ago 26 2020
REGIME DA PROPRIEDADE DA TERRA EM MOÇAMBIQUE
Por: Uacitissa António Mandamule (OMR) Questões actuais sobre a terra Em Moçambique a terra não pode ser vendida, mas ela é comprada. O Estado não reconhece a propriedade privada sobre a mesma, muito menos a sua venda, ainda que de maneira mais ou menos generalizada aquela exista, envolvendo nas transacções diferentes atores a diferentes níveis da hierarquia social, inclusive entre as elites que integram os sistemas do poder. Actualmente, dentre as questões que têm sido objecto de debate no que concerne à questão da terra em Moçambique – algumas ainda que de forma mais ou menos discreta: (i) a centralização da propriedade da terra pelo Estado; (ii) o não reconhecimento da propriedade privada da terra; (iii) e, portanto, a impossibilidade de transaccioná-la, monetária e formalmente no mercado. A questão da garantia de segurança de posse da terra, sobretudo para os cerca de 75% da população que têm na agricultura a base da sua subsistência e na terra o seu maior recurso, tem igualmente assumido uma importância crescente, sobretudo no actual contexto de grande procura de terras em África e outros países em desenvolvimento. Esta apetência pelas terras resultou em parte do grande crescimento populacional em África e no mundo e, sobretudo, da crise financeira e alimentar de 2007/2008 que provocou graves consequências a nível da segurança alimentar e energética dos países “açambarcadores”, sendo Moçambique um dos destinos preferenciais dos investimentos estrangeiros. A terra como um bem comum Várias são as acepções que a expressão “bem comum” pode assumir, indo desde o conjunto de elementos oferecidos naturalmente a todos os seres humanos, ou seja, a terra, a água, os minerais, rios, mares, vento, sol, clima, atmosfera, biodiversidade, entre outros, (FLAHAULT, 2011), às simples relações sociais (materiais ou imateriais) que se estabelecem sobre aqueles recursos (LIPIETZ, 2010). Para a teoria dos direitos de propriedade, de fundamento neoclássico, o crescimento demográfico e a crescente comercialização da agricultura levam à escassez de terra, passando esta a ter um valor económico e transformando-se progressivamente em um bem comercializável e apropriável individualmente (BADOUIN, 1974). Nestas circunstâncias, a ausência de propriedade privada é prejudicial pois as explorações não são feitas de maneira ecologicamente sustentável e, por sua vez, os investimentos não conservam nem melhoram a qualidade dos solos e da produção, provocando desta forma importantes externalidades (LAVIGNE-DELVILLE, 1998). Já na sua variante evolucionista, a teoria dos direitos de propriedade salienta que, sujeitos ao crescimento demográfico e do mercado, as sociedades humanas tendem a evoluir espontaneamente em direcção a uma generalização da propriedade privada, individual e familiar, da terra, ao mesmo tempo em que assistimos ao enfraquecimento e desaparecimento do papel das autoridades tradicionais. A persistência da gestão comunitária em algumas extensões de terra, a resistência à venda de terras para fora da comunidade de pertença, o carácter reversível das vendas de terras e a persistência de relações clientelistas autoridades comprador e vendedor, etc., são sinais de um período transitório, antes do desenvolvimento de um verdadeiro mercado de terras (PLATTEAU, 1998). A essas situações, os governos devem responder através duma inovação institucional sob forma de títulos de propriedade e direitos registados junto a uma agência central especializada (PLATTEAU, 1998). Tal intervenção, embora de carácter não obrigatório, é necessária na medida em que flexibiliza a determinação dos preços de venda e compra de terras (NEGRÃO, 2011), assegura a posse da terra, permite o acesso ao crédito que, por sua vez, contribui para o aumento da produtividade, e põe fim aos conflitos que tendem a