DECLARAÇÃO DE ANCHILO
O grupo de trabalho de “Filosofia Intercultural e Inter-religiosa”, reunido no âmbito do “Simpósio de Diálogo Inter-Religioso” na cidade de Nampula, nos dias 2 e 3 de Setembro, nas instalações do Centro Cultural da UniRovuma e em Anchilo no dia 4 de Setembro, nas instalações do Centro Catequético Paulo VI de Anchilo, declara ter alcançado com sucesso, o compromisso de implementar os resultados alcançados em todos os debates nas várias esferas da sociedade moçambicana. Tais resultados se resumem no estabelecimento de plataformas educacionais e de difusão e acesso de informações e conteúdos visando alcançar uma convivência inter e multi religiosa em que o conhecimento mútuo entre todas as confissões religiosas seja a base para o respeito e a tolerância. Para alcançar tal feito, o grupo de trabalho e organizações parceiras assumiram determinados compromissos, a saber: O MASC em parceria com Instituições religiosas de âmbito local e nacional se responsabilizam na produção de materiais didáticos para as madrassas e escolas catequéticas e afins; A Universidade Rovuma assumiu a responsabilidade de abrir espaço para acolher e ministrar cursos de formação de formadores em matéria de educação religiosa; O Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos comprometeu-se a levar a discussão e os resultados alcançados ao fórum governamental; O grupo de trabalho de “Filosofia Intercultural e Inter-Religiosa” comprometeu-se a continuar com o seu trabalho fazendo mais e melhor visando expandir-se para outras províncias do país e ao mesmo tempo atraindo mais crentes de todas as confissões religiosas e participantes dentro da academia e sociedade civil; A Televisão de Moçambique (TVM) e a Rádio Moçambique (RM) assumiram o compromisso de abrir espaços nas suas grelhas de programações para acolher programas que discutam e divulguem informações e conhecimentos sobre as várias religiões e sobre a convivência pacífica entre os seus crentes, Os grupos de trabalho das três províncias comprometem-se a levar as discussões assim como os resultados alcançados aos distritos de suas respectivas províncias, por exemplo: Cabo Delgado que tem brochuras educativas e informativas já elaboradas, comprometeu-se em usar da sua experiência e levar essas informações às comunidades: Niassa-Cuamba que tem os manuais curriculares para as madrassas já elaborados, comprometeu-se a partilhar com os demais e está aberta a outras experiências; Nampula, através do Padre Mássimo do Centro Catequético Paulo VI assumiu a vontade de hospedar os cursos de formação de Professores e líderes religiosos numa perspectiva inter-religiosa e intercultural. Os três grupos provinciais assumiram a responsabilidade de elaborar brochuras com citações sobre PAZ extraídas das escrituras sagradas (Qur’an, Bíblia e outras). Tais citações serão também integradas nos manuais de ensino religioso. Para a elaboração de manual sobre o “Mínimo Ético”, voluntariaram-se o Padre Eduardo (Pemba), o Sheikh Omar (Niassa) e o Sheikh Jamal (Nampula), com o compromisso de assegurar o início dos trabalhos com a maior brevidade: O IESE, o MASC, a UniRovuma, e o CPS, comprometera-se a colaborar para estender de diferentes maneiras, o movimento do diálogo inter-religioso e intercultural para as províncias do centro e sul do país assim como em promover a convivência na diferença. Anchilo, 04 de Setembro de 2022 Declaração de Anchilo_220912_080041
set 07 2022
QUEM FOI A IRMÃ MARIA DE COPPI
Irmã Maria De Coppi, missionária comboniana, nasceu em 1939 numa aldeia do nordeste da Itália, Santa Lucia di Piave. A irmã Maria pertencia à comunidade das Missionárias Combonianas na missão de Chipene (Memba) e estava há 59 anos em Moçambique, onde chegou pela primeira vez em 1963. Ela passou por várias missões: Anchilo, Meconta, Alua e Chipene, onde esteve a trabalhar na pastoral paroquial e, particularmente, dedicando-se à formação das mulheres. A esperança e o testemunho de Jesus em alguns dos lugares mais pobres da terra sempre foi a missão da Irmã Maria De Coppi. Numa recente entrevista afirmou: «Procuro estar perto das pessoas sobretudo ouvindo o que me dizem. Apesar da pobreza material, ouvir os outros continua sendo um grande dom, é reconhecer sua dignidade”. Ela contou que muitas vezes dirigia a Deus uma oração aprendida com Dom Manuel Vieira Pinto, falecido bispo de Nampula quando foi expulso de Moçambique antes da Independência, que assim dizia: «Agradeço-te ó Pai, porque me enviastes aos mais pobres, aos marginalizados e aos que não contam nada!». Neste momento muitos são os interrogativos que surgem no coração dos homens e das mulheres de boa vontade: porque é que acontece tudo isto? Porque tanto sofrimento assim? Porque tantas mortes inocentes? Quem é que nos vai responder? algumas fotografias da tragédia
set 07 2022
7 de Setembro ataque á Missão e ao Posto Administrativo de Chipene
