abr 09 2023
Páscoa é mistério de vida
Ao celebrarmos a Páscoa da Ressurreição temos que nos centrar na Pessoa de Jesus Cristo, sacrifício da Nova Aliança e fazermos Memória como cumprimento do Seu mandato: “fazei isto em memória de mim”. Em toda a celebração da santa Missa, nos Domingos, dia do Senhor, celebramos a Páscoa da Ressurreição como a maior herança de Cristo, o Redentor. No Antigo Testamento, o povo de Israel lembra a passagem do Mar Vermelho. O termo Páscoa é transliteração grega do aramaico paschá e do hebraico pesah. A teologia israelita assumiu o termo memorável festa primaveril Javé “saltou, passou adiante” das casas dos israelitas assinaladas pelo sangue do cordeiro sacrificado, poupando-as (Ex 12,13.23.27). No Novo Testamento, a festa é conhecida com dois elementos de origem diferente que se desenvolveram juntos até chegar a formar uma unidade: a verdadeira e autêntica celebração nocturna em torno do cordeiro (pesah); e a semana dos ázimos. Páscoa, centro da vida cristã A centralidade da celebração pascal na vida do povo de Deus, e a coincidência da morte e Ressureição de Jesus com a páscoa judaica, faz com que esta celebração se torne o centro e o ponto mais alto da nossa fé e do nosso agir. Na semana Santa a Igreja faz-nos percorrer e reviver, fazendo memória, a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, na quinta e da Paixão de Jesus na sexta, para chegar a noite da vigília pascal na qual o grito de aleluia é o clamor do povo de Deus que acolhe a grande notícia que o Crucificado já é Ressuscitado. Trata-se da Mãe de todas as noites, a Grande noite. O canto do exulte enfatiza que se trata da noite que muitos povos esperaram, uns viram e outros não. A sequência da Celebração da Páscoa é: Liturgia da Luz, procissão para o local da Missa, canto do exulte, proclamação da Palavra de Deus e homilia, rito do Baptismo e a parte da Liturgia Eucarística. Aleluia e Vinde Santo Espírito O Período da Páscoa é de Cinquenta dias, encerrando com o domingo de Pentecostes. Páscoa da Ressurreição é o centro da vida cristã que se prepara durante quarenta dias que é o tempo da Quaresma. Páscoa é de tempo da Salvação Páscoa é tempo de alegria Páscoa é tempo de vida renovada em Cristo Páscoa é tempo de sair da Morte para a Vida Páscoa é tempo de abraçar novos projectos pessoais e comunitários Páscoa é tempo de renovar os compromissos do Baptismo Páscoa é tempo de acolher novos irmãos em Cristo Páscoa é comunhão e unidade Páscoa é buscar um mundo justo e fraterno Páscoa é tornar-se “Cristo” hoje e dar vida aos outros Páscoa é deixar que nossa família seja a nova Jerusalém que acolhe a Grande Notícia de que Jesus ressuscitou verdadeiramente, Aleluia. O Jesus Crucificado é agora Ressuscitado – aleluia. Por Pe. Fonseca Kwiriwi, CP
abr 06 2023
Entrevista exclusiva: “Sou Bispo sem deixar de ser Comboniano”
“Em tudo a sabedoria do Senhor” Dom António Constantino, missionário comboniano e antigo director da Vida Nova, foi consagrado Bispo auxiliar da Arquidiocese da Beira no dia 19 de Fevereiro. Aqui vai a entrevista para os nossos leitores. VN – O que quer dizer ser um bispo missionário em Moçambique? Dom AC –Em primeiro lugar queroagradecer ao Senhor pelo chamamento à vida missionária; segundo, vou para uma missão com confiança porque o Papa Francisco, que me nomeou, colocou a sua confiança em mim, enviando-me a ajudar e colaborar na Igreja que está na Arquidiocese da Beira; terceiro, agradecer aos Missionários Combonianos, que continuam a ser a minha família religiosa, onde entreguei a minha vida com a consagração religiosa para o serviço missionário. De facto, foram eles que me fizeram crescer e me acompanharam nodia-a-dia até chegar neste momento. Hoje é também um dia de alegria,porque a Igreja de Moçambique, na qual nasci e cresci,me acolhe como seu Pastor. É um sinal de maturidade para a nossaIgreja.De facto, uma igreja que não tem seus filhos para serem pastores, essa Igreja não está a crescer. O crescimento duma Igreja é quando ela tem filhos capazes de assumir as responsabilidades, tais como aquelas que têm um bispo, e que nos faz dizer: “afinal, entre nós também existem pessoas que possam servir!”