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Archive for vidanova

out 22 2021

O Labirinto do amor líquido

Dizem que antigamente as pessoas se casavam verdadeiramente até envelheciam juntas. O casamento começava em casa, na família e se perpetuava na sociedade. Exemplo disso, são as várias famílias que actualmente celebram 30, 40 e ou 50 anos de casamento ou até mais. Não significa ausência de problemas durante esse período de vida a dois, mas sim capacidade de amar o outro de todo coração, na íntegra, sem parcelas. Ou seja, capacidade de governar a relação de amor, capacidade de encarar as dificuldades e desafios do relacionamento. Pelo contrário, na actualidade casa-se por conveniência: se tem dinheiro ou não, se é de família que respira bom ar ou carente. Os casamentos de hoje começam na rua e terminam na rua. O namoro nasce nas redes sociais: Whatsapp, facebook, Instagram, Twiter, etc. É um namoro muitas vezes à distância e que se faz com uma pessoa fantasma, que não se conhece, mas que produz ilusões frequentes entre jovens. Por essas vias uns já namoraram com pessoas fora da sua idade ou sendo mais velhas ou ainda mais novas. Dizia-se antes que isso provocava hérnia, mas parece que nos dias que correm as pessoas mataram todos os tabus. Por isso, crescem deficientes e as doenças estranhas nascem desordenadamente e daí se espantam dizendo: isto não acontecia antigamente. Hoje em dia muitas pessoas não querem comprometer-se. Têm medo de ter uma única mulher ou um homem para toda vida. As relações são livres, sem compromisso, sem duração, sem raízes, sem cor, sem profundidade. Portanto, são relacionamentos de máscaras, cheios de segredos, trancados com muitos códigos. E onde começam a nascer segredos dá-se espaço e lugar para o demónio sentar ao meio deles, dividi-los e começar a reinar. Emergem, então, as desconfianças, infidelidades, ciúmes, invejas, traições etc. Tudo isso vai culminar na separação inesperada. Consequentemente nascerá o labirinto do amor líquido. Nas suas incursões no mundo do pensamento, Zygmunt Bauman escreveu vários livros nos quais fala claramente do “O amor líquido”, de “tempos líquidos”, de “modernidade líquida”, de tudo que constitui o tecido social liquidamente corrompido pela contemporaneidade. No labirinto do amor líquido descobrimos “o homem sem qualidades”, de Robert Musil. Na sociedade actual, o indivíduo age por si mesmo, em seu próprio nome, sem o apoio da tradição e sem os impasses da colectividade. Corre-se, até, o grave risco de assumir o ideal de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir que decidiram um relacionamento livre/líquido. Vários relacionamentos de hoje conectam-se, mas, sem o compromisso de permanência, vemos o surgimento de uma subjectividade moderna sem qualidade, liquefeita, fútil e doentia. Nos casamentos modernos, consolidados nas redes sociais, vemos a interação, os encontros sem comprometimento que desobedecem à lei da gravidade, a ausência de peso. As relações amorosas, os vínculos familiares e até mesmo os relacionamentos em “redes”, segundo Bauman, estão se tornando cada vez mais flexíveis e volúveis. Portanto, a lei que move os relacionamentos tornou-se um objecto de consumo cada vez mais rápido, fácil e descartável. O consumidor está sempre com mais fome e sente profunda insatisfação o tempo todo. Por isso se faz o desporto sexual onde os adeptos ganham o prazer sem momentâneo. Aliás, os relacionamentos seguem a lógica das mercadorias, ou seja, se existe algum defeito, podem ser trocadas. Por outro lado, porém, não existe a garantia de que gostem do novo produto. Veio com algum defeito? Troca-se, assim ninguém sofre. No entanto, as consequências desse novo padrão de relação social fragiliza a confiança no próximo. Em outras palavras, poderíamos dizer que os relacionamentos humanos correm o risco de extinção. Vive-se de forma descartável e o importante nisso são as trocas materiais “paga-me e te dou”. No labirinto do amor líquido a procriação é facultativa porque ter filhos é um investimento oneroso. O importante é curtir a vida e curtir sem compromisso. Julga-se que para manter a finura, a elegância, o peito firme, a viola em forma é mais fácil adoptar um filho/filha, que aturar 9 meses de gestação. A família é comprada porque tudo pode ser descartável. O parentesco é onlinizado. Os encontros físicos entre membros de família começam a desaparecer porque investe-se em reuniões online, pior ainda com a desculpa do Coronavírus. Quando as relações apresentam dificuldades é só manter-se distante delas. E é nessa superficialidade que navegamos. As relações sólidas estão cada vez mais raras e mais fracas ou inexistentes. Quando aparece um problema, a relação simplesmente se desfaz, simplesmente se rompe. Não há esforços de resgate, não há recuperação. É automático efácil assim. Não se pode aquecer a cabeça a resolver problemas de relacionamento. Os padrinhos só servem para o dia de casamento milionário. Os tios são remetidos a gerir seus próprios problemas. As pessoas de hoje, no seu relacionamento, enfrentam o “medo” e imaturidade pessoal, em que não é possível conceber uma relação sólida, autêntica e estável, com um projeto futuro. Em virtude disso, o individualismo procura apenas satisfazer as necessidades pontuais com um começo e um fim. Vive-se de emoções que não podemos recordar e que nos escapam rapidamente das mãos, até desaparecer completamente. Nos chapa-cem e outros locais de convivência é notável, como aponta Bauman, comportamentos de mixofilia, que é o prazer de estar num ambiente estimulante, e de mixofobia, que é o seu oposto, ou seja, é o medo de misturar-se. Os encontros são virtuais, mais do que físicos. Tudo isso não fica impune. A sociedade materialista, nos dias que correm, preserva o seu casamento na base dos bens materiais. Homem sem dinheiro não tem valor. Mulher sem dinheiro não tem garantia de lar. E assim o amor entra em jogo de negociação. Amam-se as coisas e não as pessoas. As pessoas apenas se gostam por ter dinheiro e não por amor que brota do fundo dos seus corações. Nos casamentos actuais as pessoas pensam que o valor do casamento depende da vida estável dos cônjuges: uma economia altamente estável e um emprego apreciável. Os desempregados não podem casar? Quem nos garante que os ricos têm o melhor casamento do