5.00h Aprendemos a trágica notícia do ataque ao Posto Administrativo de Chipene (Memba-Nampula) e, em particular na Missão católica onde residem 2 missionários fidei donum italianos e uma comunidade das Irmãs Missionárias Combonianas. Mensagem recebida por wap ontem à noite: «Nesta noite estamos sofrendo e rezando junto com todo o povo de Chipene. Os terroristas (não sei como chama-los) atacaram a missão pelas 21 horas. As notícias são poucas e é difícil saber os particulares. Foi queimado o hospital, a casa das irmãs, a igreja. Até este momento são poucas as noticias das irmãs. Estamos juntas com muita oração para pedir a Deus de proteger a todas e todos». Infelizmente teme-se pela sorte duma Irmã Comboniana em quanto que os padres e as outras irmãs conseguiram fugir. Até neste momento não há informação de outras vítimas deste ataque nem há noticias confirmadas acerca da situação por causa das dificuldades na comunicação. Iremos acompanhar a situação ao longo do dia. 7.00h Embora não seja ainda oficialmente confirmada a notícia da morte duma irmã no ataque á missão de Chipene, a maioria das testemunha confirma que a Ir. Maria de Coppi foi assassinada na mesma noite do ataque. 10h Pe. Lorenzo, missionário Fidei Donum pároco da missão de Chipene enviou a seguinte mensagem para o Sr. Bispo de Nacala Dom Alberto: «Fomos assaltados esta noite, acho a partir das 21 horas. A irmã Maria (de Coppi) foi logo matada com um tiro na cabeça. As outras conseguiram fugir, assim como as últimas meninas que estavam no Lar. Todos os rapazes do lar já tinham saído. Os padres foram “poupados”. Estamos a organizar o enterro da irmã e procuramos sair de Chipene. Tudo foi queimado e ainda está a arder». (foto é do arquivo Vat news)
set 06 2022
DIARREIA
Quase todo mundo já passou pela situação e sabe o quanto é desagradável: a vontade é incontrolável e não dá coragem de ficar longe de um banheiro. Embora existam inúmeras doenças ou situações capazes de provocar diarreia, a maior parte dos quadros agudos tem origem infecciosa, ou seja, é uma reacção do organismo contra bactérias, vírus, parasitas, toxinas. Os agentes podem ser transmitidos por bebida ou comida contaminada, ou ainda de pessoa para pessoa, por hábitos inadequados de higiene. Enfim, a diarreia e o aumento de volume das fezes, diminuição na consistência ou frequência das evacuações. CAUSAS A diarreia pode ser causada por inúmeros factores, sendo os mais frequentes são: Infecções por vírus e bactérias; Uso prolongado de medicamentos; Alergias alimentares; Distúrbios intestinais. SINTOMAS Dor abdominal em cólicas; Suor e frio; Febre; Enjoos e vómitos; Sensação de peso no abdómen; Sensação de esvaziamento incompleto do intestino; Presença de sangue ou pus nas fezes. Prevenção Construir e usar correctamente as latrinas; Lavagem constante das mãos apos o uso de latrina e, antes de comer; Lavar bem os alimentos antes de consumir; Higiene pessoal Ferver a água antes de beber; Lavar bem as verduras e mariscos; Beber muitos líquidos.
set 05 2022
Partilhar a responsabilidade pela nossa missão comum
A sinodalidade está ao serviço da missão da Igreja, na qual todos os membros são chamados a participar. Uma vez que somos todos discípulos missionários, como é que cada baptizado é chamado a participar na missão da Igreja? O que impede os baptizados de serem activos na missão? Que áreas da missão estamos a negligenciar? Como é que a comunidade apoia os seus membros que servem a sociedade de várias formas (envolvimento social e político, investigação científica, educação, promoção da justiça social, protecção dos direitos humanos, cuidados com o ambiente, etc.)? Como é que a Igreja ajuda estes membros a viverem o seu serviço à sociedade de forma missionária? Como e por quem é feito o discernimento sobre as escolhas missionárias? Diálogo na igreja e na sociedade O diálogo exige perseverança e paciência, mas também permite a compreensão mútua. Até que ponto as diferentes pessoas da nossa comunidade se reúnem para o diálogo? Quais os lugares e os meios de diálogo no seio da nossa Igreja local? Como promovemos a colaboração com dioceses vizinhas, comunidades religiosas da nossa área, associações e movimentos laicais, etc.? Como abordamos as divergências de visão ou os conflitos e dificuldades? Quais as questões particulares na Igreja e na sociedade a que temos de prestar mais atenção? Que experiências de diálogo e colaboração temos com crentes de outras religiões e com as pessoas que não têm filiação religiosa? Como é que a Igreja dialoga e aprende com outros sectores da sociedade: as esferas da política, da economia, da cultura, da sociedade civil e das pessoas que vivem na pobreza? Ecumenismo O diálogo entre cristãos de diferentes confissões, unidos pelo único baptismo, tem um lugar especial no caminho sinodal. Que relações têm a nossa comunidade eclesial com membros de outras tradições e confissões cristãs? O que partilhamos e como caminhamos juntos? Que frutos colhemos do nosso caminho em conjunto? Quais as dificuldades? Como podemos dar o próximo passo para caminharmos uns com os outros? Autoridade e participação Uma Igreja sinodal é uma Igreja participativa e co-responsável. Como é que a nossa comunidade eclesial identifica os objectivos a prosseguir, a forma de os alcançar e os passos a dar? Como é exercida a autoridade ou a governação no seio da nossa Igreja local? Como pomos em prática o trabalho de equipa e a co-responsabilidade? Como e por quem são orientadas as avaliações? Como se tem promovido os ministérios laicais e a responsabilidade dos leigos? Tivemos experiências frutuosas de sinodalidade a nível local? Como funcionam os órgãos sinodais a nível da Igreja local (Conselhos Pastorais nas paróquias e dioceses, Conselho Presbiteral, etc.)