Deus e arrancar dele o segredo do futuro. Profecia no sentido do Apocalipse é o contrário. É Deus que, através de Jesus, penetra no nosso mundo, na nossa história, e se dá a conhecer através das palavras de João. Com a ajuda da Palavra de Deus, contida no Antigo Testamento, e do Espírito de Jesus (Jo 14,26; 16,13; Ap 1,10; 4,2), chamado Espírito da Profecia (Ap 19,10), João revela, tira o véu, e nos faz conhecer a ação de Deus na história. Até hoje, as nossas comunidades, animadas pelo Espírito de Jesus e orientadas pela Palavra de Deus, descobrem e partilham entre si a ação deste mesmo Deus, sempre presente na vida e na história do seu povo. Apocalipse 1,4-8: Saudação inicial: em Nome da Trindade Santa Nós dizemos: Pai, Filho, e Espírito Santo. O Apocalipse diz: É-Era-Vem; os Sete Espíritos; Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos Reis da terra. No fim do primeiro século, a doutrina era como uma flor que brotava diretamente da experiência vivida das comunidades. Nestes nomes, João diz o que eles esperavam do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Hoje, para muitos de nós, a doutrina cristã é como a flor que foi cortada da experiência e está guardada no caderno do catecismo. Flor bonita e colorida, mas seca, sem vida. Apocalipse 1,9-20: “Não tenham medo! Estive morto, mas estou vivo!” A visão de Jesus ressuscitado é o grandioso painel de entrada do Apocalipse. Nele João transmite a experiência que ele mesmo teve da ressurreição. É o resumo e o centro da mensagem que ele quer comunicar às comunidades cansadas e perseguidas da Ásia Menor. É para que elas possam ter a mesma experiência da presença viva de Jesus ressuscitado no meio delas. Pois só assim serão capazes de superar o medo da morte e de acreditar na vida. Esta visão inicial nos coloca em contato direto com a linguagem dos símbolos, própria do Apocalipse. É uma linguagem, cujo valor não estão só naquilo que é dito, mas também naquilo que é sugerido e evocado. Por isso, o intérprete não deve querer explicar racionalmente todas as palavras, mas sim fazer o possível para levar o leitor, a leitora, a ter a mesma experiência que está na raiz do símbolo. Convém ler a visão inaugural de Jesus como se contempla uma pintura, como se assiste a um drama, como se ouve uma música. A linguagem simbólica faz com que escritor e leitores sintonizem na mesma freqüência ou con-spiração (ação comum do espírito), e tenta fazer com que a con-spiração se torne em ambos uma in–spiração comum, um chão comum. A gente talvez não entenda logo o significado de todos os detalhes: túnica longa, cinto de ouro, cabelos brancos, olhos como chamas de fogo, pés de bronze incandescente, voz como o estrondo de cataratas de água, sete estrelas na mão direita, espada afiada de dois gumes saindo da boca, o rosto como sol em pleno brilho do meio dia! Mas, mesmo sem entender, adivinhamos algo de grande e de muito importante para a vida. São imagens poderosas que falam por si. É como acontece com música bonita: todos gostam de ouvir e se sentem bem, mas só pouca gente entende de música. Música é feita não para quem entende, mas para quem gosta dela e se reanima ao ouvi-la! Esta visão de Jesus, colocada no início do livro, é como a obra de arte colocada na entrada da igreja. Toda vez que você entra, terá que olhar de novo, pois a gente não dá conta de abarcá-la de uma vez. Tem que voltar sempre para ver de novo, meditar, até que ela entre em você e lhe comunique a sua mensagem. A Primeira Palavra de Jesus no Apocalipse: “Não tenha medo! Eu sou o Vivente!” A primeira reação de João é de medo: Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Era a reação normal diante da manifestação de Deus (Dn 10,9; Is 6,5; Ex 3,6). Mas não é só isto! A atitude de medo de João reflete também a situação das comunidades. Ameaçadas por dentro e por fora pelo poder do império e pelas tensões internas, elas estavam prostradas e com medo. Estavam
ago 10 2021
DIFERENÇA E SEMELHANÇA ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE
Frei Carlos Mesters, Carmelita 2ª Chave DIFERENÇA E SEMELHANÇA ENTRE PROFECIA E APOCALIPSE Quando dizemos: “Fulano é um sujeito apocalíptico!”, costumamos indicar uma pessoa que só fala em desastres e fim do mundo. Quando dizemos: “Fulana é uma profetisa!”, indicamos uma pessoa, cuja palavra tem uma mensagem importante para os outros. Como explicar esta diferença? Profecia e Apocalipse não são ambos manifestações do mesmo Espírito de Deus e fontes de espiritualidade para o mesmo povo de Deus? Muitas vezes, se diz: “Temos que ser profetas!” Nunca se diz: “Temos que ser apocalípticos!” Pelo contrário! A palavra apocalíptico parece ter uma apreciação negativa. As igrejas até costumam reagir para manter fora de casa os ares aparentemente confusos e incômodos do movimento apocalíptico. Mesmo assim, o movimento pentecostal-apocalíptico cresce como uma bola de neve. Cresce em toda a parte, sobretudo entre os mais pobres e excluídos. Assim acontecia no fim do primeiro século. Assim acontece hoje. No Antigo Testamento, antes do exílio, no período dos Reis, entre 1000 e 587 aC, não havia Apocalípticos, mas havia muitos Profetas. Depois do exílio, de 587 aC até 100 dC, depois que os grandes impérios tomaram conta do mundo, os profetas começaram a desaparecer e apareceram os apocalípticos que produziram uma abundante literatura entre o século IV aC e o século II dC. Como se explica esta mudança? Qual a relação entre apocalipse e império, entre o movimento apocalíptico e a situação sócio-política e econômica em que o povo vive? Desde o início da monarquia, em torno do ano 1000 antes de Cristo, até o exílio, 587 aC, os profetas faziam parte da vida do povo de Israel. Eles eram a consciência falante do povo de Deus. Depois do exílio, porém, o povo dizia: “Não existem mais profetas” (Sl 74,9). Chegaram a dividir a história em dois períodos: o período em que havia profetas, e o período “em que já não havia mais profetas” (1 Mc 9,27). Falava-se dos “antigos profetas” (Zac 1,4; 7,7; cf Ez 38,17). Coisa do passado! Tinham até feito uma lista que já estava completa e encerrada: “doze profetas” (Ecli 49,10). E diziam: “Antigamente, Deus falava para a gente, agora já não fala mais!” (Sl 99,6-8). O povo constatava a mudança, mas não sabia explicar por que Deus já não se manifestava como antes. Achavam que “a mão de Deus tinha mudado” (Sl 77,11). Só ficou a saudade, cada vez mais forte, dos antigos profetas! Assim, durante os mais de 400 anos do período dos reis, eles tiveram profetas. Durante mais de 500 anos, desde o exílio até João Batista, viveram sem profetas! É neste período sem profetas que surge o movimento apocalíptico como nova forma de profecia, como nova manifestação do Espírito, como nova espiritualidade. Qual a experiência humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera a profecia, e qual a experiência humana que, quando iluminada pela Palavra de Deus, gera o movimento apocalíptico? A experiência humana em que surge e floresce a profecia Os profetas do tempo dos Reis viviam numa época em que era possível abarcar e controlar a situação. O espaço em que viviam, o território, era limitado e podia ser defendido e governado. O povo que vivia dentro deste território podia ser convocado, recenseado e cobrado. Eles eram donos do espaço em que viviam. Tinham autonomia política. Todos professavam a mesma religião, tinham fé no mesmo Deus. Todos eram súditos do mesmo rei, tinham o mesmo compromisso de observar a Aliança. Eles eram uma nação independente, senhora do seu próprio destino, da sua própria história. Era dentro deste espaço limitado que eles procuravam viver a sua fé em Deus, observando a Aliança. Na origem da ação profética está uma experiência humana muito profunda e muito comum até hoje. Quando, diante de uma injustiça, você percebe que tem a possibilidade de fazer algo para mudar a situação, então, dentro de você, nasce um sentimento de responsabilidade que o faz dizer: “Não posso ficar parado! Deus está me chamando! Devo