out 22 2021

Apocalipse para nós

No texto abaixo apresentamos o resumo final da mensagem do Apocalipse de João.   Tirar o véu dos olhos, da Bíblia e da história: O povo está impaciente e diz: “Até quando, Senhor?” (Ap 6,10). Se Deus é o dono do mundo, como Ele permite esta perseguição tão demorada? O Apocalipse tira o véu dos olhos e aponta os sinais da vitória de Jesus. Mostrando “as coisas que devem acontecer muito em breve” (Ap 1,1), tira o véu da história e situa a perseguição dentro do conjunto do plano da Salvação (Ap 4,2.8; 5,10; etc.).   Deus Pai, Juiz Supremo, Senhor do Tempo e do Espaço, Defensor da vida: Perseguidos pelo Império, os cristãos estão morrendo. A mensagem central do Apocalipse é a fé na ressurreição (Ap 1,17-18). O fundamento desta fé é a certeza de que Deus é o Criador do céu e da terra, Senhor da vida e da morte (Ap 11,17-18). A ele nada é impossível.   Jesus Cristo, Vencedor da morte, Defensor do povo, Senhor da História: Jesus é o irmão mais velho, aquele que, pela entrega de si, resgata seus irmãos perseguidos (Ap 5,9). Ele é o Defensor do povo (Ap 12,10). Jesus tornou-se o Senhor da história (Ap 5,7).   Perseguição e martírio: Perseguição e sofrimento, insegurança, medo e perigo de morte, falta de horizonte, cansaço, eram o pão de cada dia do povo das comunidades (Ap 2,10; 6,9-11; 7,13-14; 12,13.17; 13,7; 16, 6; 17,6; 18,24; 20,4). Como sobreviver nesta situação e testemunhar a Boa Nova de Deus? O Apocalipse é mensagem de esperança para o povo perseguido (Ap 1,9-18). É expressão da vitória de Jesus, é pedra na construção do Reino, etapa na realização do plano de Deus (Ap 5,6-10).   5. Símbolos do passado O uso do Antigo Testamento caracteriza o Apocalipse. Um uso marcado pela familiaridade de quem se sente em casa no Antigo Testamento, pela liberdade de quem se sente herdeiro da tradição e pela fidelidade de quem quer ser fiel ao compromisso da Aliança. O Específico: a fé na ressurreição: o que marca o Apocalipse e o diferencia dos outros apocalipses é o alcance e a centralidade da fé na ressurreição. Os apocalipses judeus e cristãos não admitem este dualismo. Para eles, o que existe é o projecto de Deus e o desvio dos que se colocam contra o projecto. O poder do mal é real e é responsável pelo que faz, mas não é dono da história nem tem autonomia total. É um poder dependente e limitado. No fim todo o mal será totalmente eliminado. A vitória final será de Deus, será do bem.