? Como podemos promover uma abordagem mais sinodal na nossa participação e liderança? Discernimento e decisão Num estilo sinodal tomamos decisões através do discernimento do que o Espírito Santo está a dizer-nos através de toda a nossa comunidade. Que métodos e processos utilizamos na tomada de decisões? Como podem ser melhorados? Como é que promovemos a participação na tomada de decisões no seio de estruturas hierárquicas? Os nossos métodos de tomada de decisões ajudam-nos a escutar todo o Povo de Deus? Qual a relação entre consulta e tomada de decisões? E como as pomos em prática? Que instrumentos e procedimentos utilizamos para promover a transparência e a responsabilidade? Como podemos crescer no discernimento espiritual comunitário? Formar-nos na sinodalidade A sinodalidade implica receptividade à mudança, formação e aprendizagem permanente. Como É que a nossa comunidade eclesial forma pessoas mais capazes de “caminharem juntas”, de se ouvirem umas às outras, de participarem na missão e de se empenharem no diálogo? Que formação é dada para fomentar o discernimento e o exercício da autoridade de forma sinodal? O website do Sínodo apresenta algumas sugestões sobre a forma de colocar estas questões a vários grupos de pessoas de forma simples e envolvente. Cada diocese, paróquia ou grupo eclesial não deve ter como objectivo fazer a cobertura de todas as questões, mas deve discernir e concentrar-se nos aspectos da sinodalidade mais pertinentes para o seu contexto. Os participantes são encorajados a partilhar as suas experiências da vida real com honestidade e abertura e a reflectir em conjunto sobre o que o Espírito Santo estará a revelar através do que partilham uns com os outros. Uma palavra de gratidão Uma palavra sincera de gratidão a todos aqueles que organizam, coordenam e participam neste Processo Sinodal. Guiados pelo Espírito Santo, nós somos as pedras vivas com as quais Deus edifica a Igreja que deseja para o terceiro milénio (1Pd 2,5). Que a Santíssima Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja, interceda por nós, ao percorrermos juntos este caminho que Deus nos propõe. Que os seus cuidados maternais e a sua intercessão nos acompanhem, como no Cenáculo de Pentecostes, na construção da nossa comunhão uns com os outros e na realização da nossa missão no mundo. Com ela, dizemos juntos como o Povo de Deus: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38).
set 05 2022
Sagrada Escritura, Tradição e Magistério
Vamos reflectir sobre a relação existente entre a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério. Para melhor percebermos a importância deste tema, importa começarmos, em jeito de introdução, por fazer a seguinte pergunta: qual é o fundamento da fé e da moral cristã? Para alguns, o fundamento da fé e da moral cristã é unicamente a Bíblia (Sola Scriptura), interpretada livremente por qualquer pessoa (método do exame livre). Para a Igreja Católica não é assim; a fé e a moral têm três bases ou pilares, a saber: a Sagrada Escritura, a Tradição Apostólica e o Magistério da Igreja (cf. DV. 21). Ou seja, sem negar a grande importância da Bíblia, a Igreja ensina que, além desta, é necessário também ter em conta a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério para a fundamentação da doutrina e da moral da mesma. A nossa reflexão de hoje, portanto, tem, como objectivo, falar de cada uma destas realidades e mostrar a estreita relação que existe entre elas. Visto que nos encontros anteriores falamos abundantemente da Sagrada Escritura, hoje vamos dar particular atenção à Tradição e ao Magistério. Muitas são as passagens do Novo Testamento que nos revelam a importância da Tradição oral e do Magistério. Escutemos: “Muitas coisas tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade…” (Jo 16,12). “O que ouvistes de mim, em presença de muitas testemunhas, confiai-o a homens fiéis, que sejam capazes de ensinar ainda a outros”(2 Tm 2, 2). “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus…” ( Mt 16, 18-19). “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei que depois de minha partida se introduzirão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que irão proferir doutrinas perversas, com o intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai!” (At 20,28-31). A Tradição Apostólica A palavra “tradição” vem do latim traditio que significa “entrega”, ” “transmissão”. Ela pode indicar tanto o “processo” de transmitir