aumentar quando a terra se torna objecto de concorrência (LAVIGNE-DELVILLE, 1998). Em Moçambique, em particular, o Estado reconhece o poder das autoridades e notáveis comunitários (chefes tradicionais, secretários de bairro ou de aldeia, régulos, etc.) como sendo os legítimos representantes das comunidades. Aquelas participam através de instituições de participação e consulta comunitárias (Comités, Conselhos, Fóruns) na gestão dos recursos naturais. Procedimentos de acesso à terra e DUATs Em sociedades maioritariamente rurais, como a moçambicana, além de constituir a fonte primeira de subsistência das famílias, a terra tem um valor e significados sagrados determinados, por um lado, pela ligação que esta cria com os ancestrais e, por outro lado, pelo poder que ela confere a quem é, legal ou tradicionalmente, o legítimo responsável pela sua gestão. As normas de reciprocidade enraizadas e partilhadas pelos indivíduos envolvidos na relação com a terra, através do cultivo, produção, habitação ou culto aos ancestrais, criam uma certa ordem e estabilidades, que harmonizam a convivência em sociedade e facilitam a aceitação das normas e a configuração do poder criadas pela organização do espaço. Considerado um direito natural dos indivíduos, o acesso à terra no meio rural, bem como o sentimento de apropriação, são relativamente fortes pois a terra e todos os recursos que dela provêm são considerados pertença das famílias que os gerem segundo normas e práticas costumeiras adquiridas, apropriadas, reproduzidas e transmitidas rotineiramente de geração em geração, conferindo-lhes, assim, maior aquiescência, relevância e segurança. Estas normas são igualmente aceites e respeitadas pelos Estados, que, em alguns contextos, são os legais proprietários da terra, mas não o seu legítimo dono. Por isso, alguns países como o Senegal, Guiné Equatorial, Costa do Marfim, Burquina Fasso, por exemplo, optaram pela combinação entre o direito dito “moderno” e o “direito tradicional” (MATHIEU, 1996), incorporando, reconhecendo e reforçando a legitimidade deste último, sobretudo no meio rural. Moçambique também faz parte dos países que adoptaram um regime de dualismo jurídico, sobretudo no que concerne à gestão dos recursos naturais, ainda que factualmente antecedido de períodos de práticas administrativas excessivamente centralistas. Apesar do ideal de “libertação da terra e dos homens”, não houve no Moçambique pós-independência, como referiu Norton (2005), uma redistribuição justa da terra pelas famílias rurais. Pelo contrário, assistiu-se a uma “dependência da trajectória” (GAZIBO & JENSON, 2004) marcada pela reprodução das práticas administrativas das antigas potências coloniais, transformação das propriedades agrícolas privadas em machambas estatais, socialização do campo nas cooperativas e aldeias comunais, e confiscação das terras dos camponeses e pequenos produtores privados (CAHEN, 1987).
ago 25 2020
AMETRAMO EM NAMPULA
Médicos tradicionais capacitados na prevenção e combate as doenças contagiosas Um total de 179 praticantes da medicina tradicional beneficiaram recentemente de uma formação em prevenção e combate a SARS COV-2 através da Direcção Provincial de Saúde em Nampula. Para além desta pandemia aquele grupo de médicos tradicionais beneficiou igualmente de outra formação sobre temas ligados com a malária, tuberculose e o HIV-SIDA. No que toca ao Coronavírus, o Director Provincial da Saúde, em Nampula, Fernando Mitano, disse que a formação promovida por sua instituição visa dotar o grupo alvo de ferramentas sólidas sobre esta doença, de modo que os médicos tradicionais possam identificar sintomas da covid-19, para em seguida encaminhar os pacientes aos centros de saúde. Como prova disso, num passado recente cerca de nove mil doentes que manifestavam sintomas de doenças em referência foram conduzidas aos centros de saúde pelos médicos