out 27 2021
Para quem fica a herança de acordo com a legislação?
Questão de herança A senhora Amina tem 3 filhos e divorciou-se do marido. Ela voltou para a casa dos pais que, porém, morreram de doença prolongada, depois de alguns anos. Ela permaneceu a viver na casa dos pais que foi confiada ao tio. Depois de algum tempo, o tio viajou e, para surpresa da Amina, um dia apareceu em casa um casal alegando ter comprado a casa do seu tio e que queriam tomar posse dela. Portanto, ela teve que deixar a casa dos pais porque o tio a vendeu sem o seu consentimento. Neste caso o que é que se pode fazer? A lei da família tutela o direito a conservar a herança dos pais para os filhos? (Carta assinada – Nacala) A situação apresentada pelo nosso leitor é bastante recorrente na nossa sociedade, tanto na zona urbana como na rural. Outra situação preocupante e bastante penosa é aquela em que filhos maltratam e noutras tiram a vida aos seus progenitores alegadamente porque são feiticeiros e os impedem de progredir na vida económico-financeira ou simplesmente com o intuito de ficar com os bens destes. Com esse modo de se comportar torna a velhice uma etapa da vida muito perigosa de se atingir. Uma outra situação, também bastante penosa, tem a ver com o tratamento dado às mulheres viúvas. Não raras vezes, após a morte do seu cônjuge, a família do finado, desaloja a viúva de sua casa, com a justificação de que aquela casa e bens são sua pertença esquecendo que o seu familiar, já falecido, a construiu com a sua esposa. Embora aconteçam um pouco por esse nosso vasto país, os dois factos, indicados na nota introdutória, não são objecto de análise da presente rúbrica de apoio jurídico ou aconselhamento jurídico mas sim, os instrumentos legais para a defesa ou obtenção da herança e os elementos com direito a ela! Em primeiro lugar temos que posicionar ao nosso querido leitor que, o instrumento que versa sobre a herança é a Lei das Sucessões – Lei n.º 23/2019, de 23 de Dezembro. Podemos encontrar subsídios legais noutros instrumentos jurídicos tais como a Lei da Família – Lei n.º 22/2019, de 11 de Dezembro. E então, o que é a SUCESSÃO? Segundo o artigo n.º 1 da Lei n.º 23/2019 de 23 de Dezembro – Lei das Sucessões, “diz-se sucessão o chamamento de uma ou mais pessoas a ingressar nas relações jurídico-patrimoniais de que era titular uma pessoa falecida e a consequente transferência dos direitos e obrigações desta”. É preciso lembrar entretanto que, a sucessão é deferida por lei ou por acto de vontade praticado pelo seu autor. Fazendo fé à carta do nosso leitor, podemos perceber que os pais da senhora lesada não deixaram nenhum documento indiciário da sua vontade quanto à herança. Ora uma vez que o finado não deixou nenhum testamento indicando a sua vontade quanto ao fim a se dar aos seus bens e não podendo guiar-nos por suposições, então só podemos usar a via legal (lei). E então quem pode ficar com os bens do falecido se este não deixou nenhum testamento? Se assim acontecer e por via da lei, os bens ficam com os Sucessores. E quem são esses? O n.º 1 do artigo 6 da Lei das Sucessões responde a essa questão: “Os sucessores são herdeiros ou legatários. Diz-se herdeiro o que sucede na totalidade ou numa quota do património do falecido, e legatário o que sucede em bens ou valores determinados. E então como é ordenado o chamamento dos herdeiros? A ordem por que são chamados os herdeiros, sem prejuízo do disposto na legislação apropriada quanto à adopção e ao instituto da família de acolhimento, é a seguinte: a) Descendentes e o cônjuge ou companheiro da união de facto; b) Ascendente e o cônjuge ou companheiro da união de facto; c) Cônjuge ou companheiro da união de facto; d) Irmãos e os seus descendentes; e) Outros colaterais até ao oitavo grau; f) Estado. Como pode ter notado da lista, tivemos o cuidado de destacar os primeiros elementos das alíneas a) e d). Assim, a senhora lesada está em primeiro grau das pessoas com direito à herança e o seu tio em quarto lugar. Significa isso dizer que, em termos legais a casa ou os bens dos falecidos só podem ficar com ela e só passariam para a esfera jurídica do seu tio caso esta e os outros elementos das alíneas b) e c) da lista não existissem. E mais, embora a senhora estivesse a viver numa outra casa fruto do casamento e o tio a cuidar da casa, não podia vendê-la pois, até prova em contrário, não era um dos herdeiros “primários”. Na verdade o tio da senhora, ao agir do modo como o fez, violou um dos princípios básicos da Lei 22/2019 de 11 de Dezembro – Lei da Família que, indica no seu artigo n.º 1 que “a família é o elemento fundamental e a base de toda sociedade, factor de socialização da pessoa humana” e se incumbe a cada membro o particular dever de assegurar a unidade e estabilidade próprias, assegurar que não ocorram situações de discriminação, negligência ou exercício abusivo de autoridade e velar para que sejam respeitados os direitos e os legítimos interesses de todos e de cada um dos seus membros (artigo n.º 5 da Lei da família). Entendemos que nada, absolutamente nada está perdido, e aconselhamos a senhora que inicie, imediatamente, com o Processo de Habilitação de Herdeiros, junto à conservatória próxima da sua residência. Por Dr. Armando Ali Amade
out 27 2021
46 anos depois: entre sonhos e pesadelos de um país (in) dependente