quanto o “conteúdo” transmitido. Por sua vez, a palavra “apostólica” é um adjectivo qualificativo que, primariamente, diz respeito a algo que procede dos apóstolos, ou seja, do grupo dos seguidores de Cristo, composto pelos doze Apóstolos. Por Tradição Apostólica, portanto, entende-se a transmissão oral, pelo exemplo e pelas instituições daquelas coisas que os Apóstolos ou receberam das palavras, da convivência e das obras de Cristo ou aprenderam por inspiração do Espírito Santo (Cf. CIC § 76; cf. DV 7). Enquanto tal, a Tradição Apostólica distingue-se da Sagrada Escritura porquanto esta última é a transmissão “por escrito” feita por “aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação” (Cf. CIC § 76). A Tradição Apostólica distingue-se igualmente das “tradições” teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais surgidas ao longo do tempo, nas Igrejas locais. Estas últimas são expressões adaptadas da Tradição Apostólica aos diversos lugares e às diferentes épocas, sob a orientação do Magistério da Igreja (Cf. CIC, §83). As leituras que acabamos de escutar mostram-nos que a própria Bíblia fala-nos da necessidade, existência e importância da Tradição Apostólica, enquanto transmissão oral da Palavra de Deus feita pelos apóstolos. Nesta primeira leitura, tirada do Evangelho segundo S. João, Jesus, numa das últimas conversas com os Seus discípulos, deixa claro que tinha ainda muitas coisas por ensinar. Entretanto, dada a incapacidade dos Apóstolos de suportar tais ensinamentos, Ele mandaria o Espírito Santo para que este os transmitisse ao longo dos tempos (cf. Jo 16,12). A Igreja entende que aquelas verdades que os Apóstolos foram aprendendo do Espírito Santo são as que, em parte, foram formando a Tradição Apostólica. O mesmo Evangelista João atesta a necessidade de uma transmissão oral da Palavra de Deus, de geração em geração, quando afirma que “Jesus fez, diante dos seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome”(Jo 20,30s) e que “Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam”(Jo 21,25). Nos dois textos acima citados, o Evangelista João deixa claro que nem todas as coisas que Jesus ensinou aos seus discípulos, com actos e palavras, encontram-se na Bíblia. Aquilo que os Apóstolos e os evangelistas escreveram é só o essencial da mensagem de Jesus. Por isso, não podemos reduzir a pessoa e os ensinamentos de Jesus àquilo que foi escrito sobre Ele, porque a sua mensagem é muito mais do que isso, é Ele próprio. Jesus é mais do que um livro ou um conjunto de livros. Do que acima dissemos, é lógico concluir que muitas outras coisas a respeito da pessoa e dos ensinamentos de Jesus continuaram a ser transmitidas oralmente de geração em geração. Aliás, é o que nos mostra S. Paulo em 2Tm 2,2, ao recomendar vivamente a Timóteo para que aquilo que ele “ouviu” do próprio Paulo, na presença de muitas testemunhas, o confiasse a homens fieis, capazes de, por sua vez, ensiná-lo a outros homens. Estamos aqui, claramente, diante da tradição oral do depósito da fé. Muitas outras passagens bíblicas atestam a existência da transmissão oral da Revelação, de geração a geração. S. João, na sua segunda e terceira epístolas, diz que há ensinamentos que gostaria de confiar aos seus interlocutores de viva voz, e não por escrito: “Embora tenha muitas coisas a vos escrever, não quis fazê-lo com tinta e papel. Mas espero estar convosco e vos falar de viva voz…” (2Jo, 12; cf. 3Jo, 14). S. Paulo,
set 05 2022
A PAZ EM MOÇAMBIQUE 47 ANOS APÓS A INDEPENDÊNCIA
Depois da aprovação da primeira Constituição multipartidária da história de Moçambique e já vencidos mais de trinta anos, o país continua a enfrentar grandes desafios no processo da construção democrática. Entretanto, não só as instituições que resultaram das reformas políticas no âmbito da nova Constituição têm demonstrado fragilidades no seu funcionamento, como também as regras do jogo político têm sido marcadas por uma certa instabilidade, consubstanciada, por exemplo, nas sucessivas revisões da legislação eleitoral (Forquilha, 2020). Osúltimos índices de democracia, Moçambique tem registado recuos significativos na sua pontuação, o facto reside depois de ter passado de regime híbrido para regime autoritário segundo apontam os relatórios (The Economist, 2019), o País passou da posição 116, em 2018, para a posição 120, em 2019 (The Economist, 2020). No que se refere à situação económica, a trajectória do País tem sido marcada por crises e contradições, resultantes, essencialmente, das estruturas sociais de produção, das dinâmicas de dependência e do sistema social de acumulação (Castel-Branco, C.N., 2020a). No plano social, apesar de ter havido uma ligeira melhoria em termos de bem-estar e uma redução percentual da taxa de pobreza de consumo em 5 % entre 2008/2009 e 2014/2015, de acordo com os dados do Inquérito aos Orçamentos Familiares (IOF) 2014/2015, análises indicam que ainda persistem diferenças significativas regionais e entre os espaços urbano e rural ao longo do País. Com efeito, «a redução