tradicionais, por reconhecerem que tais enfermidades não eram da sua alçada, mas sim, da medicina convencional. O director reconhece o contributo que os médicos tradicionais têm empreendido para a redução do Coronavírus neste quadrante do país. Mitano impressionou-se pela positiva pelo facto da sua instituição ter uma boa colaboração com a Associaçao dos Médicos Tradicionais de Moçambique -AMETRAMO. Aquele responsável reafirmou o seu compromisso em continuar a trabalhar em estreita ligação com a AMETRAMO no sentido de combater a várias patologias que apoquentam não só a população desta que é a província mais populosa de Moçambique, como também do país em geral. O Director Provincial da Saúde em Nampula, falava no decurso de uma conferência de imprensa que tinha como objectivo debruçar-se sobre a semana da medicina tradicional Africana, cuja efeméride celebra-se no dia 31 de Agosto de cada ano. (Júlio Assane)
ago 25 2020
Hospital Central de Nampula
Retoma das consultas normais que havia sido suspensas por conta da COVID-19 O Hospital Central de Nampula vai a partir de hoje retomar as consultas normais dentro das unidades sanitárias existentes nesta parcela do país. A informação foi tornada pública pelo director clínico do Hospital Central de Nampula, Anselmo Vilanculo, num encontro que manteve na manhã de hoje com jornalistas de diferentes órgãos de comunicação social existentes na cidade de Nampula. Com a retoma das actividades normais nas unidades sanitárias, o director clínico do Hospital Central de Nampula disse que o novo normal nos hospitais e unidades sanitárias não significa o fim do Coronavírus, por isso que, as unidades sanitárias terão que reforçar as medidas que lá existem contra o Coronavírus. “Isto implica para nós um maior desafio em termos daquilo que é o controlo dentro das unidades sanitárias e for estabelecido para a entrada dos utentes” – é nessa ordem de ideia que Anselmo Vilanculo sublinhou que o Ministério da Saúde orientou aos seus funcionários para que todos os casos que vão entrar nas unidades sanitárias tenham uma identificação para aqueles que vão as consultas com uma data marcada e serão exigidas e controladas na entrada do hospital. Anselmo explicou ainda que com o novo normal, as consultas que geralmente eram feitas no período da tarde, a partir de hoje as mesmas serão feitas nas manhãs para haver maior controlo da circulação de pessoas dentro do hospital e reduzir aglomerados nas unidades sanitárias. Um outro desafio apontado por Vilanculo, tem que ver com as consultas electivas que exigem maior quantidade de sangue durante a operação, tendo em conta que o hospital neste momento depara-se com a falta de sangue desde o início da pandemia da COVID-19. “Nós dependemos muito das confissões religiosas para doarem sangue e com o encerramento das igrejas o hospital ficou com pouca quantidade de sangue para usar durante as cirurgias” disse Anselmo Vilanculo director clínico do Hospital Central de Nampula. (Júlio Assane)
ago 25 2020
Na reserva de Mecubúri em Nampula
Encontrados 27 toros de madeira cortados ilegalmente A fiscalização da direcção dos serviços provinciais de terra e ambiente em Nampula encontrou no interior da reserva de Mecubúri 27 toros de madeira explorada ilegalmente. Populares denunciaram que “pessoas não credenciadas para exercer aquela actividade estão a roubar toros no interior da terceira maior reserva da África, um local proibido pelo governo”. Apesar de não serem encontrados os autores do crime dos 27 toros de madeira, o director dos serviços provinciais de terra e ambiente em Nampula, Luı́s Sande, disse que os seus fiscais encontraram uma viatura em movimento na localidade de Ratane que transportava madeira acima de 60 por cento de carga, que ultrapassou a quantidade estipulada no seu documento de autorização. Dai que, foi aplicado ao infractor uma multa de 185 