fazer alguma coisa!” Não é assim? Pois bem, a ação profética nasce desta consciência forte que, de vez em quando, surge em nós de que podemos e devemos fazer algo para mudar a situação. A teologia da Libertação é profética. Ela nasceu da consciência e da possibilidade que se entrevia de nós cristãos podermos interferir no rumo da história da América Latina e de transformarmos a situação de acordo com as exigências da Aliança, do Evangelho. Ela usa expressões que traduzem a mesma experiência: ser sujeito da história, assumir nossa responsabilidade diante dos fatos, responder diante de Deus pelo que acontece no país, cumprir nossa tarefa de transformar a situação. A mudança que ocorreu O exílio da Babilônia (598 aC a 537 aC) provocou uma grande mudança, pois quebrou o sistema sócio-político em que o povo vivia no tempo dos reis. Em 598, a elite (rei, sacerdotes, falsos profetas, nobres e chefes) foi levada para o exílio (2Rs 24,10-17). Dez anos depois, em 587, o pouco que restava da liderança foi preso e morto (2Rs 25,1-21). Jerusalém, a capital, junto com o Templo, o santuário do rei, tudo foi destruída. Todos ficaram sob o domínio do poder estrangeiro, sem mais nenhum recurso para poder controlar a situação. Já não eram Estado nem Nação, mas apenas uma comunidade étnica, perdida num império multi-racial, sem independência política, sem exército, sem rei. O espaço livre ficou muito reduzido e, no decorrer dos anos, foi ficando cada vez menor. O pouco poder que lhes sobrou se concentrava em torno do Sacerdócio que controlava o Templo e em torno dos doutores ou escribas que controlavam a explicação da Lei. Anteriormente, na época da monarquia, o povo experimentava o mundo, o tempo (história) e o espaço (território) como entregues à sua própria responsabilidade. Esta experiência despertava nele a vontade de interferir no rumo das coisas e gerava a profecia. Quando, naquele tempo, o povo do campo era oprimido pelos poderosos, ameaçado de perder suas terras, surgiam profetas como Amós, Miquéias, Isaías e Jeremias. Eles enfrentavam os poderosos e cobravam deles o compromisso da Aliança. A fé
ago 10 2021
“JAMAIS PEDIRIA PARA SAIR”
A história de Moçambique habituou-nos cenários de aparente hostilidade contra a Igreja. Num relatório de 1973 a PIDE sugeria a expulsão de 155 missionários que trabalhavam em todo o território moçambicano. Em Fevereiro de 1974, foi publicada uma carta denominada “Imperativo de Consciência”, assinada por Dom Manuel Vieira Pinto e todos os missionários combonianos presentes em Moçambique (34 padres, 19 irmãos leigos e 41 irmãs). Essa carta era uma manifestação contra a política colonial, contra a continuação da guerra e contra o silêncio da Igreja Católica em Moçambique. Fruto da polémica instalada, o Governo deu ordem de expulsão a 11 missionários combonianos (nove italianos e dois portugueses) e Dom Manuel Vieira Pinto, que chegou a Lisboa nas vésperas de 25 de Abril. Entre 1974 e 1977, vários bispos moçambicanos pediram para sair das suas dioceses. Vieira Pinto voltou para Nampula. Na época da revolução, a seguir a independência, a Igreja foi vista como um perigo ou inimigo a abater. Pois, a construção de um Novo Homem nascido da revolução moçambicana, cujo ideal foi consolidado no III Congresso da Frelimo, em 1977, exigia que a sociedade moçambicana deveria estar afastada das crenças consideradas “supersticiosas e obscurantistas” e caberia ao Estado levar ao povo uma perspectiva materialista e científica do mundo. Neste sentido, o governo da Frelimo adoptou uma postura de restrição e perseguição às diversas confissões religiosas no país. Mas antes do Congresso havia igualmente uma política antirreligiosa. Considerava-se que os missionários eram agentes a favor do imperialismo, as Igrejas transformavam os seus ensinamentos em dogmas que escravizavam, e que faziam acreditar que a miséria e a opressão do povo eram algo imutável. Em 1976 a Conferência Episcopal de Moçambique publicou uma Carta Pastoral onde os bispos destacam