Há 46 anos ter o direito de gerir a nossa pátria foi a maior das conquistas que conseguimos com a independência Nacional. Mas uma gestão justa, inclusiva e transparente continua sendo um desafio e uma nova forma de opressão contra a qual precisamos de travar uma nova luta de independência Nacional. Ainda não estamos independentes Há alguns anos que insisto, neste espaço da Revista Vida Nova, que ainda não estamos independentes. Ou talvez, a nossa independência segue uma definição que não é a mais lógica. Numa das edições desta revista, propus que no dia 25 de Junho de 1975 tínhamos apenas, infelizmente, realizado o receio de Samora: apenas substituímos a cor da pele do nosso colono, mas a colonização ainda continua. Confesso que o meu desejo é um dia acordar e descobrir que estou enganado, ao pensar assim. Mas infelizmente, a cada dia, cada celebração de mais um aniversário da nossa independência prova que estou mais próximo da verdade do que do engano. Propus também que o que nos levou à luta de libertação era o racismo, a opressão, a discriminação, a expropriação de terra por estranhos, problemas que ainda continuam calcados na nossa pátria. Quem pode negar que estes problemas todos ainda não são do passado? Os problemas que nos levaram à luta de libertação Nacional ainda permanecem vivos na nossa sociedade de hoje. 46 anos depois ainda não conseguimos o mais básico: construir o sonho de unidade nacional. Até sobre isto enfrentamos problemas. Continuamos nos tratando diferente, discriminadamente: entre os do norte e os do centro, entre os pobres e os ricos, entre brancos, negros e os mulatos, entre os de um partido e os do outro, entre os de uma região do país e os da outra. Por razões que conhecemos, mas não queremos assumir e resolver, continuamos mais desunidos do que na época colonial. Justiça e unidade nacional O meu sonho para um Moçambique independente, que tenho certeza que também é sonho de muitos moçambicanos, tem um perfil de justiça e de unidade nacional. Sobre uma Assembleia da República infestada de deputados interesseiros, incompetentes e profundamente comprometidos com seus partidos do que com a causa do povo, o meu sonho é um dia vê-la responsável, dedicada e que se identifica com um povo sofredor, um povo que anseia pela mudança para o bem-estar. A Assembleia da República representa (ou devia representar) a soberania do povo. Como tal, deve revestir-se dos desejos e anseios desse povo representando-o no espírito e na letra. Não é idónea uma Assembleia da República como a nossa cujos deputados, alheios a realidade da pobreza do povo, legislam em benefício próprio, atribuindo a si mesmos regalias que levam a um luxo que não se adequa a realidade de pobreza do país. Sobre uma presidência da República com histórico problemático, que insiste há décadas em governar à margem da vontade popular, protegendo a corrupção e viabilizando mais os negócios da elite do que o bem-estar popular, o sonho do modelo ideal de independência de qualquer moçambicano é ver uma gestão pública justa, que atribua e distribua bens segundo as necessidades reais do povo. Para o nível de pobreza do nosso povo, a independência não pode continuar a ser uma ideia, um sonho de um futuro que nunca chega. A independência precisa de ser realizada à mesa e no tecto de cada moçambicano. Uma presidência cujo foco é endividar o país para viabilizar negócios partidários ou de grupos, não se adequa a nossa realidade como povo pobre e oprimido a séculos. Sobre o funcionamento do aparelho judiciário politizado e corrompido, o sonho que os moçambicanos arrastam desde a luta pela independência é o de haver julgamentos justos e um corpo jurídico comprometido com a verdade e com a sua ligação com a sentença. Um aparelho judiciário comprometido pelo poder político e que funciona obedecendo a um comando económico e político é discriminador e contrário ao espírito da nossa existência como povo e como Estado soberano. Uma justiça que prende pequenos, os mais pobres e protege grandes criminosos deveria pertencer a época colonial e não a esta a que chamamos de época da independência. Ainda estamos no tempo colonial Sobre a política de emprego, não há dúvidas que ainda estamos no tempo colonial. A falta de emprego, provocada pela ausência de políticas concretas para a sua promoção, aliada à corrupção, agrava a péssima situação económica dos moçambicanos. Atravessamos uma época em que o acesso ao emprego obedece a um critério criminoso. Só tem acesso ao emprego quem tiver um amigo ou familiar com influência necessária para manipular o sistema a seu favor. Outra possibilidade de acesso ao emprego é o pagamento de valores a quem possa concedê-lo. Atingimos um nível assustador no nosso país sobre corrupção no acesso ao emprego tanto que os valores a pagar para aceder a cada categoria profissional são públicos. O pagamento para o acesso ao emprego é uma prática institucionalizada no nosso país. Sem receio nem remorso, os preços para o acesso às vagas são ditos nos corredores das instituições como se de mercadoria se tratasse. Praticamente, cada candidato sabe quanto, de acordo com o seu nível académico ou profissional, deve despender para conseguir um emprego. Enquanto os políticos proliferam em discursos de combate a corrupção, nas instituições, o negócio se normaliza de forma assustadora. Não se pode dizer que este era o sonho da independência dos moçambicanos. Sobre o direito à terra para a habitação e agricultura, precisamos de dizer que estamos ainda longe de sermos independentes. Toda a gente sabe que, apesar da Constituição da República de Moçambique referir que a terra em Moçambique é propriedade do Estado e ela não se compra, todo o moçambicano sabe que na hora de procurar habitação deve comprar um terreno. 46 anos de independência depois, não há política estatal de distribuição de espaços de habitação para jovens. A falta desta política provoca uma corrida ao mercado ilegal para a aquisição de terrenos. Nesta corrida os mais prejudicados são
out 26 2021
Mãe Solteira ou Mãe Sozinha?