. Serviço é a chave para entender qualquer ministério dentro da Igreja, mas em particular para aquele episcopal porque, como o lema que escolhi para o meu brasão: “em tudo a sabedoria do Senhor”, temos que deixar que a sabedoria do Senhor envolva todo o nosso serviço para o Reino de Deus e nos ajude a ser instrumento desta sabedoria para que todos alcancem a salvação. VN – Você foi director da VN, acha que o seu papel de formar e informar as comunidades, que tem continuado ao longo dos 63 anos da sua existência, possa ainda ser válido para o hoje da nossa Igreja local? Dom AC – Antes de ser ordenado Bispo, como padre formei-me em jornalismona Espanha e trabalhei vários anos como director da VN. Portanto, a VN continua estar no meu coração e acredito firmemente que, apesar da sua idade, continua a ser um válido instrumento para formar e informar as comunidades cristãs espalhadas pelo país. A VN não é simplesmente a revista da Arquidiocese de Nampula, porque aí nasceu há 63 anos. Ela é a revista de toda a Igreja moçambicana que com os seu valiosos conteúdos procura actualizar as comunidades para que a Boa Nova continue ser Boa Nova para todos. Não esqueçamos que a maioria das nossas comunidades situa-se no meio rural onde “os megas e os andróides” são espécies raras, assim como outra imprensa, mas a VN chega lá aonde nem sequer imaginamos… é um verdadeiro milagre que se perpetua desde 1960. VN – Vida Nova, imprensa escrita, continua manter o seu papel in/formativo ainda hoje apesar de estarmos num mundo mais digitalizado? Dom AC –Sim, apesar da tecnologia digital no campo da comunicação ter crescido muito nestesanos, a VN continua a ser um válido instrumento de formação e informação para aqueles que estão nas zonas rurais, mas também nas zonas urbanas. Olha, muitas comunidades que eu visitei, a VN é lida com gosto. Por exemplo, o comentário à Palavra de Deus dominical é muito utilizadopelos responsáveis das comunidades que o lêem com “devoção” para a suaassembleia. Naturalmente, é tempo também para que a VN se abra cada vez mais ao mundo digital para alcançar mais gente, em particular a camada juvenil. VN – Como antigo Director da Vida Nova, o que quer deixar aos leitores da revista? Dom AC –Primeiro, estão todos de parabéns porque são as pessoas que continuam a nos sustentar. De facto, um dos desafios que existe na VN é mesmo o sustentoda revista. A revista ainda continua com os custos muito baixos para poder alcançar um público maior. Mas eu espero que pouco a pouco, como Igreja, possamos ganhar a mentalidade de suportar mais a VN, para além de pagar a própria assinatura, também pensar naquele meu irmão que esta lá na zona recôndita e que talvez não tenha os meios suficientes para assinar e assim poder formar-se e informar-se com a VN. Outra coisa que acho muito importante éa tarefa de todos os leitores, encontrar estratégia para procurar mais assinantes e leitores para não deixar morrer a VN. Enfim, desejo para todos os leitores da VN que as bênçãos de Deus caiam abundantemente sobre cada um de vós. E não esqueçais, como sempre nos recorda o papa Francisco, de rezar pelos vossos Bispos.