da pobreza no período entre 1996/1997 e 2014/2015 foi substancial tanto nas áreas rurais como urbanas, mas a redução foi mais acentuada nas áreas urbanas entre 2008/2009 e 2014/2015. De acordo com Forquilha (2020) na sua obra “desafios de Moçambique” desde o fim da guerra civil, em 1992, o País registou alguns avanços em matéria de pacificação e crescimento económico, particularmente nos anos 1990, também não é menos verdade que esses avanços têm sido acompanhados por recuos significativos. Com efeito, desde os sucessivos conflitos eleitorais, passando pela crise das dívidas ocultas até às crises político-militares recorrentes, a realidade parece contradizer o discurso da “história de sucesso” e sobre tudo quando falamos do verdadeiro contexto da Paz em Moçambique na actualidade. Portanto, identificar, analisar e debater essas crises e propor pistas para soluções com vista a contribuir para o desenvolvimento económico, social e político de Moçambique, constituem os nossos desafios se realmente queremos um Moçambique em Paz. As crises da paz em Moçambique A primeira crise que afugenta a paz no nosso País refere-se às chamadas dívidas ilícitas, contraídas em 2013 e 2014 com garantias soberanas do Estado e sem conhecimento do Parlamento, as quais agravaram a crise financeira do País e cristalizaram a fragilidade das instituições criadas no contexto da construção democrática, cujos efeitos socioeconómicos ainda continuam a fazer-se sentir nas famílias moçambicanas, particularmente as mais desfavorecidas. As dívidas ilícitas possuem, ainda, contornos judiciais de natureza política e complexa, consubstanciadas em conflitos e clivagens no seio das elites da Frelimo, conforme ilustra a audição do antigo Presidente da Frelimo e da República, Armando Emílio Guebuza, pela Procuradoria Geral da República, a 30 de Setembro de 2020, no âmbito do processo autónomo 536/11/P/2019. A segunda crise queafecta no nosso país e conduz à falta de paz é a prevalência de conflitos armados nas regiões Centro e Norte de Moçambique, nas províncias de Manica e Sofala e Cabo Delgado,respectivamente. Embora se trate de conflitos armados de natureza diferente, eles reflectem os desafios do processo da construção do Estado moçambicano no período pós-independência com as suas contradições e clivagens de ordem social, política e económica e graves implicações em termos de crise humanitária, fixada no aumento do número das populações deslocadas, que fogem das zonas assoladas pela violência armada. Isso notabiliza-se nos sucessivos acordos assinados entre o Governo e a Renamo, desde 1992. A terceira crise que risca a paz em Moçambique diz respeito à pandemia da COVID-19, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em Março de 2020. De origem e natureza complexas, a pandemia da COVID-19, na realidade, constitui um “facto social total” (Mauss, 2007), na medida em que tem implicações nas diferentes dimensões da vida em sociedade, nomeadamente política, económica, social e religiosa. Com efeito, aquilo que inicialmente se apresentava como um mero problema de saúde pública, rapidamente se transformou num desafio transversal. Àsemelhança das outras crises acima mencionadas, a crise sanitária no contexto da COVID-19 também veio expor a fragilidade das instituições do País, nomeadamente sanitárias, económicas, políticas e sociais, bem como as vulnerabilidades de uma economia virada para a acumulação extractiva e porosa de capital, com enormes fraquezas nos serviços públicos e nas condições de trabalho e de vida, incapaz de lidar com esta crise e com as medidas sanitárias necessárias. E como se constrói a Reconciliação? Emnenhuma parte do mundo a reconciliação se faz com discursos. Ela é feita comacções concretas do ponto de vista do processo de construção das instituições. Com efeito, enquanto as instituições do País não forem um espelho da heterogeneidade de Moçambique; se elas não tomarem em conta as ricas diferenças na maneira de pensar e olhar para o País, independentemente da crença religiosa, opinião política ou cor da pele e continuarem a servir interesses de grupos; e se elas não promoverem a inclusão política, económica e social, dificilmente Moçambique terá soluções duradouras para a violência recorrente e o discurso da chamada paz efectiva e reconciliação será uma mera retórica dos políticos. E como ter a verdadeira paz com tantas crises e fragilidades, num país onde cerca de 90% da população vive abaixo de 1 USD por dia? Achegar Tiodósio Matias
set 05 2022
A imposição da justiça social exige opções difíceis