Em qualquer canto do planeta, existem milhares de milhões de Mães Solteiras que se posicionam de forma mais determinada e sólida, diante das suas possibilidades de escolha e responsabilidades. Mas, ao mesmo tempo, essas mulheres nem sempre se sentem confortáveis com a definição de “Mãe Solteira”. Muitas delas, por várias razões, não se identificam com o peso de Estado Civil na palavra “Solteira”. Acreditam que ser “mãe sozinha”, tem muito mais a ver com a força das responsabilidades do que com a relação amorosa com o parceiro, pai da criança. Este posicionamento, segundo a fonte, vem de um olhar voltado para uma trajectória materna mais focada na mulher e suas necessidades, cujos impactos abrangem diversos aspectos da sociedade. Marisa: ser Mãe e Pai para os filhos Muitas vezes, a conjuntura social, está na origem do grande número de mães solteiras. Porém, vários estudos indicam que as mulheres preferem seguir sozinhas, nos cuidados dos filhos, porque tiveram relacionamentos amorosos que não evoluíram por diversas razoes ou pela violência doméstica uma chaga purulenta que está aumentar na nossa sociedade. Numa conversa com Marisa, uma mãe solteira, aparece claro que não é uma escolha feita de livre vontade mas consequência de graves abusos ou mal-estar. Ela nos disse que o seu primeiro casamento não deu certo, porque era vítima de violência física e psicológica e porque viu-se obrigada a tornar-se mãe solteira. A Marisa declarou que a partir deste sofrimento, aprendeu que não é fácil desempenhar o papel duplo de mãe e pai na educação dos filhos, mas ao mesmo tempo, ela entendeu que era melhor esta situação do que insistir numa relação conturbada, evitando o pior. No fim da conversa a Marisa afirmou que as mulheres que se encontram na mesma situação como a sua são autênticas guerreiras que mostram toda a sua força para educar e criar os filhos merecendo apoio e não descriminação, como muitas vezes acontece. Mãe solteira moçambicana Houve tempos em que ser mãe solteira, no nosso país, era motivo de repúdio na sociedade moçambicana, pois essa mulher era descriminada e considerada de “má vida”. Mas com o passar do tempo já não envergonha tanto como no passado ser mãe solteira, talvez devido ao número crescente desta “nova categoria social”. De facto, hoje o que acontece na nossa sociedade é o contrário: as mulheres cultivam a necessidade de serem mães! E o homem, nem sempre é marido coluna do lar, mas simplesmente um mero fecundador porque a responsabilidade dos filhos será somente da mulher. A consequência é que parece que hoje a vergonha é não ser mãe! Mãe solteira cristã A Bíblia não aborda directamente o tema das mães solteiras, porém há muitos exemplos da interacção suave de Deus com mulheres, mães, viúvas e seus filhos. Estes exemplos e a gentileza de Deus, aplicam-se, à mãe, seja solteira, casada, viúva ou divorciada. Deus conhece cada pessoa e a sua situação, intimamente. Sabe-se, no entanto, que a Bíblia adverte e ensina que o sexo fora do matrimónio não é licito e vai trazer problemas mas, Deus, apesar disso, está sempre disposto a dar ajuda e conforto. Entretanto, muitas vezes, uma mulher encontra-se criando os seus filhos, sozinha, não por culpa própria. Infelizmente, essas mulheres, frequentemente, são também vitimas inocentes em seu mundo destroçado pela guerra e pelo terrorismo. Os maridos vão para a guerra e nunca mais voltam, abnegadamente dando as suas vidas por seus países. Se a morte de um marido deixou uma mulher criando seus filhos sozinha, não há dúvidas que Deus vai ajudar a confortá-la. É importante que a mãe solteira reserve tempo para meditar a Bíblia e para falar com Deus em oração. E o homem onde está? Paradoxalmente, a sociedade e a Igreja, nunca se lembraram de perguntar: Onde está o pai solteiro? Porquê ninguém aponta o pai solteiro? Porquê o pai solteiro também não assume as consequências? Porquê tudo tem que ser com a mulher? O pai solteiro, geralmente, é o namorado ou noivo. Muitas vezes é um pai de família que não mede as consequências e não procura administrar os seus instintos. Vezes sem conta, é o próprio patrão que não respeita a sua funcionária, a sua empregada e não pensa na felicidade dos outros. Não estamos a dizer que as mães solteiras são santas. Mas estamos a apontar um problema que tende a aumentar e cada vez mais, surgem mães solteiras adolescentes No nosso entender, tanto a sociedade, como a Igreja, precisam de compreender e ajudar. Por Judite Macuacua Pinto
out 26 2021
Diálogo e amizade social
»Aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contacto: tudo isto se resume no verbo «dialogar». Para nos encontrarmos e ajudarmos mutuamente, precisamos de dialogar… O diálogo perseverante e corajoso não faz notícia como as desavenças e os conflitos; e contudo, de forma discreta mas muito mais do que possamos notar, ajuda o mundo a viver melhor. (198). Diálogo social para uma nova cultura Alguns tentam fugir da realidade, refugiando-se em mundos privados, enquanto outros a enfrentam com violência destrutiva, mas “entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo no povo, porque todos são povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade” (199). Muitas vezes confunde-se o diálogo com algo muito diferente: uma troca febril de opiniões nas redes sociais, muitas vezes pilotada por uma informação mediática nem sempre fiável. Não passam de monólogos que avançam em paralelo, talvez impondo-se à atenção dos outros pelo seu tom alto e agressivo. Mas os monólogos não empenham ninguém, a ponto de os seus conteúdos aparecerem, não raro, oportunistas e contraditórios (200). A difusão altissonante de factos e reivindicações nos Média, na realidade o que faz muitas vezes é obstruir as possibilidades do diálogo, pois permite a cada um manter, intactas e sem variantes, as próprias ideias, interesses e opções, desculpando-se com os erros alheios. Predomina o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além. O pior é que esta linguagem, habitual no contexto mediático duma campanha política, generalizou-se de tal maneira que a usam diariamente todos. Com frequência, o debate é manipulado por determinados interesses detentores de maior poder que procuram desonestamente inclinar a opinião pública a seu favor(201). A falta de diálogo supõe que ninguém, nos diferentes sectores, está preocupado com o bem comum, mas com obter as vantagens que