abr 05 2023
Padre não pode, nem deve difamar ou caluniar o outro
“A boca de um sacerdote não pode e nem deve ser usada para difamar ou caluniar os outros”. – adverte Dom Inácio Saure, Arcebispo de Nampula. Dom Inácio Saure fez esta advertência, na noite desta terça-feira, 04/04, durante a homilia da missa crismal, onde sublinhou que é triste ouvir que há padres que se caluniam entre si. Dom Inácio não quer sacerdotes caluniadores e nem difamadores no seu clero, por isso apela aos seus padres a profetizarem e anunciarem o evangelho de cristo. O Arcebispo de Nampula quer ver padres a caminharem juntos e unidos, dai que exortou-os a serem humildes e nunca arrogantes. Dom Inácio Saure também quer sacerdotes dedicados, empenhados na missão e respeitosos, que usam as mãos para abençoar e não para bater pessoas. Igualmente, apela aos padres a serem disponíveis, compassivos, amorosos e não ambiciosos em coisas passageiras. Por Gelácio Rapieque
abr 05 2023
Os Sacerdotes são verdadeiros heróis do evangelho
O Arcebispo de Nampula fez saber que apesar das dificuldades e desafios que os sacerdotes de Nampula enfrentam, eles são verdadeiros heróis do evangelho. Segundo Dom Inácio Saure, muitos dos padres da Arquidiocese de Nampula trabalham em condições difíceis, por isso, agradece aos que se empenham e dedicam-se a sua missão. A arquidiocese de Nampula conta com 71 padres, entre diocesanos e missionários, número considerado ínfimo para uma diocese com muitas paróquias, centenas de comunidades e com pouco mais de cinco milhões de habitantes. Ao povo de Deus que afluiu em massa naquela missa de oração aos sacerdotes, Dom Inácio Saure pediu mais orações para os bons padres, mas também para os menos bons. “Caríssimos fiéis, continuemos orando pelos nossos padres, para que continuem verdadeiros servidores do povo de Deus, mesmo com as dificuldades que enfrentam”. – instou Dom Inácio Saure, na missa crismal, uma missa que normalmente acontece na quinta-feira santa, mas que por motivos pastorais, na arquidiocese de Nampula, aconteceu terça-feira santa, antecedido de um encontro presbiteral. Participaram do evento mais de 50 padres, maior parte deles, diocesanos de Nampula. Por Gelácio Rapieque
abr 04 2023
Vivam intensamente os momentos cruciais na história da nossa salvação
Em preparação da missa crismal, que acontece em cada quinta feira Santa, os Padres de todas as Paróquias da Arquidiocese de Nampula, reuniram-se esta terça-feira nesta cidade, num encontro anual, para depois participarem de forma antecipada, na missa crismal. O Arcebispo de Nampula Dom Inácio Saúre, explicou que a missa desta terça-feira, foi antecipada, para permitir que os sacerdotes que vivem distante da cidade de Nampula, participem na missa crismal de quinta-feira Santa, nas suas respetivas comunidades. Na missa, dessa terça-feira, segundo recordou o número 1 da Igreja Católica em Nampula, serviu para benzer os óleos para os enfermos e catecúmenos para além da consagração do crisma. No encontro, os padres dessa arquidiocese, falaram também das actividades da pastoral e o nível de preparação da IV Assembleia Nacional da Pastoral que vai acontecer em Nampula de 17 a 21 de Maio deste ano. Dom Inácio Saure anunciou que no mesmo encontro foi renovado o Conselho presbiteral que trabalhava há 5 anos. “Foi também ocasião para renovação do mandato do Conselho presbiteral, que é um conjunto de sacerdotes que funciona como um senato de conselheiros directos do Arcebispo”. – Acrescentou Dom Inácio, que também é Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, o qual apelou aos fiéis católicos para que “vivam intensamente esses momentos cruciais na história da nossa salvação”. Os Padres participantes do Encontro, disseram que foi muito importante, pelo facto de o Arcebispo ter recordado muita coisa, com destaque para a necessidade de formação permanente dos Párocos nas componentes económica, patrimonial e humana, a luz da palavra de Deus. Por Elísio João
abr 04 2023
Por que a igreja guarda o domingo e não o sábado?