No que diz respeito à acção de cidadania, a nossa sociedade moçambicana nota-se cansada e abatida. Os cidadãos que guardam a esperança de um futuro melhor prometido há 47 anos, mas que nunca chega, parecem cansados de lutar pela justiça social, pior quando a cada dia os seus ouvidos são escandalizados por relatos de crimes daqueles a quem cabe o dever de proteger os outros. É que por vezes, a força da injustiça é superior à força de vontade para contradizê-la. Aliás, quando, quem assume o poder é o primeiro a lesar aqueles a quem devia servir, parece mais fácil, para quem devia ser servido, render-se. A tentação de maior parte dos jovens moçambicanos, hoje, que assistem ao assalto impiedoso à sua esperança de emprego, de habitação, de educação, de saúde, etc., é, infelizmente, resignar-se. Auto serviço e corrupção do país Há alguns anos que o nosso país ganha uma nova forma de ser governado assente no auto-serviço e na corrupção. Hoje, enquanto por um lado as condições de sobrevivência e de enriquecimento beneficiam a quem tem poder político, por outro, a corrupção se instala e se solidifica nas instituições do Estado. Não é novidade, infelizmente, que o acesso ao emprego é selectivo; não é também novidade que os altos funcionários do Estado ganham os extraordinários e mais altos salários e bonificações da função pública. Não é igualmente novidade que o poder é usado para influenciar e corromper, manipulando o sistema a favor de determinadas pessoas com interesses em manter os seus benefícios. O que devia ser de todos e para todos serve apenas à família de alguns. Os desafios que caracterizam as circunstâncias que atravessamos parece indicarem que a honestidade perdeu a batalha e ganhou espaço e vitória a desonestidade, a delinquência. Pior é que essa delinquência é encabeçada pelas autoridades que deviam combatê-la. Hoje, contra toda a esperança de um dia construirmos um país de justiça social onde todos sintam orgulho de viver, a nova forma de viver baseada em quem tem mais força, ganhou espaço. Em consequência, como imitação dos demais a quem governa na base de sabotagem ao Estado, os mais pequenos funcionários do Estado seguem o exemplo. Os militares deixaram de proteger o país e começaram a assaltá-lo. Esta é a realidade que nos agride os ouvidos a partir de Cabo Delgado; a polícia deixou de proteger as pessoas e passa a roubá-las. É o que agora sabemos sobre o envolvimento da polícia nos sequestros e nos assaltos por todo o país; os enfermeiros deixaram de tratar os doentes e prevenir a morte de seus concidadãos e agora a provocam com sua negligência. É a reclamação dos pacientes nos maiores hospitais do país onde a corrupção e a negligência sobrepõem-se ao direito à saúde que o indivíduo tem; os políticos deixaram de servir o país e se servem do país roubando e endividando-o para viabilizar seus interesses, os de seus amigos e de seus filhos. Este é o escândalo que nos é dado a partir do julgamento das dívidas ocultas. Qual pode ser a nossa esperança neste cenário como cidadãos? Mais do que uma esperança passiva, o que devemos fazer para mudar? Os poderosos controlam a vontade dos fracos Na situação em que nos encontramos é fácil ver que os espertos abocanham as riquezas. Com as riquezas que possuem e com o poder político que assumem também controlam as vontades dos mais fracos. Controlam os mais compráveis para os ajudar a viciar os votos, cujos resultados os mantêm no poder; controlam a polícia que protege os seus bens ilícitos, controlam os militares contra quem se atrever a reclamar; controlam jovens cobardes que vivem só para si mesmos, etc. Parece tudo perdido, mas na realidade a nossa única esperança para libertar o nosso país dessa postura delinquente e criminosa é agir como cidadãos normais. Quando digo cidadãos normais refiro-me àqueles que não se contentam com a sua casa bonita e o seu pouco dinheiro e pensam que podem ficar alheios às questões políticas; refiro-me àqueles que, movidos pelo patriotismo e pelo amor a sua liberdade, fazem valer o ideal de um país de justiça social. Infelizmente, neste nosso cenário em que o nosso país é praticamente controlado pela vontade dos políticos que são ao mesmo tempo os mais ricos, produzem-se três tipos de cidadãos: os primeiros são os que acham que o que a política faz não lhes interessa. Têm emprego fora das instituições do Estado e pensam que não se podem meter na política porque não é esta que os alimenta; os segundos são aqueles que, para sobreviverem, devem viver à sombra dos políticos e dos mais ricos. A sua fonte de sobrevivência é normalmente a bajulação. Por isso, para estes, patriotismo é concordar e defender quem exerce o poder, não importa que esteja certo ou errado; os terceiros, que considero os piores, são os desistentes. Lutaram pelo bem-estar e pela justiça social, por vários anos, esperaram que as coisas melhorassem, mas como a injustiça e a delinquência estão enraizadas nas instituições do Estado e sua remoção não é fácil, renderam-se. Juntaram-se aos primeiros ou aos segundos. Não desistir na luta contra a injustiça A pior postura de um cidadão é desistir de lutar contra a injustiça do seu país. Entristece-me ver a desistência de muitos jovens académicos cuja crítica era esperança na luta para um Moçambique justo. A cada ano vejo jovens académicos pararem de mostrar o seu descontentamento com o modelo de governação e embarcarem para a bajulação como modo fácil de sobrevivência. O nosso futuro é que fica comprometido porque nenhum país de cobardes consegue implantar a justiça. Se cada um se interessar pelo trabalho que lhe garante sobrevivência singular, estaremos a vender o país. Num país empobrecido como o nosso, a indiferença dos cidadãos é criminosa na mesma proporção que a bajulação. Do mesmo modo que no passado, jovens que partiram de suas famílias para a guerra sem saber se iriam voltar, embarcaram para a luta de libertação nacional com