o poder lhe proporciona ou, na melhor das hipóteses, com impor o seu próprio modo de pensar. Assim a conversação reduzir-se-á a meras negociações para que cada um possa agarrar todo o poder e as maiores vantagens possíveis, sem uma busca conjunta que gere bem comum. Os heróis do futuro serão aqueles que souberem quebrar esta lógica morbosa e, ultrapassando as conveniências pessoais, decidam sustentar respeitosamente uma palavra densa de verdade. Queira Deus que estes heróis se estejam gerando silenciosamente no coração da nossa sociedade (202). Construir juntos O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos. A partir da própria identidade, o outro tem algo para dar, e é desejável que aprofunde e exponha a sua posição para que o debate público seja ainda mais completo. Sem dúvida, quando uma pessoa ou um grupo é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade; mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros. Com efeito, “num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos”. O debate público, se verdadeiramente der espaço a todos e não manipular nem ocultar informações, é um estímulo constante que permite alcançar de forma mais adequada a verdade ou, pelo menos, exprimi-la melhor. Impede que os vários sectores se instalem, cómodos e auto-suficientes, na sua maneira de ver as coisas e nos seus interesses limitados (203). Actualmente há a convicção de que, além dos progressos científicos especializados, é necessária a comunicação interdisciplinar, uma vez que a realidade é uma só, embora possa ser abordada sob distintas perspectivas e com diferentes metodologias. Não se deve ocultar o risco de um progresso científico ser considerado a única abordagem possível para se entender um aspecto da vida, da sociedade e do mundo. Ao contrário, um investigador que avança frutuosamente na sua análise, mas está de igual modo disposto a reconhecer outras dimensões da realidade que investiga, graças ao trabalho doutras ciências e conhecimentos, abre-se para conhecer a realidade de maneira mais íntegra e plena (204). Neste mundo globalizado, “os Mass-media podem ajudar a sentir-nos mais próximos uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. (…) Podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus”. Mas é necessário verificar, continuamente, que as formas atuais de comunicação nos orientem efectivamente para o encontro generoso, a busca sincera da verdade íntegra, o serviço, a aproximação dos últimos e o compromisso de construir o bem comum (205). Por Pe António Bonato
out 26 2021
Pneumonia
Pneumonia é uma inflamação dos pulmões que pode ser desencadeada por diferentes agentes ao nível dos alvéolos (pequenos sacos de ar) e produz sinais e sintomas respiratórias. Existem diferentes tipos de infecção pulmonar não pneumónica (incluindo bronquite aguda) que podem variar na sua gravidade. Denomina-se pneumonia quando há infecção dos alvéolos pulmonares e frequentemente infiltração do parênquima visível na radiografia ou TAC do tórax. Os alvéolos e os bronquíolos terminais ficam inflamados (“inchados”) e preenchidos com fluido, impedindo o correto funcionamento dos pulmões. Denomina-se broncopneumonia, quando o foco infeccioso e a resposta inflamatória estão localizados nos brônquios e no pulmão circundante. Causas da pneumonia A pneumonia apresenta diferentes causas, podendo ser desencadeada por agentes infecciosos ou consequência de processos alérgicos, sendo nesse caso, provocada por agentes como fumaça e produtos químicos. – Infecções virais, bacterianas e fúngicas. Frequentemente a pneumonia é associada com a gripe, sendo uma complicação grave dessa virose. Transmissão de pneumonia A pneumonia pode ser transmitida pelo: ar, saliva, secreções e ate mesmo por transfusão de sangue, no inverno, nos pêlos de nariz, os quais actuam na filtragem do ar, tem seu funcionamento comprometido aos agentes causadores da doença. Sintomas de pneumonia Tosse Produção de muco (expectoração) Falta de ar ou dificuldade em respirar Dores no tórax (peito) as quais podem ser intensificadas como uma respiração profunda Febre alta Perda de apetite Mal-estar geral e fraqueza Prevenção da pneumonia A pneumonia pode ser prevenida com a adopção de algumas medidas simples tais como: Lavar as mãos Evitar aglomerações Não fumar (o fumo facilita a penetração do agente infeccioso) Fazer a correta higienização do ar condicionado Não existe nenhuma vacina contra a pneumonia que previna todos os tipos desta infecção pulmonar. Contra o pneumococo (agente mais frequente), dispomos actualmente de duas vacinas activas apenas contra algumas estirpes bacterianas desse grupo. Por Júlia Tarrua
out 25 2021
JUBILEU DOS 25 ANOS DE VIDA SACERDOTAL DO PADRE RAFAEL BACIANO SAPATO
HOMILIA DO P. RAFAEL SAPATO POR OCASIÃO DO SEU JUBILEU SACERDOTAL JUNTO COM O SEU IRMÃO P. LOURENÇO MIQUEIAS Lichinga, 24 de Outubro 2021, XXX D.C. Ano B, Domingo das Missões I L. Jer 31,7-9, II L. Hebr 5,1-6; Ev. Mc 10,46-52 Antes de partilhar a minha reflexão sobre a Palavra de Deus neste XXX Domingo, Domingo das Missões, gostaria de estender a homenagem que prestamos a Mons. Miqueias aos vivos, isto é, a esta assembleia litúrgica que muito nos honra e encoraja com a sua presença, a começar pelo nosso Vigário Geral, P. Agostinho, o Magnifico Reitor do Seminário Filosófico Interdiocesano S. Agostinho, P. Joaquim Lopes, juntamente com o seu Vice, P. Samuel Bungueia, o Pároco da Sé Catedral, que acolhe esta celebração, P. Inácio Mole, os Sacerdotes diocesanos de Lichinga e os Missionários em Lichinga, de modo particular os últimos a ser ordenados na nossa Diocese, P. Abel e P. Isaias, o P. Francisco Alves de Nacala, as Irmãs Religiosas nativas, Missionárias ao serviço da Diocese de Lichinga e as que vieram de Quelimane (Representante das Irmãs Agostinianas, Ir. Gabriela e das Irmãs deNossa Senhora da Visitação, Ir. Celeste), as Entidades de Estado e Governo no Niassa,da Edilidade de Lichinga, e do Distrito de Chimbunila, o Professor Machona de Nampula, as delegações das Paróquias da cidade de Lichinga, Catedral, Cerâmica e Nzinge, os convidados, o coro e todas as pessoas que aqui vieram rezar conosco. O trecho do livro de Jeremias que acabamos de escutar, numa das suas passagens diz: Fazei ouvir os vossos louvores. É o objetivo desta celebração. Porque Jubileu significa Júbilo, louvor. Motivos para louvor e júbilo são muitos. Senão