out 21 2021

Proteger e promover os direitos das crianças

«Estou preocupado com o aumento de casos de abusos sexuais de crianças. Antigamente era raro ouvir no noticiário casos de abusos sexuais ou exploração de crianças no nosso País. O que é que se está a passar? Em Moçambique existe uma legislação actualizada em defesa dos direitos das crianças? Como podemos defender as nossas crianças destes “monstros”? (Carta assinada)   “As crianças são as flores que nunca murcham” Samora Machel Hoje em dia, há mais órgãos de comunicação social e redes sociais que difundem as informações encurtando cada vez mais a distância entre os povos e aumentou também a consciência social acerca deste trágico fenómeno presente em todas as sociedades. É por isso que parece que o abuso de menores seja maior agora do que no passado. A verdade é que o abusos de menores é uma praga e uma ferida aberta da nossa sociedade que deve ser curada através duma legislação específica e através da formação cívica dos cidadãos.   Até quando se é criança? O termo criança indica, segundo o n.º 1 do artigo 3° da Lei n.º 7/2008, de 9 de Julho (Legislação sobre menores), toda a pessoa menor de dezoito anos de idade. E o artigo 122° do Código Civil considera menores as pessoas, de um ou outro sexo, enquanto não perfizerem vinte e um anos de idade. Ora, através destes dois diplomas legais, percebe-se facilmente o legislador procura demostrar que estes indivíduos não têm capacidade física e mental suficiente para gerir a sua pessoa e bens, portanto, são pessoas que necessitam de protecção e cuidados para o seu bem-estar como recomenda o n. 1 do artigo 47 da Constituição da República de Moçambique.   Documentos importantes Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (DUDH), Indica no artigo 1° que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade”. Aliás, “todo o indivíduo (em especial às crianças e pessoas que precisam de cuidados especiais) tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. E ainda, todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação” (artigo 7). Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos de 1981 (CADHP). Consta do artigo 2º que, “toda a pessoa tem direito ao gozo dos direitos e liberdades (…) sem nenhuma distinção de raça, de etnia, de cor, de sexo, de língua, de religião, (…) de nascimento ou de qualquer outra situação”. “O ser humano tem direito ao respeito da sua vida e à integridade física e mental da sua pessoa. Ninguém pode ser arbitrariamente privado desse direito” (artigo 4). Em Moçambique a Constituição da República (CRM) no artigo 35 aborda a universalidade e igualdade dos direitos humanos em Moçambique mormente a igualdade perante a lei, o gozo de mesmos direitos e mesmas obrigações sem distinção da cor, raça, sexo, origem étnica, etc. O artigo 121 indica que todas as crianças têm direito à protecção da família, da sociedade e do Estado, tendo em vista o seu desenvolvimento integral; as crianças, particularmente as órfãs, portadoras de deficiência e as abandonadas, têm protecção da família, da sociedade e do Estado contra qualquer forma de discriminação, de maus tractos e contra o exercício abusivo da autoridade na família e nas demais instituições.   Lei n.º 7/2008, de 9 de Julho (Lei de Promoção e Protecção dos Direitos da Criança), cujo objecto é especificamente reforçar, estender, promover e proteger os direitos da criança. Lei n.º 8/2008, de 15 de Julho (Aprova a Lei da Organização Tutelar de Menores). Indica no artigo n. 2 que nos casos omissos os tribunais de menores devem observar, com as necessárias adaptações, as normas processuais por que se regem os outros tribunais ordinários, os princípios legais enunciados na Lei de Bases de Protecção da Criança e nos instrumentos de direito internacional de que Moçambique é parte, desde que não contrariem a natureza e os fins da jurisdição de menores. Lei n.º 6/99, de 2 de Fevereiro (Regula o acesso de menores a lugares públicos). Esta lei tem como objectivo regular o acesso de menores a lugares públicos onde se realizam actividades de recreação e de entretenimento nocturno, a compra e consumo de bebidas alcoólicas e tabaco, exposição, venda e aluguer ou projecção de filmes em videocassete interditos a menores de 18 anos de idade. Decreto n.º 35/2002, de 5 de Dezembro (Aprova o Regulamento da Lei n.º 6/99, de 2 de Fevereiro); Lei n.º 6/2008, de 9 de Julho (Lei do Tráfico de Pessoas, especialmente mulheres e crianças). Esta Lei tem por objecto estabelecer o regime jurídico aplicável à prevenção e combate ao tráfico de pessoas, em particular mulheres e crianças. Aplica-se também à prevenção e combate ao tráfico de pessoas dentro ou para fora do território nacional. Lei n.º 19/2019, de 22 de Outubro (Lei de Prevenção e Combate as Uniões Prematuras em Moçambique). É objecto desta Lei estabelecer o regime jurídico aplicável a proibição, prevenção, mitigação das uniões prematuras e penalização dos seus autores e cúmplices, bem como a protecção das crianças que se encontram ou se encontravam nessas uniões. A Lei de Combate as Uniões Prematuras, tem como objecto dentre outros, prevenir a ocorrência de uniões prematuras, proibir as uniões com ou entre crianças, adoptar medidas para fazer cessar uniões prematuras já existentes. A união entre duas pessoas formada como propósito imediato de constituir família, só é permitida a quem tiver completado dezoito anos de idade à data da união. Todo o adulto que, por si ou por interposta pessoa, noivar criança conhecendo a idade desta, será punido com pena de prisão até dois anos conforme estabelece a Lei. Lei n.º 24/2019, de 24 de Dezembro (Código Penal) O Código Penal no artigo 202determina que que quem tiver trato sexual com menor de doze anos é punido com pena de prisão de 16 a 20 anos. Por sua vez, o n. 1 do artigo 203 diz que, quem, mediante violência ou ameaça grave, praticar