set 05 2022
O corpo no espaço litúrgico
O nosso SER é o melhor instrumento de comunicação do mundo. Nenhum equipamento, por mais sofisticado que seja, seria capaz de substituir o nosso SER no processo comunicacional. A comunicação interpessoal ou grupal é presencial, tem calor humano e é afetiva. A afetividade estava presente em toda a pedagogia de Jesus, quando Ele estava no meio do povo. Foi assim com Zaqueu, com Lázaro e suas irmãs, com o cego de Jericó, com as criancinhas, etc. O SER de cada um é concreto e abstrato. Concreto porque é visualizável, palpável e materializado. Abstrato porque é composto de sentimentos, emoções, manifestações espirituais, pensamentos, memórias, inteligências e capacidade de criar. Ao comunicarmo-nos devemos agir combinando o nosso ser concreto com o ser abstrato. Quanto mais conseguirmos agir assim, mais aperfeiçoado será o nosso desempenho e mais qualificada será a nossa comunicação. O equilíbrio entre o concreto e o abstrato do nosso ser possibilita alcançarmos os objetivos desejados no ato comunicacional. O corpo é a manifestação concreta do SER, a exteriorização do que somos e o cartão de visita; é a morada do espírito, da essência humana e o sacrário da mente. O corpo deve estar sempre bem cuidado, asseado, são e em forma. A saúde do corpo é importante para a saúde do espírito, assim como a saúde do espírito é importante para a saúde do corpo. Um não pode viver dissociado do outro. Para que o corpo comunique bem, é preciso: Estar livre das tensões – Desinibir e naturalizar os movimentos do corpo, comunicando através de gestos equilibrados. As tensões vêm da insegurança, do mau humor, da constante vigilância do poder, do policiamento para mascarar as deficiências e não admiti-las para superá-las, do estresse provocado pelo trabalho excessivo em detrimento do lazer. Ser bem colocado em eixo – para que tenha presença marcante no ambiente, numa postura de ânimo e firmeza: Ombros levantados; Tórax aberto (peito para frente. Ele faz parte da nossa caixa de ressonância); Cabeça erguida, olhando para todos os lados, quando estiver comunicando em público, em movimentos moderados e equilibrados; Mãos e braços que se movimentam livres e harmônicos. No caso dos proclamadores da Palavra e comentaristas, não há necessidade de muitos movimentos com os braços. Porém, estes devem estar relaxados. Pernas e pés firmes e apoiados. “Inteligir” (conscientizar: ter noção), o mais possível, todos os gestos – para que sejam expressão consciente e voluntária, no contexto da comunicação que se quer fazer. A comunicação gestual é feita de movimentos soltos, harmônicos e tranquilos, combinando a fala do corpo com a fala da mente e a oralidade; Valorizar a comunicação facial – toda a região que está acima dos olhos tem forte poder de comunicação. O bom comunicador trabalha com a expressão facial, interpretando o significado do que fala com os músculos do rosto. Olhar olho no olho no momento da comunicação interpessoal ou grupal é fundamental para chamar a atenção, envolver os ouvintes e engajá-los no que estamos dizendo. Muitas platéias se dispersam por falta de comunicação gestual e facial dos expositores. A fala sem o auxílio destes recursos se torna monótona. Jesus Cristo conseguia concentrar multidões que O ouviam o dia inteiro, a ponto de escutá-lo com fome, no final de uma tarde. Sua comunicação atraía; Utilizar as mãos – como importante instrumento de comunicação, no auxílio da fala. Há comunicadores confusos na hora de falar em público porque não sabem o que devem fazer com as mãos. Ao invés de as utilizarem no reforço do que está sendo dito, atrapalham-se em gestos desconexos em relação ao acto da comunicação: colocando as mãos nos bolsos, apertando-as umas nas outras ou usando muletas para ocupá-las. Dão a impressão de que as mãos estão atrapalhando. Quase sugerem a amputação. Esse é o tipo de comunicador “maneta”, embora possua as duas mãos. No caso dos leitores, é aconselhável que as mãos fiquem sobre o texto. Quando for olhar para a assembleia, coloque o dedo indicador sobre o texto, evitando, assim, perder-se na leitura; Os olhos – devem estar sempre atentos à leitura. Nos pontos finais, ou seja, nas pausas, olhar para a assembleia. Evite olhar apenas para um dos lados. Caso tenha dificuldades de olhar para a assembleia, no meio da leitura, faça isto no início, quando estiver dizendo “Leitura do Livro do Profeta Isaías” (por exemplo) e no final, ao dizer “Palavra do Senhor”; Cuidar da aparência – cabelos penteados (quem ainda os possui), barba bem feita (ou bem arrumada e asseada, para os que a têm), fossas nasais limpas (inclusive, para facilitar a respiração), ouvidos higienizados, roupa adequada ao nível social do ambiente (limpas, bem passadas, e devidamente arrumadas sobre o corpo: gola, botões, etc.). Isso é sinal de auto-estima. Kant de Voronha