vejamos: O cego Bartimeu depois de ter sido curado seguiu Jesus, o meu irmão, P. Miqueias e eu próprio, depois de termos sido curados da cegueira espiritual, por Jesus, por intermédio de pessoas que ele quis que fizessem parte da nossa história, ele aceitou que lhe seguíssemos durante 25 anos. E como diz o Salmista hoje “Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião, parecia-nos viver um sonho“. Também, para nós, dizer que estamos a celebrar 25 anos de seguimento ao Senhor, parece-nos viver um sonho. Ser aceite por Jesus para fazer parte da sua companhia, sem dúvidas, é motivo de jubilo, louvor que Jeremias pede na primeira leitura deste domingo. Quantos não se emocionam quando são convidados pelo seu superior hierárquico, para integrar a sua delegação ou o seu governo? Jesus é mais que superior hierárquico, porque é Deus. No processo da cura do cego Bartimeu há alguns aspectos dignos de serem refletidos. Ele ouve Jesus a passar, grita pedindo socorro, muitos lhe repreendem, mas quando Jesus pára e manda chama-lo, chamaram o cego e disseram, “Coragem! Levanta-te, que ele está a chamar-te!“. Nós também ouvimos Jesus a passar nos locais onde estudávamos, e gritamos “Filho de David, tem piedade de nós”. Muitos nos repreenderam mas houve aqueles que nos disseram: coragem! Levanta-te, que ele está a chamar-te. Gostaria de começar por este último aspecto na nossa vocação. Houve intermediários que nos encorajaram para chegarmos ao Filho de David, sermos curados da cegueira espiritual por ele e lhe seguirmos ao longo destes anos todos. Doutro modo, não estaríamos hoje a celebrar 25 anos de sacerdócio. Estou a falardos nossos parentes, promotores vocacionais, formadores nas várias etapas, as várias pessoas envolvidas na nossa formação, os Bispos de Lichinga, nomeadamente, D. Luís, de eterna memória, D. Hilário, D. Elio, agora D. Atanásio, e fora de Lichinga, os nossos párocos, os irmãos no Sacerdócio, as Irmãs Religiosas, as comunidades cristãs, Paróquias e locais de trabalho onde passamose estamos, amigos benfeitores e conhecidos. Por todos esses queremos com Jeremias fazer ouvir os nossos louvores. Para que fim Jesus nos curou e aceitou que lhe seguíssemos por 25 anos? Responde o autor da carta aos Hebreus,no trecho que escutamos hoje: “Todo o sumo sacerdote escolhido dentre os homens, é constituído em favor dos homens nas suas relações com Deus para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados “. Os termos de referência da nossa missão são mais que claros. Durante estes 25 anos algo o Senhor fez por nosso intermédio. O Senhor, por nosso intermédio, ajudou a encorajar aqueles que precisavam de encorajamento, algumas vocações saíram desse encorajamento. Por isso tudo queremos com Jeremias soltar brados de alegria. Jubileu é também momento de pedido de perdão. Durante o retiro de preparação para esta celebração, o qual foi pregado por D. António Juliasse, Bispo Auxiliar de Maputo e Administrador Apostólico de Pemba, na Paróquia de S. António de Mbemba, Diocese de Lichinga, fizemos um profundo exame de consciência o qual nos ajudou a descobrir que parece temos mais motivos para pedir perdão ao Senhor e ao seu povo do que de louvor. O trecho da Carta aos Hebreus de hoje diz “ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados porque também ele está revestido de fraqueza“. Houve momentos que não fizemos assim, pelo contrário revelamos impaciência e intransigência. A todos aqueles que maltratamos, o que é contra a atitude de Jesus, perdão. Quando o cego Bartimeu gritava a pedir socorro de Jesus, muitos lhe repreendiam. Houve momentos que nós também repreendemos até desanimar pessoas a quem erámos supostos encorajar e animar, sorry. O cego Bartimeu quando foi chamado por Jesus, deitou a capa ou manto, o que lhe identificava como mendigo credenciado, segundo os procedimentos daquele período, gesto que revela mudança radical. Aqui há diferença conosco. Pelo facto que não foram poucos os momentos que nós quisemos recuperar a nossa capa, decepcionando e mesmo escandalizando o povo. E o Senhor em alguma parte da Escritura já advertiu: Ai daquele que escandalizar um desses pequeninos… (Mt 18,6). E nós já escandalizamos. Certamente, alguém esteja a perguntar, porquê então, assim procederam, sabendo? O autor da carta aos Hebreus já explicou: estamos também revestidos de fraqueza. Por estas situações todas nebulosas e pouco felizes, imploramos misericórdia do Senhor e pedimos imensas desculpas a todos aqueles que sofreram com
out 25 2021
Acordo Geral de Paz sem paz
Uma pergunta: o que é que o Acordo Geral de Paz (AGP) de 1992, que encerrava a guerra de 16 anos entre o Governo e a Renamo, tem a ver com o terrorismo em Cabo Delgado, ou com os ataques da auto-proclamada Junta Militar da Renamo no centro do país? Vamos tentar responder à questão. Neste mês de Outubro celebramos o 29º aniversário do Acordo Geral de Paz (AGP) assinado em Roma, a 4 de Outubro de 1992, colocando fim ao conflito armado que durou 16 anos. Celebramos esse aniversário do AGP numa altura em que o nosso país vive uma guerra na província de Cabo Delgado e uma instabilidade militar nas províncias de Manica e Sofala. Alguns leitores dirão: mas o que o AGP que encerrava a guerra entre o Governo e a Renamo tem a ver com o terrorismo em Cabo Delgado, ou com os ataques da auto-proclamada Junta Militar da Renamo no centro do país? A resposta é simples: tem tudo a ver, conforme explico a seguir. Desde que o AGP foi assinado, o nosso país nunca gozou duma paz efectiva. Em 1994, 1999, 2004, 2009, 2014 e 2019 tivemos eleições gerais e presidenciais. Nenhuma dessas eleições representou uma estabilidade política e social de Moçambique. A cada eleição seguiu-se um conflito pós-eleitoral com o maior partido da oposição, a Renamo, e não só a contestar os resultados. Na mesma senda, em 1998, 2003, 2008, 2013 e 2018 tivemos eleições autárquicas. Essas também, ao contrário do que se esperava, serviram apenas para o país passar a ter conselhos municipais – actualmente designados conselhos autárquicos – sem nenhum processo de estabilização política e social das nossas cidades. Enquanto o nosso país percorria estes 29 anos do AGP, realizavam-se eleições gerais e autárquicas e conforme referi, não houve nenhuma preocupação de construção de um Estado, ou de uma nação, de um projecto conjunto de moçambicanidade, que aglutinasse todas as