Vamos falar sobre o domingo e o sábado, dias sagrados para duas tradições religiosas importantíssimas para a vida da humanidade: o sábado, dia sagrado ao Judaísmo, e o domingo, dia sagrado ao Cristianismo. Leia mais em – https://veritatiscatholicus.com.br/guardar-domingo-ou-sabado-dia-do-senhor/ Segundo a Bíblia, no livro do Génesis, Deus criou o mundo em seis dias consecutivos. Essa narrativa poética da Criação é belíssima e termina com a convocação ao descanso. Todo trabalhador merece ter um dia reservado para descansar e louvar a Deus. Para o judeu, esse dia é o shabat, o sétimo dia da Criação. Nele Deus repousou. Ora, se até Deus descansou um dia, quanto mais eu, pobre mortal; preciso ter a dignidade de um dia para repor minhas energias físicas e espirituais. Mas onde entra o domingo? Como houve essa mudança do dia de descanso de sábado (sétimo dia), para o domingo (primeiro dia)? A tradição cristã de santificação do domingo repousa suas raízes no evento maravilhoso da Ressurreição de Jesus Cristo. Esse mistério insondável de amor, o maior de todos, fez com que a atenção cristã se voltasse para o primeiro dia da semana como o mais santo de todos, afinal era o primeiro dia da semana (domingo) quando as mulheres foram ao túmulo e o encontraram vazio. Os Apóstolos celebravam a Missa “no primeiro dia da semana”; isto é, no Domingo, como vemos em At 20,7: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para a fração do pão…” Em Mt 28, 1 vemos: “Após o Sábado, ao raiar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria vieram ao Sepulcro…” Em Ap 1, 10, São João fala que “no dia do Senhor, fui movido pelo Espírito…” e a coleta era feita “no primeiro dia da semana” (1Cor 16,2). Nenhum outro dia é mais santo do que este, no qual Jesus venceu a morte e nos libertou definitivamente do pecado. Santificar esse dia foi decisão unânime da comunidade cristã, que desde o começo passou a se reunir para rezar sempre aos domingos. Até mesmo o nome desse dia vem dessa experiência pascal – dies domini – o dia do Senhor, o Domingo! Com isso, a tradição religiosa judaico-cristã conversa a necessidade de ter um dia reservado para o louvor do Senhor e para nosso descanso físico e espiritual. Aproveite e aprenda a lição do domingo: é preciso ter tempo para Deus!
abr 04 2023
Mulheres no Novo Testamento
Por frei Carlos Mesters Isabel: Zacarias não foi capaz de crer na chamada e ficou mudo (Lc 1,11-22). Isabel era idosa e estéril, mas acreditou na chamada, concebeu e tornou-se capaz de reconhecer a presença de Deus em Maria (Lc 1,23-25.41-45). Isabel era da tribo de Levi, descendente de Aarão. Era Levita (Lc 1,5). A profetisa Ana e o velho Simeão: Estas duas pessoas, ambas bem idosas, aparecem no evangelho de Lucas por ocasião da apresentação de Jesus no Templo (Lc 2,22-38). O olhar dos dois era um olhar de fé, capaz de distinguir o salvador do mundo num menino trazido por um casal pobre de camponeses lá da Galileia, no meio de muitos outros casais que traziam suas crianças para serem apresentadas a Deus no Templo. Os dois tinham dentro de si uma convicção de fé que lhes dizia que não iriam morrer antes de verem a realização das promessas (Lc 2,26). Este é, aliás, o desejo de todos nós. Cada ser humano traz dentro de si uma promessa de séculos. Simeão fez um cântico bonito de agradecimento (Lc 2,29-32). Ana era uma viúva de 84 anos de idade que também reconheceu o sinal de Deus no menino (Lc 2,38). Eunice e Loide: Na segunda carta a Timóteo, Paulo conservou os nomes da mãe e da avó de Timóteo, Eunice e Loide (2Tm 1,5). Foram elas que transmitiram a Timóteo a fé e lhe ensinarem o amor pela Palavra de Deus (2Tm 3,14-15). Isto faz que a gente se lembe das avós e avôs dos doze apóstolos, dos 72 discípulos e discípulas, do povo das primeiras comunidades, tantos e tantas. Todos eles e elas pessoas anónimas. Mas Deus conhece e conserva os nomes. Foram estas pessoas anónimas que transmitiram a fé. Também vale a pena lembrar os homens e as mulheres que foram indicados para coordenar as