que cerca de 600 missionários deixaram o país entre 1975 e 1976, muitos deles por dificuldades de adaptação à nova realidade, por traumas pelos acontecimentos que acompanharam a Revolução, por serem expulsos pelo governo ou impedidos de entrar novamente no país. Em Junho de 1977 Dom Manuel Vieira Pinto escreveu uma carta onde criticava o ideal de Homem Novo. “(…) Uma coisa é combater o obscurantismo, a superstição, os preconceitos, outra coisa é combater a religião. Confundir, sem mais, obscurantismo e religião é cometer um erro grave. Infelizmente não falta quem o faça, provocando assim na consciência do Povo, particularmente na consciência dos continuadores, novos preconceitos, novas formas de obscurantismo. Também não será correcto confundir a crítica à religião com a negação pura e simples de Deus, ou com a humilhação do homem crente. A intolerância religiosa é uma triste e lamentável ofensa à dignidade do homem”. Entre os dias 08 e 13 de Setembro de 1977, ocorreu a I Assembleia Nacional de Pastoral na cidade da Beira para encontrar respostas face aos novos tempos. Na época, os fiéis não sabiam como era possível engajar-se na Revolução e praticar a fé. Não sabiam se a filiação ao partido Frelimo significava a negação de Deus. Influenciados pelos ventos de mudança da Igreja Católica, a I Assembleia Nacional de Pastoral tinha a intenção de criar em Moçambique uma Igreja Ministerial, pobre, despojada de seus bens e apoiada na participação de todos os seus membros e não mais no Estado. Ora, como a história é cíclica, factos do passado voltam a manifestar-se no presente. Aliás, segundo Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), em seu “Historia Magistra Vitae”, a história é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mensageira da velhice. Para Cícero, conhecer a história é se deparar com as acções de várias pessoas, independentemente da distância espacial e temporal que a separam. Teria, a história, uma função pedagógica, de instruir o indivíduo a pensar acerca de seu presente e planejar seu futuro tendo como referência o passado. Combinando com essa linha de pensamento, o historiador alemão R. Koselleck (1923-2006), afirma que a história nos deixa livres para repetir os sucessos do passado, ao invés de incorrermos presentemente nos velhos erros. Por essa razão, a história de antiprofetismo apresentada acima, repete-se ainda com a transferência de Dom Luiz Fernando Lisboa da Diocese de Pemba, na província moçambicana de Cabo Delgado, para a diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim, no Estado do Espírito Santo, e concede-lhe ainda o título honorífico pessoal de arcebispo. O anúncio foi feito a 11 de Fevereiro último, em comunicado, pela sala de imprensa da Santa Sé. Como é sabido Dom Luiz Fernando Lisboa foi uma das primeiras vozes a alertar o mundo sobre a situação de Cabo Delgado e destacou-se, nos últimos anos, na defesa das populações desprotegidas. Além disso, no ano passado, foi acusado por indivíduos próximos do Governo de ser apoiante dos insurgentes, talvez isso lhe valeu ser expulso do país. Portanto, a transferência de Dom Luiz cheira a cor de expulsão diplomática. Porque já foi ameaçado de morte por várias ocasiões. E em certa altura falando do “ciclone humano dos ataques” expressou que ser bispo de Pemba “foi uma experiência de cruz e de dor”. De facto, centenas de pessoas já morreram e milhares estão deslocadas devido à acção de um grupo fundamentalista islâmico do qual pouco se sabe ao certo, mas que terá ligações ao autoproclamado Estado Islâmico. “Dessa guerra, eu pude tirar muitas lições. A principal delas é a grandeza desse povo que é pobre mas que é muito solidário. Eu vi muitas histórias, ouvi muitas histórias, vi muitas situações e percebi quanto é que, mesmo na pobreza, nós podemos ajudar, nós podemos repartir, partilhar. Nesse tempo de guerra cada família que não era deslocada acolheu uma ou duas ou até três famílias deslocadas, dentro da sua casa, no seu quintal repartindo o pouco que tinha com aqueles que não tinham nada e estavam ainda no desespero, na estrada, sem ter norte. A experiência do povo de Cabo Delgado vai ficar sempre marcada na minha vida” garante Dom Luiz. É verdade que “a missão é de Deus, não é nossa”. Mas como diz o cantor “Se calarem a voz dos profetas,