sensibilidades moçambicanas. O que vimos foi o agudizar das diferenças, do ódio e da violência entre os membros de partidos políticos adversários. Ao invés da nação moçambicana unir-se ainda mais, para o aprofundamento da unidade nacional, criámos mais divisionismos e mais exclusão. Sem cumprimento do AGP, sem modernização nem investimento no exército nacional, o nosso país virou todas as suas atenções para a febre do momento: a emergência dos recursos minerais, acreditando-se que não havia mal que nos chegasse. O poder político do nosso país não imaginava que em 2017, longe do fim da guerra dos 16 anos, uma das províncias, Cabo Delgado, fosse atacada por desconhecidos, numa incursão terrorista que até 2021 desalojaria mais de 800 mil pessoas, e tiraria a vida a mais de 200 pessoas, com danos materiais ainda por quantificar – um drama humanitário sem precedentes no período pós-guerra dos 16 anos. Eu conheço a explicação da guerra de Cabo Delgado que procura colocar todos os elementos na componente externa do conflito. É verdade que várias indicações daquele conflito indicam estarmos perante um ataque terrorista. Mas também é verdade que muitas evidências do nosso percurso histórico recente indicam que internamente estavam mais do que criadas as condições para a eclosão dum conflito, sem condições humanas, materiais nem financeiras para a nossa própria defesa. Não admira, pois que passados quatro anos de conflito e insucesso das nossas forças de defesa e segurança, tenhamos precisado do exército ruandês que veio fazer em um mês o que nós não conseguimos fazer em quatro anos. Do norte de Moçambique ao centro: os ataques armados protagonizados pela auto-proclamada Junta Militar da Renamo são uma mancha no nosso Moçambique, em paz. Uma mancha completamente condenável e que era de todo evitável. Para os leitores que não se lembrem, um resumo: a Junta Militar da Renamo é um grupo de guerrilheiros dissidentes do maior partido da oposição, que contesta a eleição do actual Presidente da Renamo, Ossufo Momade. Porque é que uma contestação particular, privada, de um grupo partidário sobre um processo partidário chegou a afectar a sociedade moçambicana, no geral, e a sociedade das províncias de Manica e Sofala, em particular? Tudo isto só foi possível por estarmos num país que preza a violência, numa sociedade em que cidadãos acreditam que só a violência os pode fazer ouvir. Nada disto faz sentido, passados 29 anos de paz e 46 anos de independência nacional. Precisamos de reflectir sobre como devemos sair da actual situação em que estamos a celebrar o 29º aniversário do Acordo Geral da Paz (AGP) sem que o país esteja em paz. Estamos simplesmente sem motivos para celebrar a passagem de mais um 4 de Outubro. Com muita infelicidade! Por Dr. Thomas Selemane
out 25 2021
Para a Paz É o Diálogo que vence!
No dia 4 deste mês celebramos o 26º aniversário do Acordo Geral de Paz (AGP). Ocasião para avaliar o estado de saúde da Paz em Moçambique. Já passaram 26 anos desde que o antigo presidente da Republica Joaquim Chissano e o falecido presidente da Renamo Afonso Dhlacama assinaram o AGP no qual foi posto o ponto final da guerra civil que matou e destruiu o País desde 1977. Roma 1992 No AGP as delegações do Governo moçambicano e da Renamo assinaram em Roma 7 protocolos de entendimento depois de vários anos de conversações entre as partes. Entre outros foram concordados os critérios e modalidades para a formação e reconhecimento dos partidos políticos; os princípios para a redacção da Lei Eleitoral: os procedimentos eleitorais e o sistema de voto democrático, imparcial e pluralístico; a formação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique; a despartidarização e reestruturação das Forças Policiais e o calendário de implementação do processo eleitoral. Tudo isso foi fruto dum diálogo difícil que viu as duas partes ter que rever as suas posições para “os superiores interesses da nação moçambicana” (Comunicado em conjunto 1992). Maputo 2019 Todos sabemos que depois dos AGP de 1992 o caminho de reconciliação nacional foi ainda longo e difícil até chegarmos ao 6 de Agosto de 2019, quando Ossufo Momade, líder da Renamo, então recém-eleito depois da morte de Afonso Dhlacama, e Filipe Nyusi, Presidente de Moçambique (2015-presente) e presidente da Frelimo, assinaram o Acordo de Paz e Reconciliação de Maputo. Este acordo, o 3º de uma série de acordos de paz desde 1992 centra-se em três objectivos fundamentais: Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR). Moçambique 2021 Então podemos dizer que estes 26 anos foram marcados por contínuas oscilações entre passos dados para o alcance da paz e outros contrários. Ainda hoje assistimos a ataques violentos no centro do Pais e, mais trágica, é a situação da Província de Cabo Delgado à mercê de terroristas sem escrúpulos que continuam a destruir e ameaçar a vida de centenas de milhares de pessoas. Para encontrar a solução a este conflito o governo escolheu a via militar, coadjuvado pelos militares da SADC e do Ruanda. Porém, outra voz se levantou apelando ao Governo para considerar também a possibilidade de diálogo com os grupos armados que atuam em Cabo Delgado, assinalando que há “certos tipos de terrorismo” que acabaram através de negociações. É o antigo presidente Joaquim Chissano que lembrando a experiencia do AGP 1992 afirmou que: “Pode ser que apareça um líder desse grupo que nos ofereça a oportunidade de um diálogo que conduza ao fim” da violência armada na província de Cabo Delgado. Dialogo, é difícil mas retribui Portanto, para verdadeiramente celebrar os 26 anos do AGP, não é viável apostar exclusivamente na escolha da estratégia militar para combater os terroristas em Cabo Delgado porque a experiencia nos ensinou que o conflito com “os bandidos armados” não terminou pela via militar, mas numa mesa de negociações. E assim seria de grande valor também a abertura de canais de comunicação entre as partes envolvidas que, através a oportunidade de um diálogo, como apelou o Joaquim Chissano, se possam encontrar respostas para implementar um justo desenvolvimento e pôr fim ao sofrimento do povo inocente. BOX: Comunicado conjunto “As duas delegações manifestaram interesse e vontade de tudo fazerem para levarem a cabo um processo construtivo de busca de uma paz duradoura para o seu país e para o seu povo. Tendo em consideração os superiores interesses da nação moçambicana, as duas Partes concordaram que é necessário que se ponha de lado aquilo que as divide e que se concentre, com prioridade, a atenção naquilo que as une, com vista a criarem uma base comum de trabalho para, no espírito de compreensão e entendimento mútuos, realizarem um diálogo no qual debatam os diferentes pontos de vista. As duas delegações afirmaram estar prontas a empenhar-se profundamente e no espírito de respeito e compreensão mútuos, na busca de uma plataforma de trabalho para pôr fim à guerra, e criar condições políticas, económicas e sociais que permitam trazer uma paz duradoura e normalizar a vida de todos os cidadãos moçambicanos”. (Comunicado conjunto AGP Roma 1992). Por AB