out 21 2021

OS PERIGOS DO PARTIDARISMO FANÁTICO

É possível militar um partido político sem ser fanático. Numa conversa com um amigo brasileiro, ele fez um comentário segundo o qual o problema que enfermava a democracia da sua terra era o fanatismo dos cidadãos. De acordo com ele, os cidadãos brasileiros fazem política e apoiam seus partidos de forma acrítica e os defendendo incondicionalmente. Ouvir aquela lamentação deixou-me desesperado porque achei que aquela democracia da qual ele mencionava graves defeitos fosse evoluída, tal como as outras democracias ocidentais que nos inspiraram. Entretanto, o comentário que ele fez, também me fez perceber as deficiências da nossa democracia. Pelas evidências incontestáveis que o dia-a-dia não para de nos apresentar, a democracia moçambicana também não tem a qualidade desejável, justamente porque os actores políticos e, sobretudo, os membros e simpatizantes de partidos políticos são fanáticos. Mas o que é ser fanático? Bom, o dicionário da língua portuguesa diz que a palavra “fanático” refere aquela pessoa que se apaixona cegamente por uma religião, ideia ou partido. Apaixonar-se cegamente significa não questionar sobre os princípios e a coerência dessa religião, ideia ou partido, limitando-se apenas a segui-los. O fanatismo pode ser entendido também como adesão absoluta a uma ideia e emprego a todos os meios, mesmo os mais violentos para a impor. Assim, o fanatismo caracteriza-se pelo domínio e imposição aos outros de uma religião, ideologia ou convicção. Com essas características percebemos que qualquer tipo de fanatismo é perigoso. Ele pode ser a causa dos extremismos. Na ciência provoca ignorância, porque quem pensa que o que sabe é a verdade absoluta e inquestionável, nunca aprende, não evolui. Na religião o fanatismo faz pensar que a própria religião é perfeita e que é a única detentora da graça de Deus, a única verdadeira religião, a melhor religião em relação a todas outras religiões. Por isso, o fanatismo religioso provoca intolerância religiosa e violência. Podemos notar que a maior parte dos terrorismos são causados pela tentativa de pessoas fanáticas de impor sua religião aos outros. Na política o fanatismo estagna países, causa guerras, promove intolerância política e prejudica liberdades de pensamento e de expressão. Democracia doentia e consequências sociais O nosso país é constituído por um panorama de democracia ainda doentia porque ainda não aprendemos a conviver entre pessoas de partidos diferentes. Cada partido, junto com os seus militantes e simpatizantes, esforça-se a impor a sua verdade como a única. Por isso os conflitos são frequentes. Somos um país de guerras. Desde o meio rural a cidade, desde pessoas não intelectuais até as devidamente formadas, cultiva-se um fanatismo político triste. Com efeito, é o fanatismo que faz com que dois vizinhos de partidos diferentes não se dirijam palavra e se tratem como estranhos; é o fanatismo que faz com que directores de escolas ameacem seus professores caso se filiem a um partido diferente do recomendado; é o fanatismo que torna os partidos políticos inimigos e não apenas adversários políticos; é o fanatismo político que faz com que em tempos de campanha eleitoral, caravanas de partidos diferentes se violentem mutuamente; é o fanatismo que faz com que pessoas devidamente formadas e conscientes adiram a opções de viciação de resultados eleitorais; é o fanatismo político que faz com que esquemas de fraude sejam desenhados, quem pensa diferente seja morto, jornais, rádios e televisões sejam incendiados, jornalistas e académicos com opinião íntegra sejam ameaçados. O fanatismo captura a democracia e dificulta o fluir das liberdades. Temos que dizer que foi o fanatismo, enquanto afirmação absoluta de uma ideologia como sendo a mais verdadeira que as outras, que precipitou o nosso país desnecessariamente a uma guerra civil de longos 16 anos. O fanatismo torna as pessoas estúpidas. Fomos capazes de matar milhões de pessoas (ainda matamos) apenas porque discordávamos nas nossas políticas. Pertencer a qualquer partido político não é crime No estágio em que nos encontramos como um país de democracia em construção, devíamos entender que pertencer a qualquer que seja o partido político não é um crime. Expressar a própria opinião e a própria orientação política é um acto de liberdade e de direito humano. Quando um cidadão acha que o seu partido é o mais certo e obriga aos outros por meio da violência a concordarem com ele, investe sua força física e psíquica para provar que seu partido não comete erros e que está sempre certo, isso significa que esse cidadão está sendo fanático. O drama dos cidadãos fanáticos moçambicanos está no facto de eles pensarem que seus partidos, mesmo quando estão errados, eles estão sempre certos. Infelizmente temos em Moçambique muitos fanáticos militando partidos políticos. Há aqueles fanáticos que não querem que os erros de seus partidos sejam apontados. Quando alguém se atreve a apontar esses erros propondo soluções para a sua superação, insurgem-se. Mesmo contra factos, tentam fazer com que esses erros pareçam virtudes; mas também há aqueles fanáticos nos partidos que, movidos pelos seus interesses de ganhar simpatia, bajulam, divinizam quem tem poder e são capazes de atentar contra os direitos de qualquer um que colocar em causa a sua oportunidade de enriquecer. O mais triste em toda esta situação é que os fanáticos são jovens, supostamente lúcidos, formados, que pela sua tentativa de sobreviver encontram na filiação incondicional a um partido, sobretudo àquele que controla o poder, a oportunidade de encontrar e manter seu pão. Muitos deles, não são fanáticos por convicção, mas por necessidade de sobrevivência. Por falta de opções para se empregar, são capazes de fazer qualquer coisa, até mesmo de defender ideias partidárias indefensáveis, desde que isso garanta a sua sobrevivência. São estes que mais preocupam a democracia do nosso país, porque se acobardam na solução de seus interesses egoístas, alienando a construção de uma democracia genuína. O fanatismo trava o desenvolvimento Não precisamos de dizer que o fanatismo atrasa a democracia e o desenvolvimento porque toda a gente já tem domínio sobre isso. Contra uma autoridade conseguida e sustentada por fanáticos é difícil encontrar uma saída fácil. A certa altura, todos sabemos que estamos sendo fanáticos, mas