ago 09 2021
Visão geral da problemática em torno do Apocalipse
Frei Carlos Mesters, Carmelita 1ª Chave VISÃO GERAL DA PROBLEMÁTICA EM TORNO DO APOCALIPSE 1. As dificuldades mais comuns do povo O Apocalipse de João é um livro misterioso, difícil, controvertido, fechado a sete chaves, cheio de visões estranhas, descritas em linguagem obscura, que a gente não entende e que muitas vezes metem até medo nas pessoas. Sobretudo hoje em dia, nestes tempos apocalípticos! Livro cheio de violência e morte como se a vida humana já não valesse mais nada. Livro que mistura os tempos: você não sabe se ele fala do presente, do passado ou do futuro. Livro que provoca atitudes fatalistas, pois ele parece sugerir que não adianta você se esforçar para interferir no rumo dos acontecimentos. Tudo já parece determinado e a nós só cabe assistir a tudo de camarote. A palavra apocalipse sugere e provoca reações bastante negativas: Sugere algo que tem a ver com confusão, desastre, fim do mundo. Sugere algo que vem de forças superiores. Alguns dizem que vem de Deus. Por isso provoca o fatalismo que faz ficar parado sem participar. Sugere visões e revelações, recebidas e interpretadas por videntes, como aqueles três sinais que apareceram na parede do palácio do rei Baltazar (Dn 5,5.25-26). Sugere ainda um certo fanatismo que pode levar as pessoas a cometer desatinos. A leitura errada do Apocalipse já provocou o suicídio de muita gente, tanto ontem como hoje. Afinal, qual o significado certo do Apocalipse? 2. Três interpretações muito comuns O Apocalipse de João é um dos livros mais procurados da Bíblia. Também dos mais abusados. Muitos não entendem o seu sentido, mas sentem uma atração, uma curiosidade. Uma senhora disse: “Entender, não entendo. O meu entendimento é fraco, mas gosto muito. Me traz conforto e coragem na luta”. De fato, não é necessário entender de música para poder sentir o con¬forto de uma bela sinfonia! Imagens e visões, por si mesmas, podem comunicar conforto e coragem. Mas não basta a coragem. Sem o entendimento, ela pode desandar como um carro desgovernado. Pode até ser usada para fins anti-evangélicos, como já aconteceu e ainda acontece. Outros são mais críticos. Não querem só assistir. Querem é conhecer o rumo e participar. Por isso não gostam do Apocalipse: “Deus faz tudo. Não sobra mais nada para a gente. E aquelas visões terríveis do fim do mundo! Sem um entendimento, aquilo só dá medo na gente”. Coragem sem entendimento desanda. Entendimento sem coragem paralisa. Como combinar as duas coisas na interpretação do Apocalipse? E que entendimento? Pois nem todo entendimento abre o sentido do Apocalipse. Quando em 1980 o Papa João Paulo II sofreu o atentado, alguns crentes diziam: “Isto está bem conforme o que está escrito. O Apocalipse diz que a besta-fera recebe ferida de morte e sobrevive”. Para uns, a besta-fera é o Papa. Para outros, é o governo. Para outros, o capitalismo. Para outros, o comunismo. Cada um lê o Apocalipse conforme o seu próprio entendimento e dele tira as suas conclusões. Onde procurar o entendimento certo? 3. Resumindo: Na opinião comum, apocalipse ou apocalíptico é sinônimo de: * Desastre e confusão, * Medo e fim de mundo, * Visões estranhas e imagens esquisitas, * Intervenção do alto e fatalismo cá em baixo * Muito usado e muito abusado
ago 09 2021
Famílias e Jovens