comunidades e que eram chamados de presbíteros ou presbíteras, os mais velhos ou as mais velhas. Eram elas e eles que ensinavam as crianças a rezar e os jovens a cantar. Foi para eles e elas que Paulo fez aquele sermão tão bonito em Mileto (At 20,17-35). Os cânticos espalhados pelo Novo Testamento eram transmitidos por eles nas comunidades: cântico de Maria, de Zacarias, de Simeão, tantos outros. Joana e Susana, duas discípulas: Joana e Susana eram duas companheiras que também faziam parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus desde a Galileia, serviam-no com os seus bens e subiram com ele até ao calvário. Com esta descrição, o evangelho de Marcos coloca este grupo de mulheres como discípulas-modelo. São três palavras que sintetizam o discipulado: seguir, servir subir (Mc 15,41). A Samaritana: Jesus começa o diálogo, procurando um contacto através do trabalho que a samaritana fazia: “Dá-me de beber!” (Jo 4,7) Água, corda, balde, poço eram os elementos que marcavam o mundo do trabalho da mulher. Mas por esta porta Jesus não consegue contacto com ela (Jo 4,7-15). Em seguida, tenta entrar por uma outra porta e diz: “Vai buscar teu marido!” É a porta da família. Mas nem por esta porta ele consegue contacto. A mulher responde: “Não tenho marido!”( Jo 4,16-18). Finalmente, a Samaritana identifica Jesus e diz: “Vejo que ésum profeta”( Jo 4,19). Neste momento, ela se situa na conversa e começa a tomar a iniciativa. Ela puxa o assunto para a religião: “Onde adorar a Deus: aqui ou lá em Jerusalém?”(cf. Jo 4,20). Jesus entra pela porta da religião que a mulher lhe abriu (Jo 4,19-24). Em seguida, novamente, a mulher muda o rumo da conversa e puxa o assunto para a esperança messiânica do seu povo: “Sei há-de vir um Messias. Quando ele vier, nos ensinará todas estas coisas!”(Jo 4,25). E novamente, Jesus entra pela porta que a Samaritana abriu e responde: “O Messias sou eu que falo contigo!” (Jo 4,26). O resultado deste difícil diálogo parece muito reduzido. Jesus só conseguiu provocar uma pergunta na mulher Samaritana: “Será que ele é o Messias?”( Jo 4,29) Talvez seja este o resultado mais positivo que se possa imaginar! Jesus não dá respostas. Ele levanta perguntas. Durante o diálogo, Jesus se guia por aquilo que ele aprendeu da Samaritana durante a conversa. Ele não se impõe, nem condena, mas respeita a mulher profundamente. Corre até o risco de não obter nenhum resultado. Enquanto Jesus tomava a iniciativa, a conversa não avançava. Ela só avançou e atingiu o seu objectivo a partir do momento, em que a mulher se situou e começou tomar a iniciativa. Neste momento, brotou vida nova. Será que nós temos a coragem de deixar ao outro a iniciativa do rumo da conversa? As irmãs de Jesus: A expressão “irmãos e irmãs de Jesus” ocorre várias vezes nos evangelho (Mc 3,31-35; 6,3; Lc 8,19; Jo 7,3.5). Até hoje ela é causa de muita polémica entre católicos e protestantes. Baseando-se neste e em outros textos, os protestantes dizem que Jesus teve mais irmãos e irmãs e que Maria teve mais filhos! Os católicos dizem que Maria não teve outros filhos. O que pensar disso? Em primeiro lugar, as duas posições, tanto dos católicos como dos protestantes, ambas têm argumentos tirados da Bíblia e da Tradição das suas respectivas Igrejas. Por isso, não convém brigar nem discutir esta questão com argumentos só de cabeça. Pois trata-se de convicções profundas, que têm a ver com a fé e com o sentimento de ambos. Argumento só de cabeça não consegue desfazer uma convicção do coração! Apenas irrita e afasta! Mesmo quando não concordo com a opinião do outro, devo sempre respeitá-la. Em segundo lugar, em vez de brigar em torno de textos, nós todos, católicos e protestantes, deveríamos unir-nos bem mais para lutar em defesa da vida, criada por Deus, vida tão desfigurada pela pobreza, pela injustiça, pela falta de fé. Deveríamos lembrar algumas outras frases de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). “Que todos sejam um, para que o mundo creia que Tu, Pai, me enviaste” (Jo 17,21).