mil meticais pelo acto cometido. Luís Sande explicou que os fiscais que ali se encontram vão continuar a trabalhar para identificar o autor dos toros encontrados na reserva para a sua devida responsabilização pelo crime. “Caso seja encontrado o dono das madeiras, se tiver a licença, lhe será tirado o direito de exploração e pagará uma multa superior a 500 mil meticais e encaminhado a Procuradoria da República para a sua devida responsabilizaçao”, disse Luís Sande, director dos serviços provinciais de terra e ambiente em Nampula. A fonte explicou que um dos desafios que o seu sector neste momento está a enfrentar no interior da reserva de Mecubúri, tem haver com o aumento de pessoas que estão a construir habitações dentro da reserva. “Quem corta a madeira não são pessoas de fora, são as que vivem dentro da reserva” – avançou Luı́s Sande e explicou que elas são usadas com promessas de suas vidas serem melhoradas pelos seus chefes. Sande acrescentou que alguns moradores que ajudavam os furtivos a cortarem a madeira na reserva de Mecubúri foram encaminhados a Procuradoria Distrital do Distrito em causa, e aberto um processo crime para a sua responsabilização. Aquele dirigente explicou que os distritos onde é explorada a madeira na província de Nampula são os de Lalaua, Eráti, Mecubúri, Muecate, Meconta, Mogovolas, Mogincual, Monapo e Mossuril. “Nos primeiros seis meses nós já licenciamos 500 metros cúbicos de madeira e 42 operadores destas actividades” -disse Luís Sande. (Júlio Assane)
ago 24 2020
NO MERCADO GROSSISTA DO WARESTA
FALTA DE CLIENTES PREOCUPA VENDEDORES Os vendedores do mercado grossista do Waresta na cidade de Nampula mostram-se preocupados com a falta de clientes que não se fazem sentir deste a sua reabertura. A preocupação daqueles vendedores surge depois das autoridades municipais terem declarado que, devido às medidas de prevenção e combate ao novo Coronavírus decretadas pelo Ministério da Saúde, os vendedores deviam manter o distanciamento social para evitar esse mal dentro daquele mercado. Júnior Jaime Martinho um dos vendedores entrevistados pela nossa reportagem disse que desde que o mercado foi reaberto pelas autoridades municipais e dividido em dois, os clientes tiveram que mudar a sua rotina de compra dos seus produtos para o novo mercado que o município abriu em Natikiri. “Por dia nós perdemos 25 a 30 sacos de batata, cebola e maçã que equivale a um preço de 32 mil meticais” – Apontou Júnior Jaime Martinho. Por outro lado, a fonte referiu que muitos produtos foram deixados no armazém e os donos do armazém exigem pagamento de taxa de conservação e guarnição. (Júlio Assane)
ago 20 2020
Paulo Vahanle gazeta sessão da Assembleia Municipal
FRELIMO E MDM ABANDONAM A OITAVA SESSÃO Os partidos FRELIMO e MDM abandonaram na última terça-feira (18/8) a oitava sessão da Assembleia Municipal da Cidade de Nampula. O abandono das duas bancadas a Assembleia Municipal deveu-se a não comparência do Presidente do Município da cidade de Nampula, Paulo Vahanle, o qual deveria apresentar as actividades realizadas pelo seu executivo a este encontro. A chefe da bancada parlamentar do Movimento Democrático de Moçambique, MDM, Luısa Marovisa, explicou que o seu partido não se fez presente a oitava Sessão da Assembleia Municipal pelo facto do Presidente Paulo Vahanle ter forjado uma viagem de emergência a Maputo, sem, no entanto, informar as bancadas ali representadas. “Ao abrigo do N°2 da alínea a) e b), 63 da lei nº 6/2008 de 3 de Agosto diz que não são delegáveis as competências das alíneas a) e b) do nº 1, c) e g) do nº 2 e nº 3 todos do artigo 62 da presente lei, mostra que o vereador não pode representar os órgãos executivos do Município e da Assembleia Municipal “- disse Luisa Marovisa, a qual referiu que, indicar um vereador para representar e apresentar o informe do Presidente do município é uma grande