Lineamenta da IV Assembleia Nacional de Pastoral Continuamos a apresentar os temas dos Lineamenta que preparam e animam as comunidades cristãs para a IV ANP. Neste número tratamos da Pastoral familiar e Juvenil, riquezas e desafios. A iniciativa da preparação e celebração da IV Assembleia Nacional de Pastoral (2021-2023) visa criar uma experiência conjunta de Escuta, Discernimento e Comunhão eclesial que coloque todo o Povo de Deus a exprimir o que as Comunidades Cristãs e os Católicos dispersos vivem em todo Moçambique. O que é a pastoral da família? A Pastoral da Família é um serviço que se realiza na Igreja e com a Igreja, de forma organizada e planeada através de agentes específicos, com metodologias próprias, tendo como objectivo apoiar a família a partir da realidade em que se encontra, para que possa existir e viver dignamente, estabelecer relacionamentos e formar as novas gerações conforme o plano de Deus. Esta Pastoral abrange todas as famílias, independentemente da sua situação familiar, com o propósito de promover a inclusão e resgatar os valores e a dignidade de cada pessoa (18). Leitura da realidade Em Moçambique, como em muitos lugares de África, mais do que a dimensão jurídico-legal, o que define a família são os valores que ela representa, principalmente a união e protecção de um para com o outro. A família pode, em Moçambique, não necessariamente ter pessoas do mesmo sangue mas ela é composta por pessoas com os mesmos valores e princípios. Neste sentido, o indivíduo só pode existir colectivamente e numa lógica espiritualizada, o que lhe garante a identidade pessoal, noções de responsabilidade em relação a si e aos outros (19). Mas a família em Moçambique, enquanto instituição social, tem passado por mudanças aceleradas na sua estrutura, organização e função de seus membros. Ao modelo tradicional foram-se somando muitos outros modelos de família, fruto e consequência de abertura às outras culturas e de profundas transformações estruturais de carácter global. Os novos modelos de família, importados ou forjados de propósito para acomodar as contínuas mudanças, embora em alguns aspectos tenham contribuído para libertar a pessoa humana dos vários condicionamentos e determinismos, em muitos outros aspectos têm sido porta de ingresso para profundas crises (20). O crescimento progressivo de crianças de rua em todas as nossas cidades é um sinal evidente do mal-estar da Família em Moçambique. As crianças de rua são, simultaneamente, uma denúncia à crise de estabilidade nas uniões matrimoniais e o aumento do número de mães solteiras, resultantes, ou de separações, ou de escolhas de procriação livre de compromisso marital. Uma outra expressão emblemática da crise nas famílias moçambicanas é o crescimento do número de idosos abandonados e, portanto, desamparados, quer pelos próprios filhos e também pela sociedade, cada vez mais carente de estruturas aptas a dar uma resposta idónea a este tipo de precariedades. As várias crises estruturais às quais estão sujeitas muitas famílias moçambicanas, acabam fazendo da família um laboratório de ensaio de todo o tipo de violências que, depois, encontram a sua plena maturação na violência social generalizada (21). Fundamentação teológica A família é muito importante para Deus, é uma instituição sagrada, criada por Ele. Quando o homem foi criado, Deus viu que não era bom que ele estivesse sozinho, e por isso criou a mulher para ser sua companheira (Cf. Gn 2,18). Juntos, eles receberam a ordem de se multiplicar e povoar a Terra (Cf. Gn 1,28). Jesus também falou sobre a santidade do casamento em Mateus 19. Mas na Bíblia, o conceito de família também é espiritual e não apenas físico. Assim, todos aqueles que aceitam Jesus, fazem parte de uma grande família, composta por elementos de todas as línguas e nações cf. Ap 7,9 (22). Por sua vez, a Igreja sempre cuidou da família. Por um lado, por acreditar ser ela não apenas a célula mater da sociedade e o santuário da vida, mas também a “Igreja doméstica” (Cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 11). E, por outro, porque está convencida de que “o bem-estar da pessoa e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar (Cf. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 47). Logo no início de seu pontificado, o Papa São João Paulo II publicou uma Exortação Apostólica sobre a família, como conclusão, precisamente, dos temas tratados num Sínodo de Bispos sobre a família. Nela, ele afirma com convicção que a evangelização depende essencialmente da saúde espiritual dessa instituição, porque, “onde uma legislação anti-religiosa pretende impedir até a educação na fé, onde uma incredulidade difundida ou um secularismo invasor tornam praticamente impossível um verdadeiro crescimento religioso, aquela que poderia ser chamada “Igreja doméstica” fica como único ambiente, no qual crianças e jovens podem receber uma autêntica catequese” (Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiares Consortio, n. 52), (23). BOX1 Perguntas para a reflexão e partilha 1) A leitura da realidade corresponde àquilo que se releva na Igreja e na sociedade de hoje? Quais são os aspectos que faltam e que devem ser tomados em consideração? 2) Quais são as maiores dificuldades que as famílias cristãs têm encarado para melhor desempenhar o próprio papel de educadores e primeiros evangelizadores dos próprios filhos? 3) Quais são as oportunidades e as possibilidades que poderiam fortalecer os papéis de educadores e evangelizadores das famílias cristãs? 4) Como fazer das nossas famílias verdadeiras “Igrejas domésticas”? 5) Quais são as principais razões para a dissolução (divórcio) das famílias? 6) Como é que as famílias têm reagido aos conflitos entre o casal, entre o casal e os filhos jovens ou adolescentes? 7) Que ajuda da parte dos sacerdotes, religiosos e religiosas (agentes de pastoral), seria útil para a consolidação da vivência cristã e compromisso social nas famílias? 8) Que ajuda as famílias poderiam prestar umas às outras para fortalecer a harmonia e o clima de prática cristã nas próprias famílias? O que é Pastoral juvenil? Pastoral é um conjunto de acções pelas quais a Igreja cuida do seu povo e fomenta fé
jul 16 2021
Arquidiocese de Nampula exorta os párocos e fiéis ao escrupuloso cumprimento das medidas de prevenção da Covid-19
Por Kant de Voronha Em cumprimento das medidas anunciadas pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, na sua comunicação à Nação, na última quinta-feira (15), a Arquidiocese de Nampula emitiu um comunicado de imprensa no qual orienta aos párocos, às equipas missionárias, aos vários animadores das comunidades cristãs, assim como os gestores das instituições católicas de ensino a observar o encerramento das celebrações públicas, por 30 dias a partir do dia 18 de Julho corrente ano. O comunicado assinado pelo Porta-voz da Arquidiocese, Pe Pinho dos Santos Martinhs, prescreve que “Os sacerdotes devem celebrar em privado ou em casas religiosas pelo povo de Deus, e a Rádio Encontro transmitirá celebrações radiofónicas de Segunda-feira a Sábado a partir das 17 horas”. Face a impossibilidade de participação Eucarística, os fiéis da Arquidiocese de Nampula são instruídos a manter sintonia com os seus pastores “rezando o Santo Terço, pedindo a intercessão de Nossa Senhora para o fim da pandemia” O documento que temos vindo a citar refere ainda que “Ficam suspensas todas as palestras, simpósios, congressos, retiros, etc., nas comunidades” e as instituições católicas de ensino deverão seguir “escrupulosamente as orientações do comunicado presidencial”. De salientar que no rol das medidas mais recentes anunciadas pelo PR, o destaque vai para a suspensão das aulas presencias no ensino primário, secundária, ensino superior e técnico-profissional na cidade de Maputo incluindo Marracuene, Xai-Xai, Inhambane, Chimoio, Beira, Dondo e Tete. O sector público passa a funcionar das 8h às 14h e o recolher obrigatório passa para 21h às 4h. Volta a não ser permitida a realização de treinos nas diferentes modalidades, incluindo nas camadas de formação. Por outro lado, as equipas de alta competição treinam sem público nas bancadas. Nyusi garantiu a chegada de 11 milhões de doses de vacinas que chegam entre Julho e Agosto para intensificar o processo de vacinação onde se prevê ainda no presente ano a vacinação de grande parte da população moçambicana.