abr 02 2023
A pandemia das igrejas em Moçambique
Por Pe. Ananias Milissão Moçambique conta, actualmente, com pouco mais de 900 igrejas legalizadas. Entretanto, o país tem conhecido um aumento substancial de seitas religiosas e tem mais de mil confissões religiosas operantes mas ainda não registadas em Moçambique. O Governo está a preparar uma legislação para regulamentar as igrejas em Moçambique substituindo a de 1971. O homem é por natureza e vocação, um ser religioso. Desejar a Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. O homem não vive uma vida plenamente humana senão na medida em que livremente vive a sua relação com Deus (CIC 27) através da prática da religião. De facto, a religião não é pura invenção da inteligência humana nem fruto da condição social do próprio homem, pois todo o homem, independentemente da sua condição social (seja rico ou pobre, feliz ou infeliz, empregado ou desempregado) é um ser religioso. A ser assim, a religião não pode ser usada como instrumento de combate e eliminação de problemas pessoais relativos a finanças, amor, emprego entre outros, pois a religião faz parte do ser do próprio homem cuja dignidade e felicidade consiste na sua união e no diálogo permanente com Deus (GS 19,1). A Igreja substitui o Estado? Embora as alegrias e as esperanças, as tristezas as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos mais pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo e da Igreja (GS 1), não é papel da igreja e da religião acabar com os problemas materiais dos homens. Na verdade, cabe ao Estado garantir coesão, unidade e organização social de modo que o bem comum seja usufruído por todos os cidadãos de modo a levarem uma vida verdadeiramente humana (DSI 168). Porém, visto que a missão do Estado de garantir o acesso aos bens disponíveis a todo o cidadão encontra-se seriamente comprometida por causa da corrupção que cria estruturas de pecado, nos dias de hoje, notamos na sociedade moçambicana o aparecimento em massa de igrejas que substituem o Estado na sua tarefa de garantir o bem-estar dos cidadãos, através do anúncio de um outro tipo de evangelho diferente do evangelho de Cristo: trata-se do evangelho da prosperidade. Evangelho da prosperidade Eclodiu na sociedade moçambicana uma nova epidemia, a epidemia das igrejas caracterizadas pelo anúncio da graça barata que é o discipulado sem cruz (Bonhoeffer). Todo o mundo quer ser discípulo de Cristo, mas não de Cristo que morreu na cruz. As igrejas aparecem a comercializar a graça divina pregando a solução para todo tipo de tristeza, sofrimento e desespero do homem de hoje. Deixam de anunciar o arrependimento que conduz à salvação (2 Cor 7,10) e pregam a prosperidade e o sucesso material, uma verdadeira deturpação dos ensinamentos bíblicos. Deus já não é o Deus dos pobres, dos que choram, dos famintos (Lc 6, 20-21) passou a ser Deus dos ricos, dos felizes, dos saciados. Na luta desesperada pela busca de melhores condições de sobrevivência é possível notar que estamos diante de uma sociedade ignorante e insensata. Diante das promessas de uma vida melhor e próspera (técnica usada para atrair mais adeptos), os moçambicanos acreditam ingenuamente que a pobreza, a falta de oportunidade de emprego, as doenças e muitos outros males sociais, sejam fruto da maldição e do castigo por um pecado cometido (Jo, 9,1-2). Igreja superstição social? As igrejas representam hoje uma forma moderna de superstição social. Não se ama, não se adora nem se presta culto a Deus por ser nosso dever e para nossa salvação, mas por se acreditar, de braços cruzados, na retribuição de uma vida abençoada e próspera. Não serão, hoje em dia, as igrejas o ópio dos moçambicanos (Karl Marx)? As igrejas têm sido refúgio e reposta da pobreza material que o homem não consegue superar, por isso, acredita-se que é indo à igreja que se adquire emprego, saúde, consegue-se conceber e encontrar um cônjuge. Face a tão grande insensatez social percebemos que a pobreza multiplica os endemoninhados (acredita-se que os pobres sejam pobres por estarem possuídos por maus espíritos) e a ignorância multiplica os exorcistas (que querem acabar com os problemas sociais através das orações). Fé versus ignorância Nota-se ainda que aliada ao desespero está a perda aguda da racionalidade, confunde-se a fé com a ignorância: o meu povo perde-se por falta de conhecimento (Os 4,6), a ponto de em nome da fé, e para sair do desespero, as pessoas desnudam seus corpos para que os pastores possam ungir e abençoar seus órgãos genitais a fim de tornarem-se férteis e fecundos. Portanto, a pandemia das igrejas em Moçambique é uma realidade fora do controlo das autoridades competentes, de modo que não se sabe quantas igrejas existem e onde operam, pois a cada dia vão surgindo novas igrejas e em qualquer esquina, e são igrejas cheias de gente vazia de fé. E, paulatinamente, a sociedade moçambicana, da pandemia vai desaguar, num futuro breve, no pandemónio. BOX Os referidos pastores e profetas usam a Bíblia e a interpretação desta muitas vezes de forma subjectiva. Usam água, supostamente abençoada por Deus, e fazem imposição das mãos nas cabeças dos seus crentes para deleitar a clientela. As igrejas emergentes trazem pessoas preparadas para servirem de testemunhos de sucesso. Os profetas com gritos, choros e muita descarga emotiva lançam mensagem aos seus crentes. A pobreza e o momento difícil por que o país passa está a criar espaço para que as igrejas prosperem. Parece que na sociedade moçambicana “já não há crentes, mas sim consumidores de produtos sagrados. Temos crentes consumidores de milagres”.