vergonha e mostra que ainda não conhecem a lei das Assembleias Municipais. O porta- voz da bancada da FRELIMO, Quintino Chicoche, explicou que a não comparência de Paulo Vahanle, Presidente do Municı́pio a oita sessão da Assembleia Municipal revela uma grande desorganização da parte dele e do governo que dirige. “Se a ausência do Presidente nos fosse informada antes nós não estarı́amos a passar por esta vergonha que estamos a ver hoje” -sublinhou Chicoche e acrescentou que a eleição de Paulo Vahanle para a autarquia de Nampula é um verdadeiro desastre e destruição da cidade de Nampula. Entretanto, na óptica do porta-voz da bancada da RENAMO, Estêvão António Ferreira, “A ausência do presidente na oitava sessão da Assembleia Municipal não impede que a mesma seja realizada, por isso que a bancada da RENAMO participou de forma activa na aprovação das actividades que serão realizadas nos próximos meses”, apontou Por seu turno, o porta-voz da Assembleia Autárquica da cidade de Nampula, Saı́de Abdul Satar, explicou que a Assembleia recebeu a carta do Presidente do Conselho Autárquico da cidade de Nampula, Paulo Vahanle, a comunicar que se deslocava a capital do paı́s para cuidados médicos, mas esta informação não foi partilhada. (Júlio Assane)
ago 20 2020
Lançamento da Campanha de Solidariedade
As vítimas dos ataques terroristas já vem recebendo apoio da população, das Caritas de Pemba, Nampula e Nacala, do Governo e de várias organizações de ajuda humanitária, mas isto não é suficiente tendo em conta que os desalojados estão a aumentar cada vez mais. Por isso a Igreja Católica tomou iniciativa de lançar uma campanha nacional de solidariedade, devido a gravidade da situação, que exige uma resposta de emergência. Além de mobilizar apoios, o movimento denominado Juntos por Cabo Delgado, visa igualmente harmonizar a solidariedade que tem sido prestada aos deslocados que são consideradas desumanas. As vítimas não param de chegar as zonas seguras e ajuda e insuficiente especialmente comida, e por isso lançamos esta campanha que vai ser coordenada pelas Caritas Diocesana, explicou Dom Luís Fernando Lisboa, o Bispo de Pemba. As vítimas do terrorismo perderam praticamente tudo, e segundo o Bispo, toda ajuda vai estar virada para o mais essencial. As pessoas podem ajudar com comida, roupa, cobertores, esteiras e lonas, mas quem puder colaborar com dinheiro, também e bem-vindo porque a equipa pode comprar o que for necessário no momento, disse Dom Luís Fernando Lisboa em jeito de apelo. Os ataques terroristas em Cabo Delgado começaram em 2017, e já provocaram mais de 250 mil deslocados. Assista ao video de lançamento da Campanha de Solidariedade
ago 19 2020
A solidariedade do Papa para com o povo de Cabo Delgado
Papa Francisco telefonou ao Dom Luiz na manhã do dia 19/8. Ele disse ao Dom Luiz que está próximo da vida do povo de Cabo Delgado e está a acompanhar com muita preocupação aquilo que está a acontecer naquela parcela do País. Ele assegurou que não esqueceu a sua visita à Moçambique e que está preocupado e se solidariza com todas aquelas famílias que neste momento estão a sofrer e estão deslocadas. Encoraja a Igreja de Moçambique, em particular aquela de Pemba, a continuar a apoiar esta humanidade ferida e a não ter medo de denunciar todo o tipo de violência perpetradas contra pessoas inocentes. Assegurou a sua oração e bênção apostólica. Telefonema do Santo Padre Papa Francisco ao Bispo de Pemba Hoje, dia 19 de Agosto de 2020, às 11 h 29’, para minha surpresa e alegria, recebi um telefonema de Sua Santidade, o Papa Francisco que me confortou muito. Ele disse que está bem próximo do Bispo e de todo o povo de Cabo Delgado e acompanha a situação vivida na nossa Província com muita preocupação e que tem rezado por nós. Disse ainda que o bispo lhe diga se há mais alguma coisa que ele possa fazer. Agradeci muito a ele por esse gesto