jul 15 2021
O ninguém da nossa sociedade
Por AB Papa Francisco nos pede para reflectir sobre a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) como o ícone da fraternidade universal onde cada um preocupa-se não tanto com a sua imagem mas com o papel que deve desenvolver para que não existam mais nenhum “ninguém” na nossa sociedade. «Retomemos agora a parábola do bom samaritano que ainda tem muito a propor-nos. Havia um homem ferido no caminho. As personagens que passavam ao lado dele não se concentravam na chamada íntima a fazer-se próximos, mas na sua função, na posição social que ocupavam, numa profissão prestigiosa na sociedade. Sentiam-se importantes para a sociedade de então, e o que mais as preocupava era o papel que devia desempenhar. O homem ferido e abandonado no caminho era um incómodo para este projecto. Era um «ninguém», não pertencia a um grupo considerado notável, não tinha papel algum na construção da história. Entretanto o generoso samaritano opunha-se a estas classificações fechadas, embora ele mesmo estivesse fora de qualquer uma destas categorias, sendo simplesmente um estranho sem um lugar próprio na sociedade. Assim, livre de todas as etiquetas e estruturas, foi capaz de interromper a sua viagem, mudar os seus programas, estar disponível para se abrir à surpresa do homem ferido que precisava dele (101). Que reacção poderia provocar hoje essa narração, num mundo onde constantemente aparecem e crescem grupos sociais, que se agarram a uma identidade que os separa dos outros? (102). Liberdade, igualdade e fraternidade A fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática duma certa equidade. Embora sejam condições que a tornam possível, não bastam para que surja como resultado necessário a fraternidade. Esta tem algo de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade. Que sucede quando não há a fraternidade conscientemente cultivada, quando não há uma vontade política de fraternidade, traduzida numa educação para a fraternidade, o diálogo, a descoberta da reciprocidade e enriquecimento mútuo como valores? Sucede que a liberdade se atenua, predominando assim uma condição de solidão, de pura autonomia para pertencer a alguém ou a alguma coisa, ou apenas para possuir e desfrutar. Isso não esgota de maneira alguma a riqueza da liberdade, que se orienta sobretudo para o amor (103). Tampouco se alcança a igualdade definindo, abstractamente, que «todos os seres humanos são iguais», mas resulta do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade (104). O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade (105). Amor universal que promove as pessoas Para se caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal, há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. Se cada um vale assim tanto, temos de dizer clara e firmemente que «o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente». Trata-se de um princípio elementar da vida social que é, habitualmente e de várias maneiras, ignorado por quantos sentem que não convém à sua visão do mundo ou não serve os seus objectivos (106). Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade (107). Atenção à pessoa Alguns nascem em famílias com boas condições económicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão dum Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para tais pessoas, e a fraternidade não passará duma palavra romântica (109). Liberdade económica A verdade é que «a simples proclamação da liberdade económica, enquanto as condições reais impedem que muitos possam efectivamente ter acesso a ela (…), torna-se um discurso contraditório». Palavras como liberdade, democracia ou fraternidade esvaziam-se de sentido. Na realidade, «enquanto o nosso sistema económico-social ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada, não poderá haver a festa da fraternidade universal». Uma sociedade humana e fraterna é capaz de preocupar-se por garantir, de modo eficiente e estável, que todos sejam acompanhados no percurso da sua vida, não apenas para assegurar as suas necessidades básicas, mas para que possam dar o melhor de si mesmos, ainda que o seu rendimento não seja o melhor, mesmo que sejam lentos, embora a sua eficiência não seja relevante (110). … Na realidade, se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflito e violência» (111).