out 20 2021

Para uma alimentação saudável

Desde o inicio da a existência do humana, a culinária sempre desempenhou um papel fundamental para a sua sobrevivência, pois ninguém vive sem comer! Segundo os historiadores, a culinária, é a arte de cozinhar ou confeccionar os alimentos, a qual, foi evoluindo de acordo com a história da humanidade e possui características diferentes em cada cultura. Por outro lado, a culinária, reflecte os costumes de um povo e também se reflecte em outros aspectos culturais como as religiões (ex os muçulmanos e os hebreus entre outros)  e a política. Isso, quer dizer que, não somente os alimentos, mas também os utensílios e as técnicas utilizadas na culinária, fazem parte de um acerco cultural particular. De acordo com as mudanças comportamentais da humanidade, e com o advento da sociedade industrializada, com as pessoas trabalhando longe de casa e sem tempo para cozinhar e para fazer as suas refeições, surgiu a necessidade da comida rápida, ou o chamado “fast food” (comida pronta rapidamente). Em contrapartida, com as mudanças nos costumes alimentares das pessoas, também surgiram novas regras (ex. vegetariano, vegans etc.), e até mesmo leis, para a regulamentação da produção e venda dos alimentos da sociedade industrializada. Os estudiosos da área, concluíram que existem outras áreas subdivididas da culinária que se ocupam de desenvolver novas técnicas de preparo e estudar a fundo as funções dos alimentos, nomeadamente a Nutrição, a Dietética e a Gastronomia. De igual modo, a história, ensina-nos que no início da humanidade, antes da descoberta do fogo, os alimentos eram basicamente vegetais colhidos nas florestas e animais caçados e estes alimentos eram consumidos crus. Mas com a descoberta do fogo, a culinária mudou e os alimentos passaram a ser cozidos e isso contribuiu para o desenvolvimento orgânico da pessoa, bem como a prática da agricultura e da pecuária, que melhoraram não somente a qualidade da alimentação do homem primitivo, como também a sua quantidade e variedade. Também as técnicas e os utensílios utilizados na cozinha variam de acordo com a cultura e se adaptam à disponibilidade de ingredientes e costumes de cada povo, não esqueçamos que o primeiro utensílio culinário, foi a “própria mão”! Com o utilizo do fogo foi necessário criar utensílios para mexer a comida, já que as altas temperaturas não permitiam o manuseio. Foi então que ocorreu a descoberta da cerâmica e a produção das primeiras panelas e os recipientes para o armazenamento de água. O tempo foi passando e surgiu a descoberta da metalurgia e de outros materiais como o vidro, e os utensílios domésticos foram se adaptando e atingiram a variedade disponível no mercado de actualidade.   Culinária de Moçambique Em Moçambique a culinária é variável e tem como alimento básico a “Chima” feita de farinha de milho. A mandioca e o arroz também são consumidos como carbohidratos básicos. Todos são servidos com molhos de mariscos, tais como peixe, camarão, caranguejo, frango, carnes de vaca e de cabrito, vegetais, feijões e outros ingredientes típicos, que incluem o tomate, amendoim, coco, castanha de cajú, cebola, alho e diversas plantas aromáticas. Ainda na culinária da nossa terra usa-se a batata-doce, a batata reno e cereais como a mapira, mexoeira e marrupi.   1) CARIL DE CARANGUEJO Ingredientes: 2 Kg de Caranguejo 4 tomates médios 2 cebolas médias 4 dentes de alho, 2 folhas de louro 2 cocos 2 colheres das de sopa de pó de caril Sal (a gosto) 1 porção de gengibre 3 colheres das de sopa cheias de óleo de amendoim   MODO DE PREPARAR: Lava, limpa e parte o caranguejo. Numa panela, junta-se o tomate, a cebola, alho, louro, gengibre e óleo. Em seguida, põe-se tudo a refogar muito bem, juntamente com pequenas porções de água a ferver. Depois de cozido, junta-se a têmpora e um pouco do leite de coco. Deixa-se cozer muito bem a têmpora, acrescentando-se o leite de coco sempre que necessário. Depois deita-se o Caranguejo, e deixa-se ferver em lume brando, acrescentando-se o resto do leite do coco até ficar um molho grosso e bem apurado. Serve-se com Arroz branco solto ou com arroz em água do leite de coco.   2) MATHAPA (Folha de Mandioqueira) ou couve com Amendoim e Coco Ingredientes 1kg de folhas de mandioqueira ou couve 750gr de amendoim 2 cocos de tamanho médio 500gr de camarão fresco ou 300gr camarao seco 2L se água 2 cebolas grandes 4 tomates tamanho normal 5 dentes de alho(para mathapa de mandioqueira) Sal (a gosto)   MODO DE PREPARAR: Pila-se o amendoim até ficar em pó e dissolve-se em cerca de meio litro de água. Rala-se a polpa de coco e espreme-se num passador, juntando pouco a pouco o restante liquido, de modo a extrair todo o leite de coco. Junta-se a este leite de coco à agua com o amendoim. Cozinham-se as folhas (sem agua) durante meia hora de tempo. Se forem folhas de couve, acrescenta-se uma pequena porção de água para que fiquem tenras. Numa panela, leva-se ao lume a mistrua do leite de coco com agua de amendoim, e quando começa a ferver, juntam-se-lhe as folhas da verdura e tempera-se com o sal. Por fim, juntam-se os camarões já preparados e cozinhados e deixa-se apurar iuma hora e meia se tempo ao lume brando. Serve-se xom arroz branco ou com Xima de farinha de milho.   3) BADJIAS Ingredientes (Quantidade livre) Pasta moída de Feijão Nhemba ou Cuté Alho Piri-Piri (q.baste) Sal (q. baste) Óleo   MODO DE PREPARAR: Deixe o feijão nhemba ou cute, de molho por 24 horas de tempo; Moa o feijão com piripiri no alguidar ou no pilão e acrescente o alho e sal até é que se forme uma pasta homogénea; Leve ao fogo no óleo suficientemente quente para fritar os bolinhos do tamanho de uma colher se sopa; Use uma colher de sopa para fazer os bolinhos e colocá-los na frigideira e deixe-os por um  tempo suficiente para que fiquem alourados.   4) BOLO DE MANDIOCA Ingredientes: 1 chávena de açúcar 1 chávena de água 2 colheres e

out 20 2021

O amor político

«Existe o chamado amor “elícito”: expressos os actos que brotam directamente da virtude da caridade. Mas há também um amor “imperado”: traduz os actos de caridade que nos impelem a criar instituições mais sadias, regulamentos mais justos, estruturas mais solidárias. É caridade acompanhar uma pessoa que sofre ou vive na miséria, mas é caridade também tudo o que se realiza para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento: é a caridade política. (186).   Os sacrifícios do amor Esta caridade, coração do espírito da política, é sempre um amor preferencial pelos últimos, que subjaz a todas as acções realizadas em seu favor. Só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade. Um tal olhar é o núcleo do autêntico espírito da política (187). Isto demonstra a urgência de se encontrar uma solução para tudo o que atenta contra os direitos humanos fundamentais. Os políticos são chamados a “cuidar da fragilidade, da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade, no meio dum modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à “cultura do descarte” (…); significa assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo de dignidade”. As maiores preocupações dum político não deveriam ser as causadas por uma descida nas sondagens, mas por não encontrar uma solução eficaz para “o fenómeno da exclusão social e económica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada” (188).   Amor que integra e reúne A caridade política expressa-se também na abertura a todos. Sobretudo o governante é chamado a renúncias que tornem possível o encontro, procurando a convergência pelo menos nalguns temas. Sabe escutar o ponto de vista do outro, facilitando um espaço a todos. Com renúncias e paciência, um governante pode ajudar a criar aquele poliedro bom onde todos encontram um lugar (190).   Mais fecundidade que resultados Na política, há lugar também para amar com ternura. “Em que consiste a ternura? No amor, que se torna próximo e concreto. É um movimento que brota do coração e chega aos olhos, aos ouvidos e às mãos. A ternura é o caminho que percorreram os homens e as mulheres mais corajosos e fortes”. No meio da actividade política, “os mais pequeninos, frágeis e pobres devem enternecer-nos: eles têm o direito de arrebatar a nossa alma, o nosso coração. Sim, eles são nossos irmãos e, como tais, devemos amá-los e tratá-los” (194). Isto ajuda-nos a reconhecer que nem sempre se trata de obter grandes resultados, que às vezes não são possíveis. Na actividade política, é preciso recordar-se de que “independentemente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso afecto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida. É maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude, quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes! Os grandes objectivos, sonhados nas estratégias, só em parte se alcançam. Mas, sem olhar a isso, quem ama e deixou de entender a política como uma mera busca de poder “está seguro de que não se perde nenhuma das suas obras feitas com amor, não se perde nenhuma das suas preocupações sinceras com os outros, não se perde nenhum ato de amor a Deus, não se perde nenhuma das suas generosas fadigas, não se perde nenhuma dolorosa paciência. Tudo isto circula pelo mundo como uma força de vida” (195). Por outro lado, é grande nobreza ser capaz de desencadear processos cujos frutos serão colhidos por outros, com a esperança colocada na força secreta do bem que se semeia. Ao amor, a boa política une a esperança, a confiança nas reservas de bem que, apesar de tudo, existem no coração do povo. Por isso, «a vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais” (196). Vista desta maneira, a política é mais nobre do que a aparência, o marketing, as diferentes formas de maquilhagem mediática. Tudo isto semeia apenas divisão, inimizade e um cepticismo desolador incapaz de apelar para um projecto comum. Ao pensar no futuro, alguns dias as perguntas devem ser: Para quê? Para onde estou realmente apontando? (197)». Por Pe António Bonato