e por ter mencionado a crise humanitária que vive a Província de Cabo Delgado durante a bênção Urbi et Orbi que ele pronunciou no dia da Páscoa, 12 de Abril. Eu disse a ele que depois de sua menção a Cabo Delgado, houve muito mais interesse por parte de todos (países, dioceses de várias partes do mundo, congregações religiosas, organizações internacionais, individualidades) tanto de dentro como de fora de Moçambique e que, a partir daí, Cabo Delgado voltou para o mapa porque parecia que já não estava. Ele disse: “Que bom!” Falei sobre a difícil situação de Mocímboa da Praia que, neste momento, está tomada pelos insurgentes e que duas religiosas da Congregação de São José de Chamberry que lá trabalham estão sem contacto com a Diocese há uma semana, ao que o Papa respondeu: “Que triste!” Prometeu rezar também nessa intenção. O Santo Padre afirmou que lembrava muito bem da sua Visita a Moçambique em 2019 e que já naquela altura se preocupava por Cabo Delgado. Ele pediu que, aquilo que precisarmos, poderemos encaminhar ao Cardeal Czerny, do Dicastério do Desenvolvimento Humano e Integral. Garanti nossa proximidade a ele, Papa Francisco, e afirmei que rezamos todos os dias por ele. Por fim, ele disse que está connosco e nos encorajou: Adelante!, que significa Avante!, Continuem! Para encerrar a nossa conversa, enviou a sua bênção apostólica a todo o povo de Cabo Delgado e de Moçambique. Luiz Fernando Lisboa, cp Bispo de Pemba A seguir acompanhe a conferencia de imprensa: https://web.facebook.com/264387864222794/videos/591986861490185/
ago 18 2020
A vossa vida nos pertence, porque vocês são parte de nós
Um testemunho directo da Paróquia da S. Cruz em Nampula, sobre a situação dos deslocados de Cabo Delgado, enviado por Pe. Davide de Guidi, pároco desta paróquia que desde o mês de Junho, com a Caritas e outras organizações governamentais e humanitárias procura acompanhar o sofrimento deste povo ferido. «… Até ao momento, já chegaram 3.000 pessoas ao território da paróquia, mas em todo o território do Norte de Moçambique calcula se que existam mais de 250.000 deslocados. Novas famílias continuam a chegar, pessoas exaustas da viagem com uma profunda tristeza no coração por terem perdido seus bens, por saberem que suas casas foram queimadas, por terem deixado suas terras e por terem visto os seus entes queridos sequestrados ou massacrados a causa dos violentos ataques que “terroristas”, em nome da religião, estão flagelando o Norte da província de cabo Delgado. A dor aumenta quando contam que não puderam enterrar os seus familiares e amigos devido ao perigo de serem mortos eles próprios. Por isso, como paroquia, envolvemos os nossos jovens a levarem a sério os seus coetâneos que chegam feridos no seu espírito e nos seus sonhos. Convidamos as nossas mães paroquiais, que embora vivam na pobreza, a partilhar a roupa da sua família com quem nada tem. Estamos a tentar de fazer da paróquia um jardim aberto da caridade, da escuta, do cuidado e do acolhimento. Acreditamos que somente encontrando-se e colocando-nos ao lado deles, partilhando as tristezas e as esperanças, iremos ser cristãos credíveis. Agora vou contar-vos alguns factos trágicos, infelizmente verdadeiros, que ouvi enquanto visitava estas famílias. Lembro-me do caso de uma garota chamada Ancha que conseguiu escapar quando foi sequestrada por esses “insurgentes”. Ela nos olhou com olhos tristes e ainda assustada. Não tendo coragem de falar, os seus familiares nos contaram que seu irmão de 13 anos foi sequestrado, assim como a sua irmã com seu bebé. Eles nos contaram que quando fugiram dos ataques, ficaram sete dias no mato sem comer, tentando alimentar-se com tubérculos amargos que muitas vezes faziam mal à saúde. Conheci uma senhora de 85 anos que, apesar do que passou, teve a coragem de sorrir para mim sem dentes nenhum; ela me disse que foi forçada a fugir e