out 24 2021
Um ministério renovado para uma Igreja missionária
“O ministério do Catequista na Igreja é muito antigo”. Com esta consideração, o Papa Francisco institui para a Igreja o ministério do catequista que, no entanto, sempre acompanhou o caminho da evangelização em todos os tempos e em todos os lugares e foi consagrado o papel do catequista missionário dentro da Igreja. O documento “Antiquum Ministerium” (AM) alarga as fronteiras da ministerialidade dentro da Igreja, colocando o ministério do catequista no horizonte de uma pluralidade de funções expressa “no serviço de homens e mulheres que, obedientes à acção do Espírito Santo, dedicaram a sua vida à edificação da Igreja” (AM,2). Ministério laical Embora o texto reconheça a actividade da catequese como um ministério enraizado na longa história da Igreja, liga-o expressamente à condição “laical”. Esta forma específica de apresentar o ministério do catequista não é neutra: falar do “ministério laical do catequista” significa associá-lo a uma condição específica do cristão, que está marcada no fundamento jurídico da codificação canónica. As citações dos documentos do Concílio Vaticano II e do Código de Direito Canónico indicam como, em geral, o motu próprio fala dos leigos com referência aos cristãos que “não são membros da sagrada Ordem” (Lumen Gentium, 31) e são qualificados por um exercício do apostolado que “possui uma indiscutível valência secular” (AM,6). A catequese é, por assim dizer, “reservada” sobretudo para aqueles que se encontram na condição canónica específica de “leigo” e definida, na sequência da Lumen Gentium 33, em termos de uma colaboração dos leigos ao apostolado da hierarquia. De facto, o documento afirma que: “Hoje em dia, em razão da escassez de clero para evangelizar tão grandes multidões e exercer o ministério pastoral, o ofício dos catequistas tem muitíssima importância” (AM, 4). Aqui surge uma pergunta: e se não houvesse escassez de clero, tal ofício teria a mesma importância? Povo de Deus Neste sentido, o documento AM parece colocar-se em continuidade com uma certa linguagem do Concílio Vaticano II e transmitir uma ideia de Igreja na qual a noção do Povo de Deus permanece marcada por uma articulação jurídica entre leigos e clérigos, que dá a estes últimos uma primazia qualitativa que se torna vinculante. Todavia, o texto do motu próprio dá também um passo em frente em relação à mesma eclesiologia conciliar no que diz respeito à natureza dos ministérios, ao seu fundamento teológico e à sua função na vida da Igreja. Fá-lo nos dois primeiros números do documento, que são apresentados como um comentário articulado do Capítulo 12 da 1ª carta de Paulo aos Coríntios, 28-31. O texto Paulino é muito mais do que uma lista de funções desempenhadas dentro da Igreja: pelo contrário, ele traça o exercício de certas tarefas dentro da comunidade a partir de carismas que são um dom do Espírito. É o Espírito, de facto, que actua através das obras dos cristãos, numa manifestação que visa o bem comum (1Cor 12,7). Esta conclusão é aprofundada na passagem sucessiva do AM, onde se encontra a outra citação do mesmo Capítulo 12 da 1ª carta de Paulo aos Coríntios 4-11. Este texto não coloca a questão de quais ministérios distribuir na Igreja e a quem, mas reconhece que o carisma, que é o fundamento dos ministérios, é um dom do Espírito e que a Igreja como comunidade é chamada a reconhecer a presença destes carismas dentro dela e a encorajar uma vocação ao ministério que é fundada no Baptismo, e portanto própria de cada cristão. Neste sentido, o motu próprio torna-se também uma progressão do Concílio Vaticano II em dar uma definição “em positivo” da condição canónica de leigo, que já não é “o cristão sem o ministério ordenado”, mas alguém a quem se pode atribuir um ministério específico, no nosso caso, o de catequista. Além do legalismo É preciso reconhecer que o Concílio Vaticano II, na sua reflexão eclesiológica sobre o Povo de Deus, “intui” um ministério baptismal, que não é necessariamente fundamentado na sacralização de uma determinação jurídica. No entanto, a construção e elaboração de um conceito e de um vocabulário adequado para dar voz à consciência teológica de uma Igreja que se reconhece como Povo de Deus e que se afirma enraizada no Baptismo, permanece, ainda hoje, algo inacabado. Isso desafia não só os teólogos mas todos os baptizados, porque envolve o mandato de toda a Igreja e a acção do mesmo Espírito que “realiza tudo em todos” (1Cor 12,6), e fundamenta a diversidade de carismas e ministérios. É por isso que os primeiros dois números do AM representam o elemento mais teologicamente relevante neste itinerário de amadurecimento eclesial. Eles explicitam, na linguagem do Novo Testamento, os fundamentos de um ministério que brota da “aspiração” à qual todos os baptizados são chamados, confirmando que os dons do Espírito são dispensados entre todo o povo de Deus. Este facto torna a ministerialidade não como algo reconhecido e promovido pelos clérigos (CIC cân. 275 §2), mas o acto eclesial de garantir a presença dos carismas dados pelo Espírito e colocados ao serviço da Missão de Deus, para a vinda do Seu Reino. Toda a comunidade está chamada ao seguimento de Cristo. Por essa razão, não se deve pensar a dimensão ministerial apenas a partir de cima, a partir de uma hierarquia. É necessário vê-la a partir de baixo, a partir dos carismas, dos serviços e dos ministérios que, com a força do Espírito Santo, vão edificando o Corpo de Cristo. Nisso, a importância dos ministérios e a sua renovação não resulta da falta de sacerdotes, mas da “renovada consciência da evangelização no mundo contemporâneo” (AM, 5). Aqui insere-se aquela “transformação missionária” que deve abraçar todas as realidades da Igreja. BOX Por conseguinte, como afirma o documento: “Receber o ministério de Catequista imprime uma acentuação maior ao empenho missionário típico de cada um dos baptizados que, no entanto, deve ser desempenhado de forma plenamente secular, sem cair em qualquer tentativa de clericalização” (Antiquum Ministerium, n. 7). Nesta afirmação, encontra-se a novidade trazida por este ministério: homens e mulheres são