abr 02 2023
Quaresma, caminho de libertação
Não há sombra de dúvidas que vivemos num mundo quase eternamente quaresmal. Mundo de uma Quaresma quase sem Páscoa. Mas viver sempre ambiente quaresmal não passa de um círculo vicioso e venenoso para nossa vida espiritual e moral. Não restam dúvidas que no quadro das vivências humanas de famílias e amigos, entre homens e mulheres, haja sombra de vivência quaresmal sem Páscoa. Caminho perigoso e venenoso, já que a ressurreição de Jesus é tão disponível para tudo e para todos. De facto, a sorte que temos é que a ressurreição, acção de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, não é exclusiva, mas aberta a todos seres humanos, entre você e mim. Entre nós e vós. Uma Quaresma sem Páscoa perde seu sentido cristão, e se perde este sentido nós é que saímos a perder o profundo alcance da obra salvífica de Jesus Cristo. Na história da salvação, o povo de Israel ficou longo tempo à espera do Messias, escutando apenas o anúncio dos profetas e procurando viver com fidelidade, por vezes desobedecendo a Deus, mas sem perder a esperança da chegada de um Messias anunciado pelos profetas. Neste mundo cheio de afrontas, crimes e injustiças, sobretudo aqui em Moçambique onde há sempre sinais que causam desespero, é sempre fácil cair na tentação de uma Quaresma sem Páscoa. É fácil perder a alegria do evangelho. Sobretudo ante o clima de ataques dos terroristas em Cabo Delgado (e noutros pontos), diante da problemática da Tabela Salarial Única, a famosa TSU, o desentendimento na vivência familiar, os múltiplos divórcios, o desemprego exacerbado, as fofocas, a greve dos médicos, etc. Estas situações colocam em causa a esperança de um mundo melhor. São realidades que nos afundam em cada dia e em cada noite numa Quaresma sem Páscoa. Mas a esperança cristã, enraizada na pessoa de Cristo nosso Senhor, atesta-nos que estamos, neste tempo quaresmal, num caminho de libertação das nossas várias prisões da vida presente. O povo de Israel, apesar das dificuldades por que passava, nunca deixara esperar um mundo melhor, a acção libertadora de Deus. De modo que mesmo nós, diante da problemática da TSU, aflições existenciais, a nossa Quaresma conduz-nos sempre para o grande mistério da Páscoa, a Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso Salvador. Assim, empenhados na oração, na prática do jejum e na caridade, a par e pouco percorremos este caminho da nossa libertação. Libertação das nossas inúmeras “quaresmas da vida”: a quaresma do sofrimento, a quaresma do egoísmo, a quaresma do ódio, da infidelidade, a quaresma do desentendimento e do desemprego, a quaresma de atritos familiares, a quaresma dos falsos messias, entre outros tipos. Unidos na mesma fé, percorramos este caminho da nossa libertação, buscando também libertar aos outros nas diferentes prisões e amarras da vida. Pe. Serafim João Muacua
abr 02 2023
Pluralismo religioso: provas de diálogo
Por Pe. Max Robol “O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos” (Papa Francisco e Ahmad al-Tayyeb, Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz mundial e da Convivência comum, 2019). “Se Allah quisesse, realmente ter-vos-ia feito uma única nação (mesma religião), mas (não o fez) para vos testar naquilo que vos deu; portanto, competi nas boas acções” (Alcorão, Surah “A Mesa” 5:48). Nos textos supracitados, o pluralismo religioso é considerado como vontade de Deus. Nisso, pode-se dizer que não há uma religião melhor do que outra; todas as tradições culturais e religiosas são necessárias para melhor manifestar as riquezas da plenitude de verdade que coincide com o mistério mesmo de Deus. Nós estamos a viver numa sociedade onde há diversidade de atitudes, de opiniões, de pensamentos, assim como há variedade de línguas, de religiões e de culturas. A pluralidade está