permanecer na floresta por vários dias sem nada. Em outra família, um jovem nos contou que seu irmão havia sido morto junto com 51 outras pessoas, quase todos jovens, apenas pelo fato de serem cristãos e não quererem lutar ao lado deles. A sua mãe, presente a conversa, nos escutou em silêncio. Também fiquei impressionado com a história de uma menina de dois anos chamada Zainabo, que, quando os terroristas armados chegaram de manhã cedo na sua aldeia, todos fugiram para se proteger, mas ela não se deu conta e continuou a dormir. A sua irmã, que já tinha conseguido esconder-se e vendo que a menina estava desaparecida, resolveu voltar para a casa a buscá-la. Graças a Deus ela conseguiu salvar a menina antes que a casa fosse queimada. Em outra casa, encontramos uma menina que acabara de dar à luz. Ela estava exausta e depois do parto foi levada ao hospital. A pobre mãe não tinha nem um pano para cobrir a nova criatura. Então os vizinhos, pobres em bens mas ricos de amor, partilharam imediatamente o pouco que tinham. Todos estes encontros foram possíveis graças a dona Teresina, uma viúva com um coração grande, que conhece o povo maconde e a sua língua, ela neste tempo é incansável em nos apresentar as tantas famílias que chegam sem nada. Ela nos contou que o seu filho, que é militar, foi chamado para combater os terroristas. Ela e a sua família pediram-lhe que não fosse, porque poderia encontrar um trágico destino, mas ele disse: “Não posso abandonar o meu povo e o juramento que fiz como soldado é para defendê-lo”. Por fim, numa outra família encontrei hospedadas 35 pessoas, entre crianças e velhos. Os seus corações encheram-se de amargura, por terem tido que deixar a sua querida terra que os viu nascer, que os acolheu e alimentou, e agora não sabem se um dia poderão voltar. Neste contexto vêm à mente as palavras do Papa Francisco quando nos convida a acreditar que a Igreja neste tempo deve ser como um “hospital de campanha que alivia feridas”, uma igreja que fica ao lado dos crucificados desta história, que é também Igreja da “visitação”, uma Igreja que sente a dor de um parto para dar à luz uma profecia, como nos ensina Maria quando foi visitar a sua prima Isabel. Uma Igreja que ousa sair com coragem ao encontro dessa humanidade ferida e perdida, e que não tem medo de sujar os pés e as mãos para lhe devolver a dignidade de ser reconhecida como filha amada pelo Pai de todos. Tenho a certeza de que esta experiência que estou a viver não é somente um “acidente de percurso” ao longo da minha vida, mas sim, uma oportunidade e um dom para viver e mergulhar me nessa plenitude de vida, que nos vai permitir ser pessoas ressuscitadas. Pe. Davide de Guidi, (Nampula- 17-8-20)
ago 17 2020
Retoma de cultos em Nampula
Redução de número de fiéis preocupa CISLAMO em Nampula Mais de 60 mesquitas na província de Nampula estão em condições para voltarem aos cultos no dia 18 de Agosto do corrente ano. Sheik Abdul Magid António falando aos membros do Conselho Islâmico de Nampula explicou que realizaram actividades de monitoria e fiscalização em diferentes distritos desta província para verificar se as mesmas reúnem condições para retomarem aos cultos. “O desafio que neste momento estamos a enfrentar, como Conselho Islâmico de Nampula, tem haver com a redução do número de fiéis para 50” sublinhou Sheik Abdul Magid António, e referiu que estão a realizar campanhas de sensibilização aos fieis de modo que eles se adaptem com a nova regra de adorar a Deus. “Os espaços já foram demarcados para acolher 50 fiéis” – avançou Abdul Magid António o qual garante que os membros e seus respetivos dirigentes foram exortados a trabalhar juntos para evitar que as mesquitas depois de iniciarem os cultos no dia marcado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, não contribuam no aumento de casos do novo coronavírus na província. (Júlio Assane)