out 22 2021
Missão: Igreja em saída
“Missão: ser uma igreja em saída, decididamente missionária” é o tema do 1º capítulo dos Lineamenta da IV ANP. Um apelo à reflexão sobre a realidade das nossas paróquias que são uma rede de comunidades que procuram passar de uma pastoral de manutenção para uma pastoral decididamente missionária. O texto a seguir é uma ajuda para à nossa reflexão. Igreja em saída é o refrão do pontificado do Papa Francisco desde a publicação da Exortação Apostólica “Alegria do Evangelho (AE)”. É nessa exortação que o Papa exprime as suas principais preocupações a respeito da Igreja e do mundo, e desenvolve alguns temas que têm implicação directa na dinâmica pastoral e missionária da Igreja, a fim de delinear um novo perfil eclesial. Para Francisco, a transmissão da fé não se resume num conjunto desarticulado duma imensidade de doutrinas, mas no testemunho da fé em Jesus Cristo, principalmente entre os mais pobres e fragilizados da sociedade. BI da Igreja “Igreja em saída” é uma Igreja que toma a iniciativa, sem medo de ir ao encontro dos afastados, de chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos (cf. AE 24). É um convite especial à passagem de uma Igreja auto-referencial, centrada em si mesma, a uma Igreja aberta à alteridade, porque “quem deseja viver com dignidade e em plenitude não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem” (AE 9). O papa Francisco compreendeu bem que a missão é uma questão vital da Igreja, faz parte da sua natureza. Entretanto, ele chama a atenção para o verdadeiro sentido missionário, que não se resume numa mera transmissão de doutrinas, as vezes, impostas à força (cf. AE 35), criando assim, uma separação entre os “eleitos e os não eleitos”. Na verdade, assumir um estilo missionário, é fazer que a mensagem do Evangelho “chegue realmente a todos, sem excepções nem exclusões” (AE 35), de modo que a mensagem evangélica se torne mais convincente e radiosa. Igreja: povo de Deus A Igreja é para Papa Francisco muito mais do que uma instituição orgânica e hierárquica, é sobretudo Povo de Deus em caminho, um povo peregrino e evangelizador. Isso significa que “a Igreja deve ser lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viver segundo a vida boa do Evangelho” (AE 114). O propósito do papa Francisco com o processo de retomada do conceito de Povo de Deus, à luz de uma “Igreja em saída”, é de actualizar com sabedoria um conceito que tem suas raízes na Bíblia e foi conscientemente discutido e assumido pelo Vaticano II. De facto, a Igreja precisa entender que a sua missão não é fechar-se em si mesma ou em grupos de elite, mas ir ao encontro dos que andam perdidos, das imensas multidões sedentas de Cristo. Esperança da Igreja A exortação EG do papa Francisco – entendida aqui não como um documento específico, mas como um conjunto de gestos, palavras e acções que concretizam a Igreja – se apresente como a esperança de uma primavera para a Igreja católica, a certeza que fica é que a sua novidade exortativa incomoda, e exige, tanto do Magistério, como do fiel cristão, uma mudança radical de mentalidade, à luz do Evangelho, antes que das normas e das regras doutrinais muitas vezes impostas à força. Convite de Francisco O Papa Francisco não deseja nada mais que todo o Povo de Deus possa participar da vida da Igreja, que ninguém se sinta excluído da vida eclesial, mas todos se sintam amados e acolhidos por Deus. A “Igreja em saída” é justamente uma Igreja de portas abertas, a fim de acolher e oferecer a todos o testemunho salvífico do Senhor. É uma Igreja que busca iluminar a humanidade com as luzes do Evangelho, sem condicionar a fé cristã numa confusão de obsessões e procedimentos. Igreja da Visitação Para concretizar o plano pastoral do Papa o subsídio em preparação à IV ANP, apresenta algumas propostas operativas que vale a pena recordar: a) A Igreja Católica em Moçambique é chamada a empenhar-se mais na renovação da vida pastoral, com um programa que coloque a missão em todas as iniciativas, numa verdadeira Igreja “em saída” e em “estado permanente de missão”, numa dinâmica de conversão pastoral, onde a opção missionária esteja presente como alma da vida da Igreja (AE27). b) Partindo das experiências missionárias já existentes urge ser uma Igreja em saída, Igreja da Visitação, onde todos são sujeitos de evangelização, porque ser cristão é viver em missão. c) De grande importância é a pastoral da visitação e a criação nas nossas paróquias do ministério da visitação. Este ministério é essencial e urgente porque actua directamente sobre cada pessoa, cada família, cada núcleo, cada comunidade. O contacto pessoal, feito através das visitas, possibilita, na conversa, na escuta e na oração, que cada pessoa seja evangelizada de modo muito próprio, bem especial. Outubro, mês missionário por definição, é a ocasião privilegiada para começar uma séria avaliação da dimensão missionária das nossas Comunidades que formam a Igreja local ao fim de poder reprogramar a nossa vida pastoral. BOX “Desde quando a Igreja assumiu as categorias imperiais (cf. Império Romano) até tornar-se o que é hoje, precisou fazer uma opção: pôr o essencial da fé cristã em segundo plano e priorizar o fortalecimento de suas estruturas eclesiais. Por isso, em vez de Evangelho, deu ao povo doutrina; em vez de fé, deu-lhe conceitos; em vez do “querigma” (cf. Anúncio de salvação), deu-lhe dogmas; em vez do compromisso com o Reino, acomodou-o debaixo dos seus preceitos. De tudo isso, o que restou foi um cristianismo frágil e descomprometido com a causa do Evangelho, pois, nesse modelo eclesial, o que definia um cristão católico não era a prática concreta dos ensinamentos de Jesus, à luz do Evangelho, mas “considerava-se católico quem professava visivelmente a fé, era validamente baptizado, aceitava os sacramentos e vivia sob o governo do Romano Pontífice, como vigário de Cristo na terra” (Libanio). Por AB