relacionada à convivência de realidades diferentes, com diversas aplicações. Isto também se verifica em relação à diversidade das religiões. Como consequência, podemos dizer que o pluralismo religioso é a compreensão de que todas as religiões estão no mesmo nível. Isso não quer dizer que são todas iguais, mas que são todas legítimas e não há nenhuma religião melhor do que outra; assim, apenas Deus é o centro para onde todas caminham. Por conseguinte, o ser religioso é necessariamente convidado a adoptar atitudes pluralistas, ou seja, ter um novo olhar frente ao outro, ao diferente; buscar sempre o diálogo para um melhor conhecimento mútuo, com vista ao bem da sociedade e a uma convivência fraternal. A diversidade é um bem, uma dádiva de Deus. Por isso, é preciso reconhecer a pluralidade como um valor único e respeitável, que ajuda a olhar para o mundo numa perspectiva mais ampla. Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica EvangeliiGaudium, afirma: “A diversidade é bela” (EG 230). Por conseguinte, deve-se levar em conta a forma como se lida com essa diversidade, que atitude tomar. Deste modo, o cristão é chamado a ter um olhar compreensivo para o seu irmão que professa uma outra religião. O pluralismo, como um fenómeno da sociedade actual, desafia o ser humano a valorizar princípios e valores comuns; exige o conhecimento mútuo, o respeito, a solidariedade e o perdão. Então, qual é a base para manter uma atitude pluralista num diálogo entre religiões? Num documento intitulado: Carta Aberta e Apelo dos Guias Religiosos Muçulmanos aos Líderes das Igrejas Cristãs, escrito por 138 intelectuais muçulmanos em 2007, afirma-se que, por exemplo, a base para o diálogo entre cristãos e muçulmanos já existe. Faz parte dos princípios fundamentais das duas religiões: amor pelo único Deus e amor ao próximo. Continua o documento: “em obediência ao sagrado Alcorão, como muçulmanos convidamos os cristãos a encontrarem-se connosco com base no que nos é comum, que é também o mais essencial na nossa fé e prática: os Dois Mandamentos do amor”. Embora o Islão e o Cristianismo sejam obviamente religiões diferentes, é evidente que os Dois Mandamentos principais são um terreno comum e uma ligação entre o Alcorão e a Bíblia. Este terreno deve ser a base para o diálogo inter-religioso entre os crentes de boa vontade. Asseguremos, portanto, que as nossas diferenças não causem ódio e conflito entre nós. Vamos competir uns com os outros apenas na prática da justiça e das boas obras. Respeitemo-nos, sejamos justos e bondosos, e vivamos em paz, harmonia e confiança uns com os outros. Afirma o Sagrado Alcorão: “Certamente Allah ordena a justiça, a boa conduta, a bondade e o auxílio aos parentes, e proíbe as obscenidades, o mal e as atitudes opressivas; Ele aconselha-vos para que vós possais meditar” (Alcorão, Surah “A Abelha” 16:90). Jesus afirma no Evangelho: “Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). E mais: “Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O pluralismo religioso propõe atitudes comuns para construir uma sociedade eticamente responsável, que inclui a procura de boas relações, da tolerância e do respeito pela diversidade de culturas e de religiões, numa perspectiva de diálogo e acolhimento. O objectivo dessas práticas é a busca do conhecimento mútuo e a realização de acções concretas de interesse social, ambiental e religioso. Portanto, numa sociedade marcada por conflitos de diversas origens, terrorismos e todo tipo de violência; num mundo onde há degradação ambiental e desigualdades sociais, as religiões são chamadas a dialogar e a trabalharem em busca de fraternidade e reconciliação. Todos os crentes devem sentir o peso da responsabilidade de contribuir por um mundo mais justo e humano, de acordo com aquele “sábio desígnio” do nosso Criador.