set 05 2022
O lugar de permanência após a circuncisão masculina
‟Namuhakwa” e ‟Nvera” Do lugar das operações, os circuncidados são conduzidos para um sítio, onde passam a noite daquele dia, e dias e noites seguintes, ao relento, deitando-se de costas (para dormir) num chão varrido e relativamente limpo, com as cabeças viradas para a fogueira, para evitar que o calor do fogo aqueça as coxas e (coza) o ferimento no órgão viril. A este sítio chama-se ‟Namuhakwa”. Permanecem aqui, sem comer nem beber toda a noite e todo o dia solar seguinte, até cerca das 17 horas deste dia, hora em que tomam algum alimento, começando pela água, sorvida de uma cova artificial no solo, através de um pequeno tubo de palha. Este processo vai continuar durante vários dias, até ao dia em que se tomar o primeiro banho, o que vai acontecer só após arelativa cicatrização da incisão. A partir de outras tarefas, os padrinhos preparam pequenos paus com forquilhas com os quais prendem as pernas dos afilhados, por altura dos joelhos, para que, sobretudo durante o sono, a ferida não entre em contacto com as coxas, evitando assim a possível infecção da mesma. Andam nus até à cicatrização completa das feridas, após o qual põem algum pedaço de tecido. Transferem-se, depois, para uma construção tosca, denominada ‟Nvera”, um barracão não maticado e mal coberto de capim, deixando entrar a jorros a água da chuva, nos dias em que esta resolve visitá-los, mesmo que não seja torrencial. Aqui cada iniciado toma um nome, à sua escolha, de um animal, de um Pássaro, de uma árvore ou de qualquer objecto, pelo qual deve ser chamado durante o período de permanência no mato, deixando, assim, aquele que recebera da família e conhecido na comunidade de onde veio. Alguns Conselhos morais – ‟Havara aluwa, munvare mwìl’awe!”. – Quando o leopardo estiver feroz, apanhai-o pela cauda. Esta é uma das inúmeras canções que se entoam e os rapazes repetem, podendo durar tempo indeterminado, para depois o mestre explicar que o leopardo aqui referido é o capim da machamba, do qual não se deve fugir, mas pegá-lo pela ponta e arrancá-lo com a enxada, para as plantas alimentares poderem crescer à vontade. Metáfora popular, para incutir nos jovens a coragem e o espírito de trabalho, sobretudo o de produção agrícola. ‟Naxirakaletthiká, tthiká! Ohiyeonthéiha!”. Ó deficiente, volta para trás, volta para trás! Não venhas provocar riso em nós! A esta canção, aparece um individuo, simulado de portador de deficiência física: lábios revirados para fora e seguros por um fio quase invisível; cabelo desgrenhado e esbranquiçado com farinha ou cinza, andar desajeitado; apoiando-se a um cajado. Figura estranha e de aspeto repelente, perante a qual ninguém deve rir. Isto serve para ensinar aos circuncidados que, na vida real, vão-se deparar com situações idênticas a que está neste momento em frente deles, com a diferença de que esta de hoje é simulada. Então, não se riam. Enkhuma, enkhumaenikonayòmi! – Tudo o que acontece só me vê a mim. Canção alusiva à galinha, a que se recorre para resolver questões de vária ordem. Com isto procura-se demonstrar aos jovens que é importante a criação de aves domésticas, para que quando forem adultos também as criem, porque ‟família sem galinha é uma família pobre” – dizem os mestres abalizados na matéria de ensinamentos e conselhos. Mediante os ritos de iniciação, no barracão de que atrás fizemos menção, durante grande parte de noites, através de canções, provérbios e adivinhas seguidas de respectivas explicações, o rapaz aprendia a ser ‟homem”, aprendia os cuidados e normas a observar em relação a mulher nos seus delicados momentos de vida feminina (período menstrual, gravidez, doenças em geral, necessidades em alimentos, em roupa e em outras coisas). Era nestas circunstâncias que também se explicava aos circuncisos tudo o que se faz nos ritos de iniciação das mulheres, como prévia preparação para o casamento, pois os moços tinham idade para contraírem o matrimónio algum tempo após o regresso à comunidade, deixando de ser dependentes dos pais, já que eram adultos. Achava-se necessário o conhecimento das particularidades da vida feminina, por parte dos jovens, como prevenção, para evitar que estes cometessem inconveniência contra as privacidades das suas futuras esposas. É através de ritos de iniciação que se aprende e se chega ao conhecimento do mundo delicado e quão misterioso segredo do nascimento dos bebés. É ali, no mato, onde o jovem ou adolescente aprende e chega a saber como fica uma pessoa morta e o que se faz em tal circunstância, isto é, como se fecham os olhos do cadáver, como se lava o morto, como se prepara a cova para a sepultura, de que é constituída a mesma na parte interior, como se coloca nela o defunto, quem o coloca e em que posição o coloca. Por Alberto Viegas