out 19 2021

DISENTERIA

O que é a disenteria? A Disenteria é uma alteração gastrointestinal em que há aumento no número e frequência de consistência mais mole e também há presença de muco e sangue nas fezes.   Principais causas A disenteria está na maioria dos casos associados com infecção por bactérias principalmente a shigella e Escherichia cóli, mas também pode ser causada por parasitas incluindo o protozoário entamoeba histolítica que também pode contaminar água e alimentos e causar a diarreia quando a carga parasitária é muito elevada. Apesar da causa mais frequente da disenteria ser infecção pode também acontecer devido ao uso de prolongado de medicamentos que podem lesionar a mucosa intestinal sendo indicado nesse caso que o médico seja consultado para que possa ser feita a suspensão ou troca do medicamento.   Sintomas de disenteria O principal sintoma da disenteria é a presença de sangue e muco nas fezes, no entanto normalmente são observados outros sinais como: Dores e cólicas abdominais, sendo normalmente indicado de lesão na mucosa intestinal. Aumento de frequência para evacuação Fezes amolecidas Náuseas e vómitos, que podem conter sangue Cansaço Desidratação Falta de apetite   Importante! Na disenteria, como a frequência das evacuações é maior há grande risco de desidratação o que pode ser grave. Por isso assim que forem notados sinais e sintomas indicativos de disenteria é importante que o médico seja consultado além de ser também importante beber no mínimo 2 litros de água e fazer o uso de soro de reidratação oral.   Prevenção de disenteria Proporcionar saneamento básico para toda a população Lavar as mãos com agua e sabão ou cinza antes e depois das refeições e depois de usar a latrina Utilizar sempre que possível agua tratada ou fervida para beber Lavar bem as frutas e hortaliças e deixa-las de molho em uma solução. Por Júlia Tarua

out 19 2021

A próxima pandemia são as mudanças climáticas

Depois da pandemia da Covid-19, o mundo vai ter de enfrentar – na verdade já enfrenta – a pandemia das mudanças climáticas, alertam peritos ambientalistas e o Papa Francisco. Desde o ano passado, por cauda da Covid-19, o mundo foi se adaptando a novas formas de viver, igrejas fechadas, teletrabalho, aulas à distância, reuniões virtuais, compras online, menos convívios entre amigos, reduzidas visitas familiares, velórios e funerais com limitada participação de familiares e amigos, enfim, uma nova maneira de organização da nossa vida. Infelizmente, essa nova forma de vida não fez desaparecer a pandemia da Covid-19 ela continua entre nós.   A outra pandemia Os ambientalistas e o mesmo Papa Francisco alerta-nos que a próxima pandemia chama-se mudanças climáticas: as alterações de temperatura provocadas no planeta terra em que vivemos, que passou a aquecer muito mais do que era, resultando num ciclo desordenado das estações do ano. Os verões e os invernos passaram a ser mais intensos, por vezes mais curtos e noutros anos mais longos. As inundações passaram a ser mais constantes e de forma mais severa. As secas deixaram de ser eventos extraordinários que só cabiam nas histórias narradas pelos mais velhos, passando a ser uma realidade que todos nós conhecemos porque vemos acontecer um pouco por todo o país.   Mudanças em Moçambique Entre 2016 e 2019, as províncias do sul enfrentaram graves secas que levaram à perda massiva da produção agrícola, gerando graves crises de fome em Inhambane, Gaza e província de Maputo. Em 2019, as regiões centro e norte foram atingidas por dois grandes ciclones: os dois ciclones de categoria 5 – Idai e Keneth. Primeiro foi o ciclone Idai que fustigou a capital da província de Sofala, Beira, matando mais de 600 pessoas só em Moçambique, mais de 300 no vizinho Zimbabwe e 60 pessoas no Malawi. A seguir, outro ciclone Kenneth atingiu Pemba, capital da rica província de gás de Cabo Delgado. Estes eventos mostram que a pandemia das mudanças climáticas já se abateu sobre nós moçambicanos. As causas? O modelo de desenvolvimento económico que o nosso país e o mundo abraçaram: muita dependência na extracção de recursos naturais e minerais (areias pesadas e pedras preciosas, carvão mineral, florestas e gás natural).   Os recursos naturais chegaram no fim? A aposta na extracção de minérios chegou a um fim de ciclo. A extracção do gás de Pande e Temane, em Inhambane, já tem um fim à vista – segundo estimativas da empresa petroquímica Sasol, não sobram mais do que 15 anos de extracção; o carvão de Moatize já está no fim da linha. Em Janeiro deste ano, o gigante brasileiro da mineração Vale anunciou que estava se retirando dos projectos moçambicanos de carvão na província de Tete como parte de seu compromisso de emergência climática para acabar com a produção de carvão. O anúncio foi feito 15 anos depois de a província carbonífera moçambicana de Tete ter-se tornado um lugar imaginário nos sonhos de empresas, funcionários, pequenos e médios empresários, um El Dorado Tete, como eu e o colega economista João Mosca intitulámos o livro que publicámos em 2011.   Como enfrentar o problema? Temos respostas para essa pandemia das mudanças climáticas? Temos sim, mas são difíceis de implementar, tal como o são todas as medidas de política que visam a sobrevivência dos povos e das nações. Sob o lema Unindo o mundo para enfrentar as mudanças climáticas, a próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26) — a ter lugar em Glasgow, no Reino Unido, entre os dias 01 e 12 de Novembro de 2021 — reunirá representantes de cerca de 200 governos com o objectivo de acelerar a acção climática para cumprir o Acordo de Paris. Esse acordo rege as medidas de redução de emissão de gases estufa a partir de 2020, a fim de conter o aquecimento global abaixo de 2 graus centígrados, preferencialmente em 1,5 graus centígrados, e reforçar a capacidade dos países de responder ao desafio, num contexto de desenvolvimento sustentável. O acordo foi negociado em Paris, capital da França, durante a COP21 e aprovado em 12 de Dezembro de 2015.   BOX “À vista da deterioração global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exortação Evangelii Gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (Papa Francisco Encíclica “Laudato Si’). Desta forma, conforme nos exorta o Papa Francisco, a nossa resposta aos desafios e ameaças das mudanças climáticas deve consistir primeiro na tomada de consciência da degradação das condições de vida neste planeta Terra, por via dos eventos climáticos adversos; segundo, devemos mudar de atitude individual e colectiva, como famílias, comunidades e países. Devemos proteger este planeta, pois trata-se de proteger “a nossa casa comum.” Em termos práticos e concretos, devemos repensar o nosso modelo de desenvolvimento que assenta na extracção massiva, descoordenada e inconsequente de recursos naturais; precisamos de adoptar novas práticas de agricultura, com menos queimadas. A “casa comum” espera por nós, protejamo-la! Por Tomás Selemane

out 18 2021

Terrorismo em Cabo Delgado e os Rosto dos rebeldes

O governo de Moçambique em várias ocasiões lançou a mensagem que o país enfrenta um inimigo “sem rosto”, não existindo canais de comunicação, pelo que se desconhecem as suas pretensões. O Observatório do Meio Rural (OMR) através do seu pesquisador, Dr. João Feijó, argumenta o contrário. Aqui vai o resumo do documento. «O documento apresentado (pelo OMR) resulta de informação recolhida a partir de 32 entrevistas a indivíduos raptados (a esmagadora maioria mulheres), mas também a antigos vizinhos, professores, superiores hierárquicos e colegas das pessoas analisadas. Grande parte dos entrevistados conviveu com os indivíduos em causa antes do processo de radicalização ou durante o seu cativeiro. (É de recordar que também o Secretário de Estado dos USA, dias antes da publicação do documento do OMR, anunciou a designação de 5 lideres terroristas em África e entre esses, está o líder dos terroristas que actuam em Cabo Delgado).   Rosto dos rebeldes Não obstante a presença de estrangeiros, a esmagadora maioria dos membros do grupo são moçambicanos, oriundos maioritariamente dos distritos de Mocímboa da Praia, Palma, Macomia e Quissanga, mas também do planalto de Mueda, do litoral de Nampula e da província do Niassa, entre outras regiões. Entre eles destacamos: o líder do grupo é largamente conhecido na região, ainda que por vários nomes como Bonomado Machude Omar ou Ibn Omar, natural de Palma e crescido em Mocímboa da Praia. O executivo de Omar, aquele que passa instruções no terreno, é identificado por Mustafá natural de Mocímboa da Praia. Maulana é o nome próprio, constitui um dos comandantes mais destacados pelos indivíduos que estiveram em cativeiro, pelo facto de se apresentar como engenheiro agrónomo. De acordo com as testemunhas, trata-se de um indivíduo natural de Lichinga. Enfim, Rosa Cassamo nasceu em Cabo Delgado, e reconhecida como chefe de logística em Ilala e Mucojo (distrito de Macomia). Hoje é considerada de mãe, no seio de insurgentes, desempenhando um papel importante na mobilização de várias mulheres do seu povoado, para ingressassem na insurgência.   O que proclamam e o que praticam? Exceptuando algumas comunicações pela agência AMAQ (agência oficial do Estado Islâmico), o grupo não aposta na comunicação formal com o exterior. Os canais utilizados para apresentarem as suas reivindicações consistem, sobretudo, em pequenas palestras após os ataques, em sessões de doutrinação com indivíduos capturados, mas também mensagens e pequenos vídeos, que circulam pelas redes sociais. O grupo adopta um discurso propagandístico anti-governamental, criticando as políticas do governo de Moçambique, que consideram responsável pela exclusão social e pela injustiça. A democracia é apresentada, literalmente, como um sistema que permite que os ricos se tornem mais ricos à custa dos pobres. De acordo com o grupo, a solução para o caos social reside no derrube do Governo e na adesão áquilo que se poderia designar de Sharia (Lei islâmica). O discurso religioso é articulado com um discurso nacionalista (“Implementar a religião muçulmana, porque a terra é nossa”) e de primazia dos locais no acesso aos recursos de poder.   Complementar a via militar com reformas e diálogo Ao invés de reconhecer a existência de problemas sociais internos, habilmente capitalizados pelos insurgentes para o seu esforço de guerrilha, promovendo reformas e abrindo canais de comunicação, o Governo de Moçambique vem privilegiando uma estratégia militar. Nas últimas semanas (cf. Mês de Julho), foi anunciado um grande contingente militar estrangeiro, oriundo do Ruanda e da SADC, e consolida-se uma operação de grande envergadura sobre uma área de cerca 30.000 km2, maioritariamente composta por floresta densa, onde o inimigo demonstra capacidade de camuflagem. Porém com este texto pretendemos demonstrar que, contrariamente ao discurso oficial, os líderes moçambicanos do grupo dos “machababos” são largamente conhecidos por populações do Nordeste de Cabo Delgado (por líderes religiosos e comunitários, antigos professores, vizinhos e familiares), inclusive pelas Forças de Defesa e Segurança. Portanto apelamos para que se explorem canais negociais com os insurgentes, capacitando e envolvendo líderes locais, possibilitando condições para ajuda humanitária de civis, libertação de pessoas raptadas, promovendo amnistias e mecanismos de acesso aos recursos naturais, valorizando a importância do Islão na sociedade moçambicana». (F.J.) Por OMR (Destaque Rural n. 130 10/8/21)   BOX Em Cabo Delgado desde o mês de Julho operam um contingente militar ruandês e um contingente militar composto por militares dos países pertencentes a SADC. O Presidente moçambicano, em declarações na 41ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), que se realizou no dia 17/08, na cidade de Lilongwe, Malawi, afirmou que a intervenção militar contra os grupos armados em Cabo Delgado deve ser complementada com projectos de desenvolvimento social e económico, visando a eliminação das causas que favorecem o “extremismo violento”… “Estamos cientes da necessidade de complementar essas intervenções militares com o apoio humanitário imediato e investimento no desenvolvimento a médio e longo prazos”. Filipe Nyusi apontou igualmente a prevenção e sensibilização dos cidadãos da SADC contra o extremismo violento, observando que este fenómeno é uma ameaça à paz e segurança regional. “A paz e segurança constituem um dos alicerces do processo de integração regional” visando “propiciar a promoção da cooperação e desenvolvimento social para o progresso e bem-estar dos povos” (DW 17/8)

out 18 2021

O Valor do testemunho

“Não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos” (At 4, 20), é o tema da mensagem do Papa Francisco, por ocasião do Dia Mundial das Missões 2021. «Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que nos é revelada no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa mostram-nos até que ponto Deus ama a nossa humanidade e assume as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos anseios e angústias (cf. Gaudium et Spes, 22). Tudo, em Cristo, nos lembra que o mundo em que vivemos e a sua necessidade de redenção não Lhe são estranhos e também nos chama a sentirmo-nos parte activa desta missão: “Ide às saídas dos caminhos e convidai todos quantos encontrardes” (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado deste amor de compaixão.   A experiência dos Apóstolos A história da evangelização tem início com uma busca apaixonada do Senhor, que chama e quer estabelecer com cada pessoa, onde quer que esteja, um diálogo de amizade (cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos são os primeiros que nos referem isso, lembrando inclusive a hora do dia em que O encontraram: «Eram as quatro da tarde» (Jo 1, 39). A amizade com o Senhor, vê-Lo curar os doentes, comer com os pecadores, alimentar os famintos, aproximar-Se dos excluídos, tocar os impuros, identificar-Se com os necessitados, fazer apelo às bem-aventuranças, ensinar de maneira nova e cheia de autoridade, deixa uma marca indelével, capaz de suscitar admiração e uma alegria expansiva e gratuita que não se pode conter. Com Jesus, vimos, ouvimos e constatamos que as coisas podem mudar… Tempo novo, que suscita uma fé capaz de estimular iniciativas e plasmar comunidades a partir de homens e mulheres que aprendem a ocupar-se da fragilidade própria e dos outros, promovendo a fraternidade e a amizade social. A comunidade eclesial mostra a sua beleza, sempre que se lembra, com gratidão, que o Senhor nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19).   A primeira comunidade apostólica E, no entanto, para a primeira comunidade apostólica, os tempos não eram fáceis; os primeiros cristãos começaram a sua vida de fé num ambiente hostil e árduo. Histórias de marginalização e prisão entrelaçavam-se com resistências internas e externas, que pareciam contradizer e até negar o que tinham visto e ouvido; mas isso, em vez de ser uma dificuldade ou um obstáculo que poderia levá-los a retrair-se ou fechar-se em si mesmos, impeliu-os a transformar cada incómodo, contrariedade e dificuldade em oportunidade para a missão. Os próprios limites e impedimentos tornaram-se um lugar privilegiado para ungir, tudo e todos, com o Espírito do Senhor. Nada e ninguém podia permanecer alheio ao anúncio libertador…   Os nossos dias O mesmo se passa connosco: o momento histórico actual também não é fácil. A situação da pandemia evidenciou e aumentou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças de que já tantos padeciam, e desmascarou as nossas falsas seguranças e as fragmentações e polarizações que nos dilaceram silenciosamente. Os mais frágeis e vulneráveis sentiram ainda mais a sua vulnerabilidade e fragilidade. Experimentamos o desânimo, a decepção, o cansaço; e até a amargura conformista, que tira a esperança, se apoderou do nosso olhar. Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome dum sadio distanciamento social, é urgente a missão da compaixão, capaz de fazer da distância necessária um lugar de encontro, cuidado e promoção. «O que vimos e ouvimos» (At 4, 20), a misericórdia com que fomos tratados, transforma-se no ponto de referimento e credibilidade que nos permite recuperar e partilhar a paixão por criar “uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens” (cf. Fratelli Tutti, 36).   Um convite a cada um de nós O tema do Dia Mundial das Missões deste ano – «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20) – é um convite dirigido a cada um de nós para cuidar e dar a conhecer aquilo que tem no coração. Esta missão é, e sempre foi, a identidade da Igreja. No isolamento pessoal ou fechando-se em pequenos grupos, a nossa vida de fé esmorece, perde profecia e capacidade de encanto e gratidão; por sua própria dinâmica, exige uma abertura crescente, capaz de alcançar e abraçar a todos. No Dia Mundial das Missões recordamos com gratidão todas as pessoas, cujo testemunho de vida nos ajuda a renovar o nosso compromisso baptismal de ser apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Hoje, Jesus precisa de corações que sejam capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, que os faça sair para as periferias do mundo e tornar-se mensageiros e instrumentos de compaixão. E esta chamada, fá-la a todos nós, embora não da mesma forma. Lembremo-nos que existem periferias que estão perto de nós, no centro duma cidade ou na própria família. Há também um aspecto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial… Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã. Que o seu amor de compaixão desperte também o nosso e, a todos, nos torne discípulos missionários.   Papa Francisco

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